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domingo, 16 de junho de 2024

Crônica: Alea Jacta Est




Ultimamente tenho pensando muito no futuro. 

Ter um filho muda as coisas em sua mente. É claro que as prioridades mudam: Um ser minúsculo depende de você quase tanto quanto te ama, e de uma forma tão primal e desesperada quanto. E então você corre para comprar fraldas, remédios, comida específica para o estilo de alimentação dele, e quando percebe um ano e três meses se passaram já, e você mal se recorda como era dormir uma noite inteira, ou como era sua vida antes de sentir tanto amor no coração. Poderes da paternidade, suponho, e estou certo que a minha esposa tem algo igual ou superior a dizer a respeito disso tudo. 

Mas para além disso, eu tenho pensado muito em futuro, em legados. Sou antes de tudo, um historiador, apesar dos tantos chamados de vocações que me puxam para todos os lados. E é difícil para mim não olhar para frente com temor: do clima, dos avanços dos fascismos, dos medos que creio virem acoplados em todos os pais e mães que se importam com seus filhos. O mundo tem dentes e morde, já sabemos, mas como esses dentes assustam quando tememos pela vida de outro! 

Então sigo pensando no futuro, e me paraliso. Bem sei, bem sei: de nada adianta me focar no que não aconteceu ainda, é preciso focar no presente, construir o que se pode, guardar a comida agora e não me preocupar com a fome do inverno. 

Mas eu não tenho escolha. Minha mente é assim, e sou prisioneiro destes químicos que a governam; apenas um espírito tranquilo numa nave mental defeituosa. 

Então sento e penso, e agora já é tarde da noite, e minha esposa e meu filho dormem, e na escuridão da sala de estar sou iluminado apenas pela luz da lua e das estrelas. Daqui a pouco serão 5 da manhã, eu penso. Mas não consigo levantar do sofá

O que me move é o choro do bebê, uma emergência que eu posso lidar. Aline já foi lá no quarto dele recentemente, agora é a minha vez. então levantamos eu e meus temores, e tentamos lentamente dar ao meu filho chorando a calma de espírito que eu já perdi a tanto, tanto tempo. 



terça-feira, 7 de julho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Aqui, ninguém vai pro Céu


Hoje minha mãe, uma grande professora de português e literatura, passou para seus alunos uma versão da música consagrada de Criolo, "Não existe amor em SP", com ele cantando junto com o Milton Nascimento. Uma canção belíssima, ainda mais nesse bate-bola entre dois cantores excelentes. Recomendo muito que se busque e ouça profundamente, de olhos fechados, numa sala escura.

Quanto a mim, eu já tinha ouvido essa versão antes. E a canção original também, anos atrás, em um kitnet numa rua no coração do Butantã.

Eu estava em São Paulo, sozinho, e era o primeiro inverno que eu passava de verdade. Entenda, na minha terra natal, "inverno" é mais uma questão filosófica, que física, real. A Amazônia só conhece períodos de mais ou menos chuvas, não o frio intenso, de Julho, que vem enganador com seus 17, 18 graus de manhã, e seus 2, 3 graus na madrugada. Muitos podem dizer que isso não é frio de verdade: eu posso dizer que não me importo com o que acham. Era frio para mim, e é isso que importa.

Então, eu ouvia músicas aleatórias,e encontrei "Não existe amor em SP". O Kitnet era frio e pqeueno, então o som ecoou por todo o espaço. Naquele dia, eu acho que encontrei a melhor explicação para o que eu sentia, para toda minha solidão. A música se tornou uma espécie de hino mental: eu a ouvia em minha cabeça quando pegava ônibus, quando estava andando nas ruas, quando caminhava para estudar na USP. 

Tempos depois, conheci minha esposa, e me pareceu que eu exgerava um pouco sobre como São Paulo era. Até conhecê-la, eu creio que não acreditava em pessoas que fossem, de fato, preocupdas com coisas mais suaves - pelo menos não do jeito que ela o faz. Conheci Aline e me apaixonei: e então, para mim, a música não fazia mais sentido. Existia amor em SP.

