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quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Cold, Cold Heart


O primeiro frio de verdade que eu peguei, não foi em São Paulo. Foi na Europa, e foi um valor negativo, -14. Lembro até hoje, porque como menino vindo do coração da Amazônia, eu nunca tinha sequer passado por nada que fosse abaixo de 17 graus, e isso vindo de um ar-condicionado alucinadamente forte, de uma sala de aula. A sensação que me veio em estar no meio daquele frio cobriu algumas emoções ruins que tive estando naquela viagem em específico, e nuna me esqeuci da sensação. Foi a primeira vez que eu vi neve também, falando nisso. 

O segundo frio de verdade foi menos forte, mas de certa forma bem mais impactante. Era 2015; eu tinha acabado de me mudar para São Paulo, contando então com 27 anos, para estudar mestrado na gloriosa USP. Eu não sabia que aqui havia inverno, ou pelo menos não sabia exatamente o que esperar. Como eu já tinha vivido um frio negativo (a minha experiência na Europa foi bem antes de vir para Pauliceia desvairada), achei que ia conseguir encarar bem os 15, 16 graus que aqui fizessem. 

Eu estava errado. 

É até engraçado lembrar disso agora, que adquiri uma resistência ao frio (ao ponto de minha esposa me apelidar de "forno ambulante"), mas eu realmente sofri com o frio de Sampa. Tentei resistir, num esforço de bazófia que servia para nada, e continuei fingindo que estava tudo bem, mas a verdade se mostrou em uma noite, quando do nada acordei com as narinas doloridas, e com a respiração soltando fumacinha, dentro do kitnet onde morava. Foi quando decidi comprar um mini-aquecedor, que uso até hoje. 

Mas muito além do frio físico, em São Paulo eu sofri o frio interno, espiritual por assim dizer, e por isso creio que ele foi mais marcante para mim. Eu estava sozinho pela primeira vez, numa cidade distante de pessoas que se importassem se eu vivia ou morria. A tristeza de estar sozinho é uma coisa real, e eu acredito que nunca me senti tão só quanto nesses dias. O hedonismo ajudava, mas eu sempre teria que ir para casa, e deitar, e sentir o frio dentro do coração. 

Hoje, eu sou casado com uma mulher que me chama de sol, mas que é ela em si, o sol que aquece minha vida. Mas ainda assim, em dias frio como os que teremos nesta semana (aparentemente uma "onda histórica de frio", nas palavras da BBC Brasil), eu olho para fora e penso, humildemente penso, naqueles dias e nas marcas que eles me deixaram; penso nas pessoas que moram nas ruas, e sofrem mais do que nunca em dias frios como esses, mas que também sofrem em dias quentes, porque São Paulo muita vezes parece se orgulhar de ser uma cidade que não se importa; e penso também em todas as pessoas que agora, em meio a uma pandemia e crise, ainda tem que carregar dentro de si seu próprio frio no coração, seja de uma forma ou de outra. Este frio tão forte, tão dolorido, que chamamos Solidão.

domingo, 9 de agosto de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Jedi (K)Nights

Arte por Guillem H. Ponpigiluppi

Em momentos de tristeza e pânico, a ficção torna-se nosso principal refúgio. E, como bom nerd velho, eu tenho mais de um refúgio para onde escapar.

Um clássico é, obviamente, quadrinhos. Leio HQs desde criança, começando com Turma da Mõnica (como o fizeram, suponho, quase todos os brasileiros), seguindo pelos quadrinhos disney, e chegando nos super-heróis como Homem-Aranha (um favorito, confesso), Batman, e outros. Fui uma criança abençoada nesse sentido: meus pais nunca me proibiriam realmente de ler o que eu gostava, e assim pude explorar meus gostos com todo o apoio deles. é claro que, com o tempo, fui seguindo para leituras mais complexas que essas, mas a verdade é que nunca larguei por completo este mundo.

Como exemplo maior, estes tempos eu tenho me enveredado muito pelo mundo de Guerra nas Estrelas (Nunca na minha vida irei chamar de Star Wars). Esse é um dos amores nerds mais antrigos: ainda lembro de ver o filme na Sessão da Tarde, muito antes deles irem para o SBT com nova dublagem. Vi a trilogia nova (que agora não pode ser mais chamada assim, detalhes de produção) ainda nos cinemas, e tive bonecos e joguinhos para me divertir.

Sim, o mundo da Força e dos Jedis e Siths me atraiu muito.... talvez porque logo de cara, quando os filmes nos prometem uma história "há muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante". ative-se um botãozinho na sua mente, e você seja transportado para este universo completamente diferente, com suas regras próprias, políticas específicas... longe dos problemas que o prendem neste vale de lágrimas que chamamos de planeta Terra. Guerra na Estrelas é um bálsamo para os problemas do mundo, mesmo para uma criança que talvez não tenha os maiores dos problemas.

Para um adulto então, eu tenho visto que é quase uma coisa necessária para a sobrevivência de algo que pareça um pouco esperança. E é fato que nós que somos fãs deste universo ficcional somos muito afortuandos em tempos atauis: há series (O Mandaloriano, a melhor série que jamais esperei gostar, dada a relativa falta da magia habitual deste mundo), jogos (Fallen Order é um jogo que está me encantando cada vez mais, mesmo com seus bugs habituais), e filmes novos, que embora controversos (não para mim, gostei de todos eles), esão aí fornecendo material novo para a fantasia de imaginação de uma nova geração de nerdinhos.

Nesses tempos de tanta morte, descaso com o ser humano, desrespeito, onde o que há de pior na humanidade parece crescer e enraizar-se cada vez mais.... è sempre bom ter uma obra que nos fala da importância da esperança em tempos sombrios, de se acreditar no outro contra todas as expectativas, da possibilidade de um mundo melhor. Mesmo que essas coisas aconteçam só ali, no mundo da imaginação, é a partir dali que nascem as sementes da realidade. Esta guerra que travamos, neste país e em nós mesmos, precisa de alimento para a alma, e este é o meu. Um dos meus, pelo menos. E assim, passo as noites numa galáxia muito, muito distante.


quinta-feira, 30 de julho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Ode ao professor Raimundo

Fonte: Site Observatório da TV

Sou um homem de sorte. Além da minha vida pessoal ser linda neste momento, obrigado, eu tenho trabalhado com algo que gosto muito, que é ensinar Inglês. Para quem não sabe, sou formado em História, mas tenho uma vasta experiência como professor de Língua Inglesa, ao ponto de poder dizer que tenho mais experiência como professor de inglês, que de História, curiosamente.Ou não tão curiosamente assim, já que fui eu mesmo quem buscou este caminho.

Foi uma profissão que sempre me encheu os olhos, a de ser professor. Pode-se dizer que tenha havido aqui alguma influência dos meus pais aqui: Minha mãe, particularmente, certamente foi uma pessoa que me inspirou a ser professor. Muito da minha postura como profissional devo a ela, das observações que fiz de seu trabalho ao longo dos anos que moramos juntos. Não tudo, é claro: Ainda sou uma pessoa um tanto, digamos, laissez faire no que diz respeito à organização de documentos e coisas mais burocráticas que nós professores precisamos fazer. Mas com certez,a o melhor de mim como professor,, devo à Dona Gleice.

Hoje trabalho como professor à distância, especificamente via Zoom e skype, como muitos colegas devem estar fazendo em tempos de Covid-19. Não digo que tenha uma vida fácil. De fato, há dias que parece que nunca estive tão cansado como quando dou 3 aulas direto . Mais cansado até, do que se tivesse feito as mesmas aulas em sala de aula: Li em algum lugar que o foco de uma pessoa trabalhando no computador home-office é redobrado, porque o indivíduo fica mais facilmente distraído pelas coisas e pessoas ao redor: filhos, animais de estimação, campainha tocando ao longe.  Se assim for, isso explica porque todo dia acordo ainda mais cansado que o dia anterior.

Mas apesar disso sou sortudo, muito sortudo, porque tenho amigos que são professores regulares, e que além dessa tensão toda, ainda encaram a idiotice de donos de escolas querendo reabrir seus estabelecimentos em plena pandemia. Donos que só pensam no lucro, se recusando a ver  a suprema estupidez e risco que é reabrir um ambiente onde jovens e crianças vão necessariamente conviver além dos limites estabelecidos, e que carregarão a doença para seus lares, onde dançaremos mais uma vez a dança da morte que tanto convivemos neste primeiro semestre de 2020. Hoje mesmo ouvi falar de um dono de escola que foi fazer uma carreata clamando pela reabertura das escolas: é a definição de estupidez.

Ainda assim, lá estão os professores , com todas as reclamações sobre ter de usar uma tecnologia de forma quase improvisada, sem qualquer treinamento por parte das escolas; tendo de praticamente tornarem-se youtubers para manter a atenção de jovens francamente entediados e em choque com a situação de um mundo em declínio; e se preocupando consigo e com seus entes queridos, posto que são humanos como todos nós. Sim, lá estão eles, e este pequeno texto é só mais uma forma de homenageá-los, embora eu saiba muito bem que o que seria melhor era respeito e um salário justo.

Um dia amigos, quem sabe um dia. 

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: O Catálogo Das Coisas Específicas



Na madrugada da alma, que muitas vezes combina com a madrugada normal de horários e tudo mais, pensamos nas coisas mais loucas, do engraçado ao trágico. Por que o gosto de peito de peru é algo tão peculiar com um determinado de tipo de maionese? Por que aquele garoto se suicidou no meio de um Domingo ensolarado? O que será que eu vou cozinhar amanhã para o almoço? Sabe, coisas assim, aleatórias.

Numa dessas madrugadas, pensei nas músicas reais que ainda existem. Todos nós conhecemos essas canções: são aquelas que você sente o sentimento verdadeiro por trás. Talvez às vezes não seja realmente o sentimento do cantor, talvez as palavras não representem totalmente a dor que carrega em seu coração, mas com certeza ele cantou com sua alma ali. Fingiu que era dor a dor que deveras sentia, como diz o Fernando Pessoa. Você pensaria que essas obras são muito comuns, mas ao contrário, elas tem sido cada vez mais raras; em tempos plásticos, músicas plásticas são as mais pedidas. Arte plástica em geral, ou talvez eu seja um velho ranzinza de 32 anos.

Pensando nisso, lembrei de uma outra preferência específica que tenho: fotos preto em branco, de uma pessoa à vontade, olhando com amor para a lente que captura a imagem. Agora sim, eis um item que é extremamente específico. Boa sorte procurando isso no Google: muitas vezes tentei e só encontro as fotos clássicas, sabe, mega posadas. Eram tempos difíceis para fotos, muitas vezes elas levavam quase 20, 30 minutos. A magia, evidentemente, sumia nesse meio tempo. 

Mas no fim, sabe o que é mais difícil de encontrar por aí? Emoções genuínas. As pessoas falam muito de tempos líquidos, mas elas estão erradas, e muito. É uma era de emoções plásticas: brilhantes e aparentemente duradouras, mas falsas. apagadas com o tempo. Em dias assim, eu luto para encontrar  as migalhas de emoções verdadeira,s seja em canções, fotos, comidas feitas com amor. No começo é imperceptível, porque suas sensações estão diluídas pelo lixo que você chama de emoção real; mas com o tempo, seu paladar se apura, como se provasse um bom vinho. 

E assim, falando em vinho, proponho um brinde: às coisas com verdadeiros sentimentos. Que sejam poucas, porque assim são mais intensas; mas que sejam eternas também, pelo menos enquanto durem.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Reflexo do passado

Fonte: Getty Images


O Facebook, vocês sabem, tem uma coisa que se chama "lembranças". Você também tem, estou certo, mas as do Facebook são diferentes: ele mostra pra você algumas publicações antigas (sejam fotos, textos, ou um link qualquer), e pergunta se você quer compartilhar isso. Algumas  não precisava nem perguntar: é deletada na certa. Outras são mais suaves, e bonitas: essas são as que mais mexem com a gente. Nesses dias, que estamos presos em casa, as memórias podem ser as melhores fugas que temos.

Mas nem sempre é o que ocorre. Pois é fato que ao passar do tempo, mudamos dia a dia, ano a ano ; e a nossa versão anterior é uma casca que vai aos poucos se rachando, e dando lugar à nossa versão atual, que também irá dar a lugar a uma versão futura, num ciclo que prosseguirá até a nossa partida. E quando somos confrontados com uma versão anterior de nós mesmos, é posssível que surjam uma série de emoções: a mais comum é vergonha, seguida de perto por vontade de rir alto de si mesmo.

Quanto a mim, não sou exceção à regra: é muito comum eu ver surgir nas lembranças da rede social, opiniões que eu tinha, e piadas bizarras que eu fazia, que não condizem em absoluto com quem eu sou hoje em dia. Veja, até mesmo um passado reacinha eu relembrei - não sem passar uma absoluta vergonha própria de como a desinformação me levava a ter um posicionamento agressivo por nada. O vinho da juventude é amargo com nossos erros; muito melhor é o frescor da limonada de nossa Experiência.

Mas sempre me pergunto, quando vejo isso: qual conselho eu daria ao jovem Alfredo neto? Será que o advertiria dos dissabores que viriam ao longo dos anos? Ou as alegrias que viriam adoçar sua vida, que em muitos momentos parecia não ter fim em angústia? Não sei. Só sei que ele provavelmente não me ouviria e me mandaria pra bem longe. Ainda assim, há em mim uma ternura inescapável, e a vontade abraçar a mim mesmo do passado é grande: Pois, naqueles dias, eu não sabia ainda como sentir a vida.




terça-feira, 7 de julho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Aqui, ninguém vai pro Céu


Hoje minha mãe, uma grande professora de português e literatura, passou para seus alunos uma versão da música consagrada de Criolo, "Não existe amor em SP", com ele cantando junto com o Milton Nascimento. Uma canção belíssima, ainda mais nesse bate-bola entre dois cantores excelentes. Recomendo muito que se busque e ouça profundamente, de olhos fechados, numa sala escura.

Quanto a mim, eu já tinha ouvido essa versão antes. E a canção original também, anos atrás, em um kitnet numa rua no coração do Butantã.

Eu estava em São Paulo, sozinho, e era o primeiro inverno que eu passava de verdade. Entenda, na minha terra natal, "inverno" é mais uma questão filosófica, que física, real. A Amazônia só conhece períodos de mais ou menos chuvas, não o frio intenso, de Julho, que vem enganador com seus 17, 18 graus de manhã, e seus 2, 3 graus na madrugada. Muitos podem dizer que isso não é frio de verdade: eu posso dizer que não me importo com o que acham. Era frio para mim, e é isso que importa.

Então, eu ouvia músicas aleatórias,e encontrei "Não existe amor em SP". O Kitnet era frio e pqeueno, então o som ecoou por todo o espaço. Naquele dia, eu acho que encontrei a melhor explicação para o que eu sentia, para toda minha solidão. A música se tornou uma espécie de hino mental: eu a ouvia em minha cabeça quando pegava ônibus, quando estava andando nas ruas, quando caminhava para estudar na USP. 