Fui um tolo, é claro. Porque Criolo não está falando de indivíduos; ele está falando da cidade em si. Da alma da cidade, do que agita a grande massa que anda nas ruas, que a faz agitar-se, agir. E a última coisa que passa pelo coração dessa massa é amor. Como pode existir amor em SP, com pessoas morrendo de frio nas ruas?  Com tantos clamando pela reabertura sem a menor preocupação com as mortes , com cuidados para evitar as mortes? Uma cidade que elegeu um prefeito que teve como atitude molhar os moradores de rua, no inverno, com jatos de mangueira?

Aqui é a cidade sem coração. Os pobres são degraus de riqueza para os ricos, ninguém sequer se importa se eles morrem ou não. Ou você acha que os números de casos de corona na região mais pobre importam para os mais ricos? Evidentemente que não, porque senão haveria um esforço maior da própria sociedade para ajudar essas pessoas. Ao contrário, elas são impulsionadas à morte - e por isso, mergulham na dança do desespero para não pensar no que se envolvem todo o dia, só para sobreviver. A classe média, na qual estou incluso, não está à salvo: somos apenas mandriões chorões, lamentando a falta de humanidade das pessoas, ou somos aspirantes a uma riqueza que amais chegará, porque compramos a ideia da meritocracia, a pior cenoura já criada para fazer cavalgar um cavalo chucro.

Está é São Paulo. Venha nos visitar, temos sanduíches, lojas, e mortos por descaso. Mas é só não olhar para eles que fica tudo bem, se duvidar dá até para fazer o selfie e editar depois o morador de rua esfomeado lá no fundo.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Elegia



Hoje, marcamos quase um milhão e meio de infectados no Brasil, e mais de sessenta mil mortes.  Pra você ter uma ideia, em 2019, morreram de homicídio neste país pouco mais de 40.000 pessoas, de acordo com os dados oficiais - e isso de uma das mortes que nós, em tese, mais nos preocupamos. E isso num ano todo: ainda estamos em Julho, acabamos de começar o segundo semestre.

Se formos considerar mortes por causas respiratórias, o principal sintoma do Covid-19, os dados vão se acumulando em emergência:  O Brasil teve um aumento de 8,15% de mortes por essa causa, de acordo com a ARPEN (Associação de Registradores de Pessoas Naturais).  Evidentemente. o principal contribuidor disso é o Corona, a despeito do que insite em acreditar o presidente Bolsonaro, quando afirma ser tudo um grande exagero da imprensa.

E no entanto, temos um culpado maior nisso tudo, ou ao menos em uma das áreas que mais afetam nossa sociedade atualmente. Pois veja, não podemos fazer nada a respeito das questões estruturais: resta-nos esperar que os nossos representantes no poder façam algo que possa nos ajudar a sobreviver a esta crise maldita, a esta peste moderna. Alguns estão ajudando, outros estão claramente atrapalhando (cofcof Bolsonarolazarento cof cof), mas é inegável que esta bola, não nos pertence.

Contudo, existe uma série de coisas que poderìamos estar fazendo melhor, e simplesmente nos recusamos a tanto. Talvez por estarmos cansados da quaretena que não acaba, talvez por puro e simples egoísmo, Muitos de nós estão vacilando nos cuidados, e digo isso com pesar no coração, pois alguns destes que vacilam eram justamente parte dos poucos que ainda se valiam de tentar respeitar a quarentena. Talvez também seja uma falsa esperança: afinal, se na Europa já estão reabrindo, porque não no brasil, esta terra que certamente já sofreu tudo que tinha de sofrer, na visão dos iludidos?