Tempos depois, conheci minha esposa, e me pareceu que eu exgerava um pouco sobre como São Paulo era. Até conhecê-la, eu creio que não acreditava em pessoas que fossem, de fato, preocupdas com coisas mais suaves - pelo menos não do jeito que ela o faz. Conheci Aline e me apaixonei: e então, para mim, a música não fazia mais sentido. Existia amor em SP.

Fui um tolo, é claro. Porque Criolo não está falando de indivíduos; ele está falando da cidade em si. Da alma da cidade, do que agita a grande massa que anda nas ruas, que a faz agitar-se, agir. E a última coisa que passa pelo coração dessa massa é amor. Como pode existir amor em SP, com pessoas morrendo de frio nas ruas?  Com tantos clamando pela reabertura sem a menor preocupação com as mortes , com cuidados para evitar as mortes? Uma cidade que elegeu um prefeito que teve como atitude molhar os moradores de rua, no inverno, com jatos de mangueira?

Aqui é a cidade sem coração. Os pobres são degraus de riqueza para os ricos, ninguém sequer se importa se eles morrem ou não. Ou você acha que os números de casos de corona na região mais pobre importam para os mais ricos? Evidentemente que não, porque senão haveria um esforço maior da própria sociedade para ajudar essas pessoas. Ao contrário, elas são impulsionadas à morte - e por isso, mergulham na dança do desespero para não pensar no que se envolvem todo o dia, só para sobreviver. A classe média, na qual estou incluso, não está à salvo: somos apenas mandriões chorões, lamentando a falta de humanidade das pessoas, ou somos aspirantes a uma riqueza que amais chegará, porque compramos a ideia da meritocracia, a pior cenoura já criada para fazer cavalgar um cavalo chucro.

Está é São Paulo. Venha nos visitar, temos sanduíches, lojas, e mortos por descaso. Mas é só não olhar para eles que fica tudo bem, se duvidar dá até para fazer o selfie e editar depois o morador de rua esfomeado lá no fundo.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Elegia



Hoje, marcamos quase um milhão e meio de infectados no Brasil, e mais de sessenta mil mortes.  Pra você ter uma ideia, em 2019, morreram de homicídio neste país pouco mais de 40.000 pessoas, de acordo com os dados oficiais - e isso de uma das mortes que nós, em tese, mais nos preocupamos. E isso num ano todo: ainda estamos em Julho, acabamos de começar o segundo semestre.

Se formos considerar mortes por causas respiratórias, o principal sintoma do Covid-19, os dados vão se acumulando em emergência:  O Brasil teve um aumento de 8,15% de mortes por essa causa, de acordo com a ARPEN (Associação de Registradores de Pessoas Naturais).  Evidentemente. o principal contribuidor disso é o Corona, a despeito do que insite em acreditar o presidente Bolsonaro, quando afirma ser tudo um grande exagero da imprensa.

E no entanto, temos um culpado maior nisso tudo, ou ao menos em uma das áreas que mais afetam nossa sociedade atualmente. Pois veja, não podemos fazer nada a respeito das questões estruturais: resta-nos esperar que os nossos representantes no poder façam algo que possa nos ajudar a sobreviver a esta crise maldita, a esta peste moderna. Alguns estão ajudando, outros estão claramente atrapalhando (cofcof Bolsonarolazarento cof cof), mas é inegável que esta bola, não nos pertence.

Contudo, existe uma série de coisas que poderìamos estar fazendo melhor, e simplesmente nos recusamos a tanto. Talvez por estarmos cansados da quaretena que não acaba, talvez por puro e simples egoísmo, Muitos de nós estão vacilando nos cuidados, e digo isso com pesar no coração, pois alguns destes que vacilam eram justamente parte dos poucos que ainda se valiam de tentar respeitar a quarentena. Talvez também seja uma falsa esperança: afinal, se na Europa já estão reabrindo, porque não no brasil, esta terra que certamente já sofreu tudo que tinha de sofrer, na visão dos iludidos?

E toca haver bares disfarçados de pet-shop, para poder funcionar escondidos. Toca desativar hospitais de campnaha, na esperança que tudo jáa está acabando. Até mesmo conversa sobre retorno do campeonato carioca estão acontecendo - tudo seguindo, de acordo com as autoridades, "o máximo de proteção necessário para isso", como se  houvesse possibilidade de se proteger da doença em meio a um jogo acirrado. Não falo aqui dos trabalhadores essenciais: esses tem todo meu apoio e suporte. Falo dos que insistem em sacrificá-los, sem ao menos garantir que eles tenham o mínimo de segurança. Não à toa, o percentual de pessoas infectadas com coronavírus nos bairros pobres da cidade de São Paulo, a maior metrópole do país, é 2,5 vezes maior do que nos ricos. Ou seja, eles simplesmente não se importam se o pobre morrer: a ideia aqui é reabrir tudo, e que morram os (pobres) que tem que morrer.

E falando de morrer, essa sim é a nossa principal falha, nós, humanos, cidadãos, viventes. pois cada um desses números para nós, tornou-se apenas isso: um dado numérico. Um algo que olhamos todos os dias, e anotamos na agenda mental na nossa cabeça. Hoje 60 mil; amanhã talvez 62 mil? 63 mil? Quem pode saber? Fazemos isso, e esquecemos que cada uma dessas pessoas estava viva, tinha planos, sonhos, como nós. Era alguém que aqui estava, e depois partiu, em dores, afogada em si mesma. Não lamentamos a morte dessas pessoas, exceto quando é da nossa família, ou é alguém conhecido. E no entanto, é preciso pensar neles. Ao menos um pouco, ao menos por alguns momentos, precisamos absorver a enormidade das mortes que estamos observando. Precisamos rehumanizar a nós mesmos.

As coisas não podem ser apenas "vida que segue". Não podemos deixar que cada pessoa morta tenha sido apenas um degrau pra gente voltar à dita vida normal, sem qualquer elegia por elas. Sem um pensamento de conforto, de piedade. Se nos fizermos dessa maneira, podemos sair incólumes da
covid, mas nunca mais nos recuperaremos da doença no espírito que causamos a nós mesmos.


quarta-feira, 24 de junho de 2020

Relatos da Cidade Pandêmica: Benjamin, o lixeiro

Fonte: Istockphoto

"O meu cargo, na real, é de gari, mas estou na coleta de lixo por uns 5, 6 anos já. Sempre trabalhei de noite; minha cabeça funciona melhor, meu corpo se arruma bem, sei lá, eu prefiro. Mas já tive que trabalhar de manhã também. Sempre coletando o lixo: com o tempo a gente pega a experiência com isso.

O salário é uma bosta pro que a gente passa. Média de 1200 contos aqui na cidade que eu moro,  correndo risco de se cortar com vidro que uns moradores arrombados botam junto com o lixo comum; correndo de gente armada ali nas ruas mais perigosas; a humilhação de passar e ser julgado como se fosse mesmo o lixo que a gente carrega. esse, aliás, é um dos motivos que a gente aqui de noite prefere esse horário, menos gente, menos aporrinhamento.

Não posso dizer que cruzei a cidade toda, tenho o setor que eu trabalho direitinho. Mas aqui é grande, e variado, então eu sei bem quais as mudanças que tem de cada bairro, em cada parte. A cidade é insana, tem ruas que você só vê mansões, basicamente, e outras partes só casinhas de tijolo cru, uma laje cinza acima. O que sempre tem é um cachorro. Toda rua tem pelo menos um cachorro solto , olhando de longe ou seguindo a gente. Às vezes eles latem e perseguem, mas sendo honesto nem é tantas vezes, pelo menos nesses 6 anos. Alguns a gente até tem amizade, falando à vera pra ti.

Nessa pandemia? Vivendo e segundo, meu irmão. Trabalhador essencial. Sigo pelas ruas, correndo atrás do caminhão, jogando o lixo na caçamba. passo pelas festas que a galera faz, apesar do tal do Fica em Casa que vivem falando. Olho e fico pensando, meu Deus, o que será que faz a pessoa desistir assim? Porque sabe, na minha cabeça, isso não é descrença, é desistência mesmo. Da vida, de um caminho melhor. Não julgo, falar a verdade. Já fui assim.

Mas isso tudo, eu penso rápido mesmo, valeu? Porque daqui a pouco vem a curva, tem que segurar forte: ainda tem mais de 4 horas de turno, e a noite nem começou direito. Olha o que tem aqui no saco: vidro de novo. Eu te falei, mano, o lixo pior é a bosta da pessoa que faz a gente se sujeitar a isso."


segunda-feira, 22 de junho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Neon Demon

Fonte: PS Store

A obsessão atual com os anos 80, e talvez o começo dos 90, não é de hoje, na verdade. Se bem me lembro, ela começou como uma semente ali pelo começo de 2001, 2002. Certamente não estava presente nos anos 90, pelo menos até aonde me lembro: talvez estivéssemos perto demais para sentir saudade, próximos temporalmente, ansiosos pelo que o futuro traria.

E eu posso entender bem isso. Os anos 80 foram uma período bem terrível no Brasil e no mundo, algo como que uma cereja no bolo de cocô que foram os anos 70 e 60, particularmente no âmbito social. É claro que havia um afã econômico em muitos lugares, mas os direitos sociais eram engolidos a passos largos, ditaduras eram impostas sem cessar, gerações e gerações eram sufocadas pela  vigilância paranóica e violência. Quando vieram os anos 80, com sua grave crise econômica e a eminente guerra nuclear, acho que não veio ser realmente uma surpresa para ninguém.

E quando eles acabaram, tivemos os anos 90. E que respiro deve ter sido, sair de um período sombrio com novas possibilidades. A Guerra Fria estava terminada, a Ditadura Militar no brasil devidamente encerrada, com eleições diretas e tudo.  Em todo o mundo, países se reconstituíam, ditaduras caíam. Podia-se finalmente buscar a cura para o espírito sofrido, superar os fantasmas do passado e construir um mundo novo, um mundo forte.

Mas não foi isso que aconteceu, não é mesmo? As sociedades ocidentais falharam em lidar com seus demônios. Como um indivíduo traumatizado que não consegue superar devidamente seus demônios, o mundo ocidental tratou de buscar desesperadamente um demònio novo, qualquer coisa. Drogas, Saddam Hussein, guerras na África e Oriente Médio. No Brasil, boa parte de nosso tempo foi tomado tentando resolver uma grave crise econômica (algo que é meio que um esporte nacional mais representativo que futebol), mas nunca sequer paramos para curarmos as feridas, chorarmos os mortos, consolarmos os inconsoláveis, prendermos os responsáveis. Isso nunca aconteceu, nem mesmo em um nível simbólico.

E hoje, ouvimos as músicas assombradas pelos anos 80, e a moda da época retorna; os filmes, frases, jogos e ações aparecem por todo lado, numa imitação perversa, de certa forma. Sim, porque o que estamos fazendo é muito simples: queremos voltar àquela época, onde o futuro ainda existia, onde havia a esperança de um algo melhor. Não queremos os anos 90: estes são muitos reais, muito demonstradores da nossa falha em alcançar o Eldorado da paz. Queremos os anos 80, porque ali há o doce bálsamo da enganação, da falsa esperança eterna.

Não queremos crescer, nós que nascemos naquela época, porque crescer implicaria em mudar o mundo pelas nossas forças, então preferimos emprestar nossas  forças para ícones do passado, tnato em cultura como em política. Não queremos que nossos jovens cresçam também, não por si sós: queremos que engulam a mesma coisa que engolimos, sejam como que uma versão mais nova de nós mesmos, porque a mudança nos assusta.

Mas ela está vindo. Devagar, e sempre. E quando ela vier, ou ajudamos, ou saímos do caminho.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: O horror nosso de cada dia



O tema do desconhecido é algo muito caro a uma série de autores e diretores de horror e terror. O que pode ter mais potencial de ser apavorante do que, especificamente, não saber o que há em um quarto escuro desconhecido, onde sua mente preenche o vazio com formas e ares sinistros? E neste momento, tornamos o horror o OUTRO, o avatar de nossos males, e decididamente fora de nós.  Porém, eu creio que podemos tentar entender isso muito além deste foco. Ou talvez, o melhor termo seja: entender isso muito mais próximo de nós do que se imagina, exatamente. 

A sensação do desconhecido como matéria-prima do horror é algo que muitos talentosos artistas usaram. Stephen King é muito conhecido por gostar de propor a sugestão dos terrores, antes de lançar mão de cenas mais abertas, grotescas. Num lado mais chegado ao suspense, Hitchcock era um artista que trabalhava nas sutilezas, no que a audiência esperava que acontecesse, sem necessariamente mostrar  vísceras e sangue explícitos na tela. De fato, Psicose é um dos poucos trabalhos dele em que há uma demonstração mais explícita de sangue em tela. Há também outros autores, mais famosos porém com tema smais cósmicos, que não creio que se enciaxem aqui por estar me atendo a um medo mais próximo, mais em nossa vizinhança humana.

De fato, eu escolhi estes dois auteurs, porque creio que eles demonstram especificamente o que acho ser o fator central de nosso tema de hoje: o Inferno ser os Outros. Ou talvez, o Horror ser o outro. Tanto King quanto Hitchcock , embora cada um com suas especificidades, se esforçam em mostrar o lado oculto do humano, mesmo quando há fatores outros que tornam o fio condutor da história mais  complexo, ou mais sobrenatural (no caso de King). Esse caminho, inclusive, é algo muito usado por outros artistas: com certeza é mais fácil criar um monstro e usá-lo como símbolo de algo de podre dentro da própria alma humana, que enfrentar a podridão em si. 

No entanto, aqui estamos. Olhamos para fora, e vemos o horror bem ali. e não se trata de um monstro, ou alienígenas, ou espíritos. O nosso horror é um ministro que diz odiar o termo povos indígenas. É um presidente que se recusa a demonstrar qualquer senso de humanidade pelos mortos do Covid, e que prefere acusar a doença de ser um esquema político. Nem tão longe: é um parente que diz concordar com tudo que o presdiente fala, inclusive sobre exterminar oposição, associar negros a gado de corte, diminuir mulheres como merecedoras ou não de serem estupradas. Esses são nossos monstros particulares, e eles venceram.  Talvez nem tanto Hitchcock( que se preocupava mais com thrillers que com o horror, verdade seja dita), mas Stephen King certamente entendeu isso melhor que ninguém: nunca foram os monstros sobrenaturais o nosso problema, e sim os humanos. Sempre os humanos.

E com isso, esse texto passará, e milhares morrerão por nada, exceto por dinheiro e um lucro maior ao fim do ano. Morrerão protestando por direitos enquanto são massacrados por um estado que não liga para eles. Morrerão sendo admoestados por serem agressivos, por não quererem diálogo, quando tantas oportunidades já foram armadas antes, apenas para serem encaradas com desprezo e escárnio. A dança da morte continua. E até esse crônica é apenas uma estupidez a ser lançada ao vento, ao nada. 

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Un jour, je serais de retour prés de tois



Um dia, eu voltarei ao seu lado.