E toca haver bares disfarçados de pet-shop, para poder funcionar escondidos. Toca desativar hospitais de campnaha, na esperança que tudo jáa está acabando. Até mesmo conversa sobre retorno do campeonato carioca estão acontecendo - tudo seguindo, de acordo com as autoridades, "o máximo de proteção necessário para isso", como se  houvesse possibilidade de se proteger da doença em meio a um jogo acirrado. Não falo aqui dos trabalhadores essenciais: esses tem todo meu apoio e suporte. Falo dos que insistem em sacrificá-los, sem ao menos garantir que eles tenham o mínimo de segurança. Não à toa, o percentual de pessoas infectadas com coronavírus nos bairros pobres da cidade de São Paulo, a maior metrópole do país, é 2,5 vezes maior do que nos ricos. Ou seja, eles simplesmente não se importam se o pobre morrer: a ideia aqui é reabrir tudo, e que morram os (pobres) que tem que morrer.

E falando de morrer, essa sim é a nossa principal falha, nós, humanos, cidadãos, viventes. pois cada um desses números para nós, tornou-se apenas isso: um dado numérico. Um algo que olhamos todos os dias, e anotamos na agenda mental na nossa cabeça. Hoje 60 mil; amanhã talvez 62 mil? 63 mil? Quem pode saber? Fazemos isso, e esquecemos que cada uma dessas pessoas estava viva, tinha planos, sonhos, como nós. Era alguém que aqui estava, e depois partiu, em dores, afogada em si mesma. Não lamentamos a morte dessas pessoas, exceto quando é da nossa família, ou é alguém conhecido. E no entanto, é preciso pensar neles. Ao menos um pouco, ao menos por alguns momentos, precisamos absorver a enormidade das mortes que estamos observando. Precisamos rehumanizar a nós mesmos.

As coisas não podem ser apenas "vida que segue". Não podemos deixar que cada pessoa morta tenha sido apenas um degrau pra gente voltar à dita vida normal, sem qualquer elegia por elas. Sem um pensamento de conforto, de piedade. Se nos fizermos dessa maneira, podemos sair incólumes da
covid, mas nunca mais nos recuperaremos da doença no espírito que causamos a nós mesmos.


quarta-feira, 24 de junho de 2020

Relatos da Cidade Pandêmica: Benjamin, o lixeiro

Fonte: Istockphoto

"O meu cargo, na real, é de gari, mas estou na coleta de lixo por uns 5, 6 anos já. Sempre trabalhei de noite; minha cabeça funciona melhor, meu corpo se arruma bem, sei lá, eu prefiro. Mas já tive que trabalhar de manhã também. Sempre coletando o lixo: com o tempo a gente pega a experiência com isso.

O salário é uma bosta pro que a gente passa. Média de 1200 contos aqui na cidade que eu moro,  correndo risco de se cortar com vidro que uns moradores arrombados botam junto com o lixo comum; correndo de gente armada ali nas ruas mais perigosas; a humilhação de passar e ser julgado como se fosse mesmo o lixo que a gente carrega. esse, aliás, é um dos motivos que a gente aqui de noite prefere esse horário, menos gente, menos aporrinhamento.

Não posso dizer que cruzei a cidade toda, tenho o setor que eu trabalho direitinho. Mas aqui é grande, e variado, então eu sei bem quais as mudanças que tem de cada bairro, em cada parte. A cidade é insana, tem ruas que você só vê mansões, basicamente, e outras partes só casinhas de tijolo cru, uma laje cinza acima. O que sempre tem é um cachorro. Toda rua tem pelo menos um cachorro solto , olhando de longe ou seguindo a gente. Às vezes eles latem e perseguem, mas sendo honesto nem é tantas vezes, pelo menos nesses 6 anos. Alguns a gente até tem amizade, falando à vera pra ti.

Nessa pandemia? Vivendo e segundo, meu irmão. Trabalhador essencial. Sigo pelas ruas, correndo atrás do caminhão, jogando o lixo na caçamba. passo pelas festas que a galera faz, apesar do tal do Fica em Casa que vivem falando. Olho e fico pensando, meu Deus, o que será que faz a pessoa desistir assim? Porque sabe, na minha cabeça, isso não é descrença, é desistência mesmo. Da vida, de um caminho melhor. Não julgo, falar a verdade. Já fui assim.