Não falo de uma pessoa em específico. Ou talvez esteja falando, sim; de um grupo de pessoas, essas mesmas, que você pensou, quando leu essa frase acima. Já deixamos muitas pessoas na beira da estrada da nossa vida, não? E algumas, faz muito tempo já. Não me refiro aqui, às pessoas que infelizmente tiveram de ir por força maior: e nesses dias cinzas, elas tem sido tantas! Falo das pessoas que abandonamos mesmo, seja porque achamos não ter escolha, seja porque tinhamos total liberdade e escolha, e decidimos por não seguir adiante ao lado daquele determinado indivíduo.

Isso é, infelizmente, muito normal, não? Seguimos em frente em busca de algo, uma evolução talvez, ou mesmo uma forma de entender melhor o mundo; e nem sequer nos percebemos dos que deixamos para trás. Um amigo de infância, talvez; às vezes, um colega de escola que foi particularmente importante para sua vida. Talvez mesmo um parente: quem não teve um primo ou tio/tia que lhe incentivou a seguir um determinado caminho (ou a explorar um hobbie específico), e com quem não mais conversamos, porque a vida nos levou para um outro lado.

E isso é algo que a sociedade tende a normatizar. É  evidente, dizem as vozes das ruas, que você vai conhecer uma série de pessoas, e que depois você vai sumir da vida delas. Faz parte do processo de crescimento. Você aprendeu o que tinha que aprender com elas, e depois seguiu seu rumo, a pessoa também, e assim é a vida. esses são os dados lançados para estes tipos de relações. Muito fácil, nos dias de hoje, coisificar as amizades, enjaular uma conversa sem pretensões maiores entre dois indivíduos, em uma relação de trocas, de perdas e ganhos. É o que nos manda o Capitalismo: o que importa é você, não o outro. Sugue o que tem sugar, depois siga em frente.

E com isso, cometemos o crime maior de uima alma, que é perder a ternura. Sim, pois quando se perde esse calor interior, as maiores barbaridades são perdoadas, em prol de um ganho que pode ou não ser físico, e que nos fim das contas não serve de nada, pois de que vale ganhar o mundo e perder a alma? Por isso, eu afirmo, contra a corrente, contra o que nos dizem as vozes das ruas: Não esqueçam dos seus amigos. Não esqueçam dos que lhes aquecem o coração. Deste texto, eu lhes grito amigos: Um dia estaremos juntos novamente, e riremos, e choraremos, e não esqueceremos. Nunca esqueceremos. 



sexta-feira, 22 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: O sol se põe vermelho, como o sangue, e completamente despercebido




(Agradecimentos à amiga Tamyris pela frase que nos deu o título e a foto de hoje)

Existe uma certa libertação em não se ver mais a TV por um tempo, especialmente nesses dias tão complicados. era algo que eu fazia de uma forma um tanto religiosa: ligar a Tv em algum momento do dia, buscando entender quais os próximos passos a serem evitados. Aliás, isso é algo que tem definido nossos dias, não planejar fazer algo, e sim evitar fazer algo. Uma vida baseada em negações.

Mas eu falava da TV, e de fato temos feito muito isso aqui em casa, simplesmente não ver mais as notícias. Algumas pessoas poderiam acusar-nos de estar tentando tapar o sol com a peneira, afinal, de que adiantat evitar saber de uma determinada coisa, se ela nos cerca em toda sas interações ao redor? Contudo, é por isso mesmo que temos evitado os telejornais; simplesmente, as notícias são tão intensas, que acabam chegando ao nosso conhecimento de uma forma ou de outra. Impossível seria não chegarem, não é mesmo?

O que temos feito então? Ah, uma série de coisas. Compramos um jogo de tabuleiro de  detetive, e jogamos ele todo Sábado. Aline faz duas xícaras de capuccino, botamos um jazz misterioso, e jogamos nosso joguinho (Soctland Yard:Máquina do Tempo, para os interessados). Depois disso, assistimos alguma série ou filme policial: temos nos absorvido em séries com investigações esses dias, não sei dizer por que.

Já em nossas atividades sozinhos, Aline de vez em quando assiste uma série no Netflix que lhe interesse (em geral algo em espanhol); eu costumo ler algo ou jogar um jogo de aventura no velho laptop. Tenho recuperado meu prazer nos velhos point-and-click possíveis de se jogar um em pobre notebook que já foi molhado, jogado no chão, e que perdeu as teclas de digitação. Buscamos fazer coisas sozinhos, para visitar nossas mentes em paz. Eu acho que se você não der tempo a sua parceira para ela ser ela mesma, você está perdendo a melhor coisa de se ter alguém consigo, que são as descobertas do dia-a-dia.

Além disso tudo, gostamos de sentar e ouvir músicas, e pensar... por vezes, a musica guia nossos pensamentos, e posso ver minha esposa olhando para dentro de si, lembrado algo bom, talvez, ou mesmo apenas sentindo o ritmo. Quanto a mim, também faço isso, mas sempre me vejo olhando para a noite (ou quase noite) lá fora, e vejo que ignorei o céu por tanto tempo, que ele me parece algo novo agora, toda vez que o observo nesta quarentena. E com a música tocando ao meu redor, me ponho a observar lá fora, e sonho com a pintura do que vejo, e que jamais existirá.

sábado, 16 de maio de 2020

Visões do Futuro: Lázaro (2)





A seguir, uma visão do futuro pós-pandemia. Não é otimista. Estudar a natureza huamna através da História tornou o otimismo em mudanças tão essenciais, algo fantasioso demais para este humilde professor e escriba.
Quem quiser ver a parte 1 desta história, favor ler "Lázaro", nos arquivos deste blog. 


Ontem reabriram a capelinha aqui do cemitério São Judas. Eu já esperava isso, depois que toda a pandemia, passasse mas na verdade achava que iam fazer isso muito antes do que aconteceu. No fim, foram mais de três meses até poderem reabrir tudo, e mesmo assim as pessoas não frequentam mais ali como faziam antes. Acho que os enterros rápidos acabaram meio que virando rotina entre todo mundo. Espero que não por muito tempo, me sinto mal com isso. Parece um desrespeito desnecessário com o corpo agora. Por outro lado, quem sou eu pra dizer alguma coisa?

A maior demora foi conseguirem a chave da capelinha. Ela tinha ficado, por algum motivo, com o Tobias, mas ele morreu logo pelo pico da doença em meados de Junho, Julho. Tinha levado a chave para casa, e aí depois da morte dele alguém mandou todas as coisas que ele tinha numa caixa, de volta para Recife, com a família dele. Tiveram que entrar em contato, a porta da capelinha era muito antiga, difícil mandar fazer uma cópia a essa alturas das coisas. Alguém sugeriu arrombar e depois consertar a porta: e cadê a coragem pra isso? Mesmo em tempos que nem esses, ainda se tem temor a Deus na terra. Na verdade, acho que até mais do que antes, se duvidar.
Tobias foi o primeiro, mas perdi muitos colegas de profissão nos dias cinzentos da pandemia. Foram bem uns 3; 4, se contar o Mateus, que se demitiu agoniado, com medo de ser o próximo a falecer. 

Saiu dizendo que o cemitério era amaldiçoado, que todo mundo que tava ali ia partir em breve. Eu não culpo ele; naqueles dias, as coisas estavam parecendo todas carregadas de maldição mesmo. Até eu fiquei doente, uma pessoa que não se lembrava da última vez que tinha gripado. Pensei que não ia conseguir sair daquela; estava fraco demais para qualquer coisa, 7 dias acamado, delirando em febre. Minha esposa deixava a comida na porta do quarto e chorava da sala, baixinho, mas eu ouvia. No alto da noite, eu vi o rosto de minha mãe no escuro; senti a rpesença de meu pai; ouvi a voz de meu filho, que foi embora daqui ainda pequenino, sem conhecer direito esse vale de lágrimas.
No fim, não foi dessa vez. E voltei para o trabalho algum tempo depois, até hoje com o peito um pouco pior, como se faltasse um pedaço do meu fôlego nas lidas do dia. Quando eu voltei, as coisas ainda estavam brabas, mais ou menos 50 enterros por dia. Mas estavam melhores que quando tive a folga forçada, quando estávamos fazendo 75 enterros por dia. Normalmente eram 20, 30 no máximo. 

Difícil dizer que eram bons tempos : morte nunca é bom (nem é ruim: simplesmente é). Mas com certeza eram momentos menos pesados, em todos os aspectos.
Agora, quando saímos, a máscara é item obrigatório. A doença ainda não sumiu, ainda está por aí, em algum lugar. Pelo menos é assim que está a nossa cabeça; todos nos olhamos com medo ainda, as mortes ainda frescas em nossa mente. Muitas propagandas dizendo que o pior já passou, que o mundo normal está de volta, mas aonde? Não vejo em lugar nenhum. Muito menos nos ônibus, onde cada tossida é encarada com medo e raiva.

Chego no cemitério e os enterros são rápidos, ainda. Mais que as vidas, a doença matou o coração das pessoas, e botou medo no lugar. Eles vem, olham rapido, pedem pra gente enterrar logo, o quanto antes melhor. Não todos, mas um bom número, que me faz pensar, lembrar que eu via algumas pessoas no ônibus, quando eu voltava do trabalho naquelas dias doentes, dizendo que agora o mundo ia ficar mais gentil, mais humano. Sinto vontade de rir, mas não consigo. Acho que em parte, eles estão certos mesmo: o que que tem de mais humano que esse medo assim, além da razão, além do amor?

Quando isso acontece, restou para nós tentar dar um respeito pros corpos. Então enterramos logo, e paramos um pouco depois do serviço concluído. E ninguém sabe nem nós contaremos nunca, mas eu sei que estamos tentando pensar em uma coisa boa, no coração. Não palavras, só uma imagem às vezes, ou um sentimento bom, que às vezes é melhor que um monte de palavras né?

O mundo não acabou, ainda estamos aqui. Eu e quem sobrou aqui no São Judas. Tem gente que tem medo de nós, outros que chamam a gente de herói, porque aguentamos o tranco mais duro do corona. Eu não sei dizer quem está certo. Tudo que sei é que, quando durmo à noite, sonho com este espaço todo aqui, sem covas nem mortos, só as árvores se espalhando ao longe, e um verde sem fim balançado pelo vento de uma tarde quente. E sei que isso deve querer dizer algo. Mas não sei exatamente o que.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: I am the Cheese



Então, hoje eu fui buscar um queijo no portão do condomínio. Nada muito peculiar: por causa dos mercados operando com baixa rotatividade de produtos (afinal, a pandemia não é exatamente um grande impulsionador de negócios). Então, alguns  vendedores entram em contato com os síndicos de condomínios, na esperança de vender produtos para os moradores. Muitos conseguem: tenho visto anúncios de horti-fruti, máscaras e até mesmo produtos de limpeza, tudo vendido perto da área de carga e descarga.

Digo vendido, mas na verdade é mais entregue - o carro do vendedor entra no condomínio, abre seu porta-malas, e apressadamente vai entregando e recebendo o pagamento de seu produto das mãos igualmene apressadas dos condôminos. Não tínhamos comprado nada assim anteriormente, somente visto os avisos dados pela síndica; mas dessa vez, sentimos a vontade de comprar um bom queijo, e aventuramos encomendar e ir buscar no dia estipulado.

Eis que chegou o dia de buscar o queijo. Como de costume, me preparei para a saída: camisa, calça jeans, sapatos, máscara na cara. Me despedi de minha esposa com um beijo de olhares, e desci pelo elevador. Quando chego no portão encontro o que não queria: uma fila. Aparentemente, o vendedor se atrapalhou um pouco, e foi necessário organizar os clientes nessa fila.

Foi quando

a ansiedade

bateu

então comecei a contar de um a 10, mas eu estava nervosos, então eu basicamente contava até 3, e acrescentava mil, porque se você contar com mil é mais ou menos o tempo de um segundo e lá estava eu 1 mil 2 mil 3 mil, e entre cada um de nós havia espaço de mais de 3 braços, e nem eramos tantos assim mas tudo o que eu pensava era, estou aqui embaixo e queria estar lá em cima, e se ess apessoa ali da frente tem covid, como eu fico? O que eu faço? meu Deus por que tanta demora, 1 mil 2 mil 3 mil, e bem nessa hora entraram várias pessoas pelo portão dos pedestres, e passaram próximo a mim, e meu Deus e se essas pessoas tem Covid? 1 mil 2 mil 3 mil, e então andaram mais duas pessoas e a fila anodu, e lá na frente um senhor de idade tirou a máscara que usava pra provar um pedaço de queijo, que droga é essa, melhor nem usar então né amigo? 1 mil 2 mil 3 mil, finalmente chegou minha vez e o vendedor se desculpou mas não tinha trazido o pão de queijo e o salame que eu tinha encomendado, pode ser lombo? eu falei sim, por favor, me dê logo, e ele, se quiser eu trago o pão de queijo na sexta feira, e eu disse, não por favor, só me dê um biscoito doce, porque minha esposa adora doces, e me peguei pensando e se eu ficar doente aqui? E se ela ficar sozinha em casa? lembrei de tantos casais separados, e nesse momento o pensamento foi, DEUS NÂO QUERO MORRER POR CAUSA DE UM QUEIJO! Finalmente, peguei o queijo provolone, o lombo e o biscoito de goiabada que eu comprei, e zarpei para casa

Diminuindo

por fim

meu ritmo.

Cheguei em casa exausto, como se tivesse corrido uma maratona. entrei em casa, me despi tal qual tivese vindo de um lugar radiotivo, enquanto minha esposa apreensiva perguntava:

- Está tudo bem?

- Mais ou menos, só preciso tirar essa roupa e ir tomar banho.

Foi o que fiz, e ligando o chuveiro quente, lavei o corpo da adrenalina e me senti boiando, feliz, na segurança do lar.

sábado, 2 de maio de 2020

Retratos na Cidade Pandêmica: Lázaro

Fonte: paintingvalley.com

"Esses dias um político desses falou que os caixões do corona estavam vazios, que a gente estava enterrando sem corpo dentro só pra aumentar os números lá nas estatísticas e tudo mais. Então a última família que veio por aqui nos forçou a abrir tudo na frente deles, mesmo que fosse contra o regulamento. Tentei falar que não era uma boa ideia, além da doença, o corpo tinha passado um tempo sem preservação, já estava avançado o estado.... não teve jeito, um deles até me ameaçou, disse que se eu não abrisse ia ter que ser ele a fazer isso, e eu não ia gostar disso. Não gostei do tom dele, mas achei melhor fazer tudo logo, terminar com isso, para poder seguir com os outros corpos ali. Haviam muitos naquele dia. Esses dias, sempre tem muitos.

Então, abrimos tudo e o olhar da moça, acho que era filha do falecido, foi terrível, mas eu já esperava. Porque quando uma pessoa morre, você se esforça para guardar na cabeça a última imagem que tinha dela, que provavelmente é algo feliz, ou sei lá, um momento de força dela contra alguma coisa. Normalmente a doença. Mas quando a gente abriu o caixão, a pessoa viu a verdade. Não só que era mesmo o pai dela ali, mas o que a morte fez com aquele corpo, sabe, toda a decadência. Então vieram as lágrimas, e o mesmo homem que me ameaçou disse que ia processar o cemitério por descaso com os parentes. Não entendi, mas também deixei de me importar com essas coisas a muito tempo. Desde antes da pandemia mesmo, eu acho. Não tem espaço para coisas mesquinhas para quem trabalha com a morte.

Nem sempre é assim, claro. Tem o pessoal que entende e respeita a situação, e olha só de longe, tristes. Dá vontade de dar uma palavra de consolo, mas não sei o que dizer. Nunca sei o que dizer. Quando eu comecei nesse ramo, eu tinha um caderninho com umas frases de consolo  para as famílias, mas com o tempo eu percebi que não adiantava nada. A morte é real demais para ser resumida em umas palavras; a sensação de perda é forte demais para falar qualquer coisa. Acho que deve ser por isso que tanta gente nega que aconteceu, ou vai pra farra depois de uma coisa dessas. É melhor fugir do fim que encarar, né? Nao julgo. Deixei de julgar há muito, muito tempo.

Apesar disso, tem sempre a dança toda da despedida, né, os ritos que a gente tem que fazer para começar a superar. Mas nem isso tá podendo acontecer, sabe, mesmo os corpos que são suspeita de Corona a gente tem que enterrar com todos os cuidados, até mesmo a capelinha do cemitério teve que fechar, pra evitar aglomeração. E lá vem cinco pessoas enterrar o morto deles, e nem podem olhar por corpo direito, nem podem chorar em cima do corpo. Pra eles deve ser assim como se a pessoa tivesse simplesmente sofrido e sumido do mundo, virado vento.

Olho para eles e penso em como minha família ia sofrer com o meu caso, com a minha partida desse mundo. Não, falar a verdade para você, nem penso nisso não. Só organizo as coisas, e faço as covas, tranquilo. Tem que ter tranquilidade nessas horas, até para tentar passar algum conforto mesmo que à distância para as famílias lá né? E aí, chegando em casa é um se banhar de álcool, esfregar bem, e rezar, que é o que me resta. Não tenho medo. Os mortos vem, eu enterro eles. Ainda estou aqui."


PARA LER: https://epoca.globo.com/sociedade/a-escalada-dos-enterros-das-vitimas-suspeitas-de-coronavirus-no-maior-cemiterio-de-sp-24331182

https://g1.globo.com/sp/mogi-das-cruzes-suzano/noticia/2020/04/22/sepultamentos-rapidos-e-compaixao-pelas-familias-sao-rotina-para-coveiros-durante-pandemia-nao-podemos-nos-deixar-abater.ghtml

https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,estou-exposto-e-sei-que-corro-risco-afirma-coveiro,70003268200




quinta-feira, 30 de abril de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: The future belongs to the children


Tem sido difícil ver pontos positivos esses dias, esse ano de 2020 particularmente. Conversei esses dias com uma aluna de inglês que pretendo tatuar algo no braço, após toda essa morte e desespero que assolam nossas ruas e vidas, alguma coisa dizendo "2020: eu sobrevivi". Ou algo igualmente cafona. Acho que ganhamos o direito de ser cafona após sobreviver a uma pandemia, não? Com tanto pesar ao nosso redor, a cafonice é um sinal de sobrevivência, creio.

E apesar de tudo isso, também é 2020  um ano de nascimentos, de renovações de certa forma. Em fevereiro, nasceu o filho de uma amiga nossa aqui de casa. Seu nome é Martín, um portuguesinho branquelo fofo e lindo como nunca tinha visto, os olhos azuis curiosos que tudo fitam ao seu redor. Dia nove de Abril, meu sobrinho Bernardo completou um ano, e tem sido uma felicidade vê-lo crescer, mesmo que de longe. Ele gosta de ajudar a mãe a cozinhar coisinhas gostosas . Esses dias, acreditem ou não, ele ajudou a fazer um cupcake de laranja! Para este tio bajulador, que também ama coisas de cozinha, esta foi provavelmente a coisa mais emocionante que eu vi ele fazer, e não puder deixar de derramar a proverbial lágrima de orgulho.

E agora, vejam vocês, nasce meu outro sobrinho, Lee Hesse, em terras canadenses, tão distante de nós mas tão próximo de nosso coração. O rosto dele é de uma mistura poética entre a mãe, luana Hesse, e o pai, Freddie Hesse, meu irmão que partiu do Brasil em busca de sonhos e realizações (o que o torna, mutos diriam, o irmão mais sábio de nós). Acompanhei nervoso o desenvolver do nascimento dele neste dia de hoje; somente o santo dos professores deve saber como consegui dar uma manhã toda de aulas sem sequer pestanejar em momento algum. E quando ele nasceu, e vimos (eu e Aline aqui em casa e meus pais lá em Belém do Pará) a face do novo Hesse Garcia neste mundo sofrido de meu Deus, confesso que a emoção bateu forte.

Essas crianças, esses serezinhos humanso, são o futuro que esta nascendo. Não posso dizer que eles trazem, consigo, a promessa de dias melhores; seria uma cobrança absruda em cima de bebês que nada podem fazer, exceto conquistar nossos corações. No entanto.... eles são provas da existência de um futuro. Muitos podem dizer que eles são condenados a viver nesse mundo absurdo: eu digo que eles devem nos servir de inspiração sólida, viva, para a construção de um mundo melhor, das cinzas deste velho e patético mundo que permite homens como Bolsonaro e seus capachos viverem e troçarem do sofrimento alheio.

Em um mundo onde a morte impera, esses bebês desafiam-nos a crer na vida. Não podemos falhar com eles: há ainda milhas a seguir antes de dormimos. Que possamos arrumar a casa  e perrmitir que eles possam conseguis sonhar também, e não apenas sobreviver. Que sejam eles as pessoas que nos trarão esperança no outro, no vizinho ao lado.

Seja bem vindo, Lee Hesse. Titio te ama, sempre te amou, e sempre vai te amar.


PARA OUVIR: The future belongs to the children

terça-feira, 21 de abril de 2020

Retrato na Cidade Pandêmica: Suzette Salomé

Head of a prostitute, por Vincent Van Gogh

"Me chamam de 'puta' por todo lado que eu vou, até meus clientes me chamam assim. e no entanto, quem sabe quem eu sou?

Não eles nas ruas, julgando em cada olhar. Desejando também, aposto, esses hipócritas.

Não minha família, que me expulsou de casa quando eu tive a coragem de aceitar quem eu era de verdade, mulher, não homem como meu pai queria, como minha mãe rezava pra eu ser (e nunca parou de rezar, eu sei).

Nem mesmo minhas amigas aqui nesse inferno, que me consolam quando as coisas apertam, e me dão um tapa na cara quando eu tenho que levantar e ir pra luta. Vivemos com a família que nos aceita; o sofrimento une mais que o sangue. E ainda assim, nem elas sabem.

O ponto que a gente trabalha fica perto de uma faculdade aqui da capital, faculdade de riquinho, cheia de filhinho de papai. Eles vem muito aqui, mas não só eles: tem executivo, homem de escritório, bancário, pastor de igreja.... carros de ricos e de pobres, gente curiosa, gente maldosa.... 50 reais o programa, esse é o valor mínimo aqui.  Às vezes mais, se o cliente quer uma coisa diferenciada, mas aí depende muito, de quem é, se a gente já conhece.

Dizemos para meninas mais novas, olha, cuidado, olha bem com quem tu vais, pra onde tu vais.... São mais de 5 anos nessa lida né. E eu já passei por muitas dores, então tento evitar que elas passem por algo parecido. É difícil: o desespero leva a gente a aceitar umas coisas terríveis. A gente aceita de acordo com o que a gente precisa para sobreviver.

O movimento caiu depois da pandemia, confesso. Caiu, mas não zerou. Ainda bem, porque senão como que eu ia comer? Faço agora o programa por 30 reais; as outras meninas também, porque senão aí que não conseguimos mesmo nada. Mas tá complicado demais, algumas de nós não podem mais nem ficar na rua com isso tudo.... A Alice, por exemplo, tá com 55 anos e nem consegue ficar em sapato de salto alto mais, dói muito o calcanhar, ela fica que não consegue trabalhar por uns dois dias. Aí ela vem de rasteirinha, mas todo dia tem doído. E os clientes dela são tudo gente mais velha, e esses não tem aparecido por aqui, só um ou outro velho assanhado que fugiu da quarentena que surge, aí ela consegue um trocado.

Nós moramos juntas, todas nós, numa vila aqui perto do ponto,uns kitnetzinhos mobiliado, algumas rachando, outra com um só para si. A gente tem rachado os lucros pra comprar comida, mas não sabemos quanto tempo ainda vamos conseguir. Final do mês tá chegando, o aluguel vem com tudo, e cadê o dinheiro? Ninguém sabe nem como vai comer no dia, imagina ter o dinheiro todo da moradia. Aí  tem que ir pra rua né, e se arriscar com doença. Mas a gente sempre se arrisca, todo dia. Ninguém vai fazer por nós, é só  nós mesmo.

Não me olhe assim. Vá à merda com a sua piedade. Eu quero ela pra que? Aposto que você tá pensando,  coitada da putinha, tá pegando chuva, tá tentando viver... vá à merda com com isso tudo. Sabe o que eu quero? O que nós queremos, eu e as meninas? Que não saiam pisando na gente toda vez que saírem na rua, quando saírem deposi disso tudo. Porque pisam sim, não com os pés, mas com esse olhar aí que julga, que condena.

Como se você soubesse de tudo que passei. Não tem nem ideia do quanto tentei arrumar outra coisa, outro emprego, pra sair das ruas. E as portas fechadas, a zobaria, porque ninguém que contratar bicha fodida. Você não sabe disso, não sabe do quanto eu choro de madrugada, no quartinho encardido, pensando nos meus irmãos que eu nunca mais vou ver, nem sei por onde estão, meus pais esconderam eles de mim. Penso tanto neles, tanto... mas não nos meus pais. Esses quando eu penso neles, não sinto saudades, só dor.

Mas você não sabe nada disso, e nem tem como saber, não daí de onde você me olha.

Você nem sabe meu nome,

Mas eu sei. "



PARA OUVIR: Me llaman Calle

PARA LER: Coronavírus não interrompe prostituição a R$ 30 no centro de São Paulo

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Crônicas da cidade pandêmica: O professor e Sísifo

iStock/Getty)

De segunda a sexta, eu tenho uma rotina. Acordo mais ou menos às sete horas da manhã (às vezes às 06:30), vou tomar café, organizo meu computador em cima da mesa da sala e começo a trabalhar dando aula. Sou professor de Inglês, é como eu ganho o famoso "pão de cada dia" aqui na cidade de São Paulo. Tenho uma grande sorte: porque sou professor de alunos adultos, e em sua maioria pessoas trabalhando em grandes empresas, existe uma certa cultura já incutida neles de usar o computador para chamadas virtuais. São um grupo que tem em si o costume de reuniões via Skype ou Zoom, e que por serem adultos, carregam a responsabilidade de comparecer e se esforçar em casa para avançarem na compreensão da língua inglesa.

Infelizmente,o mesmo não se pode dizer de meus colegas professores regulares, trabalhando em condições terríveis neste momento pandêmico. A profissão, verdade seja dita, nunca foi respeitada devidamente; quando não é considerada coisa de vagabundos reclamões (pelo Estado, quando buscamos nossos direitos), é endeusada como "vocação", igualando-nos a padres e certamente visando nisso o voto de pobreza dos mesmos, já que assim podem justificar para si mesmos  sem sentirem-se culpados, o porquê do salário de fome com o qual muitos professores tem de sobreviver.

Junte-se a isso, neste momento,um momento de crise na sociedade em geral, pais desesperados para que a escola tome o papel deles como educadores  para seus filhos quarentenados em casa (sendo que esse processo deveria ser uma parceria), e uma direção escolar que teme mais do que nunca perder clientes, e temos a completa recieta pro desastre. E como sempre, a carga disso tudo cai em cima dos professores regulares. São eles os que tem de fazer os alunos produzirem, são eles os responsáveis pelo sucesso ou fracasso desta empreitada em um momento que ninguém viveu antes, que ninguém sequer imaginou que iria viver.

A cada dia que trabalham os professores sofrem mais uma pressão, sem saber se perderão aulas (e portanto, dinheiro). sem saber qual a próxima problemática que será criada. "Como todos nós!", o mais cínico diria,e  ele estaria certo: como todos nós, os professores sofrem igualmente. Então por que diminuir seus esforços? Por que dizer que eles estão em melhores condições que outros trabalhadores, forçados a um home office que na verdade os suga 24 horas por dia?  Por que exigir dos professores o preparo que sabe-se que NINGUÉM teve para esses tempos?

A resposta para isso tudo é simples: falta de empatia. O mundo pandêmico surgiu, e revelou o quanto há pessoas que simplesmente observam seu próprio umbigo e se recusam a entender o sofrimento de outros, o esforço que se faz para manter um resquício de ordem e normalidade em nossos dias turbulentos. Querem tudo como antes, querem resultados sem arregaçar suas próprias mangas. Bem, isso não vai acontecer. Para sobrevivermos, precisamos todos trabalhar juntos, de mão metafórica dada. Ou vivemos e trabalhamos juntos, ou morreremos sozinhos e sufocados.




terça-feira, 7 de abril de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Heaven in a Wild Flower


Em tempos incertos, o mais ideal seria buscar em si uma certeza, uma plataforma para tentar sobreviver. Mas e quando mesmo o seu lugar interno é carregado de incertezas? Aí vem a grande busca, o conhecer-se a si mesmo. 

Confesso que este é um tema um tanto espinhoso para mim; sofro de incertezas até do que deveria ser fato consumado em minha vida. Nunca acreditei na durabilidade de coisas boas, fossem elas aprazíveis ao corpo, mente ou espírito. Na verdade, por anos eu nem sequer acreditava na existência em si de emoções lindas que muitos tomam como parte integrante da existência.... foi preciso conhecer ELA, a mulher a quem tenho o priviléigo de chamar de esposa, para que eu pudesse cogitar que merecia ser feliz. Mas isso é assunto para outro momento. 

Por anos, a ideia de um mundo frio e incolor era para mim a realidade, até um dia eu enxergar as cores e a vida ao meu redor, um daltônico emocional de repente curado. É justamente nesse momento do ápice das descobertas, o mundo surge para se reafirmar gélido e implacável, com a Covid-19 funcionando como o argumento final desta visão. 

Mas não é possível que deixemos este vírus destruir nossos corpos e espíritos ao mesmo tempo, que esses momentos atrozes sejam a nossa regra e não a exceção monstruosa. Não podemos nos deixar demolir tanto pelo corona quanto pela absoluta soberba e ineficácia do atual presidente do Brasil, um homem que é em si uma doença sobre duas pernas, ameaçando diariamente nossa salubridade mental. É preciso resistir, é necessário crer num momento melhor, além deste tão terrível que estamos vivendo, e outros piores que ainda virão. Um dia, além da fumaça da História em curso, poderemos todos descansar e olhar atentamente as cores ao nosso redor, sem medo, sem raiva, em paz. 

Afinal, como disse um certo sábio inglês a mais de 30 anos atrás: O inferno é algo que carregamos conosco, e não um lugar para onde se vai. Larguemos portanto este inferno que nos pesa as costas e embrulha o estômago, e criemos em nós mesmos um paraíso. Faça-se a luz.


PARA OUVIR: Panoramic