Mas isso tudo, eu penso rápido mesmo, valeu? Porque daqui a pouco vem a curva, tem que segurar forte: ainda tem mais de 4 horas de turno, e a noite nem começou direito. Olha o que tem aqui no saco: vidro de novo. Eu te falei, mano, o lixo pior é a bosta da pessoa que faz a gente se sujeitar a isso."


segunda-feira, 22 de junho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Neon Demon

Fonte: PS Store

A obsessão atual com os anos 80, e talvez o começo dos 90, não é de hoje, na verdade. Se bem me lembro, ela começou como uma semente ali pelo começo de 2001, 2002. Certamente não estava presente nos anos 90, pelo menos até aonde me lembro: talvez estivéssemos perto demais para sentir saudade, próximos temporalmente, ansiosos pelo que o futuro traria.

E eu posso entender bem isso. Os anos 80 foram uma período bem terrível no Brasil e no mundo, algo como que uma cereja no bolo de cocô que foram os anos 70 e 60, particularmente no âmbito social. É claro que havia um afã econômico em muitos lugares, mas os direitos sociais eram engolidos a passos largos, ditaduras eram impostas sem cessar, gerações e gerações eram sufocadas pela  vigilância paranóica e violência. Quando vieram os anos 80, com sua grave crise econômica e a eminente guerra nuclear, acho que não veio ser realmente uma surpresa para ninguém.

E quando eles acabaram, tivemos os anos 90. E que respiro deve ter sido, sair de um período sombrio com novas possibilidades. A Guerra Fria estava terminada, a Ditadura Militar no brasil devidamente encerrada, com eleições diretas e tudo.  Em todo o mundo, países se reconstituíam, ditaduras caíam. Podia-se finalmente buscar a cura para o espírito sofrido, superar os fantasmas do passado e construir um mundo novo, um mundo forte.

Mas não foi isso que aconteceu, não é mesmo? As sociedades ocidentais falharam em lidar com seus demônios. Como um indivíduo traumatizado que não consegue superar devidamente seus demônios, o mundo ocidental tratou de buscar desesperadamente um demònio novo, qualquer coisa. Drogas, Saddam Hussein, guerras na África e Oriente Médio. No Brasil, boa parte de nosso tempo foi tomado tentando resolver uma grave crise econômica (algo que é meio que um esporte nacional mais representativo que futebol), mas nunca sequer paramos para curarmos as feridas, chorarmos os mortos, consolarmos os inconsoláveis, prendermos os responsáveis. Isso nunca aconteceu, nem mesmo em um nível simbólico.

E hoje, ouvimos as músicas assombradas pelos anos 80, e a moda da época retorna; os filmes, frases, jogos e ações aparecem por todo lado, numa imitação perversa, de certa forma. Sim, porque o que estamos fazendo é muito simples: queremos voltar àquela época, onde o futuro ainda existia, onde havia a esperança de um algo melhor. Não queremos os anos 90: estes são muitos reais, muito demonstradores da nossa falha em alcançar o Eldorado da paz. Queremos os anos 80, porque ali há o doce bálsamo da enganação, da falsa esperança eterna.

Não queremos crescer, nós que nascemos naquela época, porque crescer implicaria em mudar o mundo pelas nossas forças, então preferimos emprestar nossas  forças para ícones do passado, tnato em cultura como em política. Não queremos que nossos jovens cresçam também, não por si sós: queremos que engulam a mesma coisa que engolimos, sejam como que uma versão mais nova de nós mesmos, porque a mudança nos assusta.

Mas ela está vindo. Devagar, e sempre. E quando ela vier, ou ajudamos, ou saímos do caminho.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: O Desafino Ortográfico



Eu sou um homem injusto, admito. Muitas vezes disse, ou deixei a entender, que minha principal leitora era minha amada esposa, Aline Garcia; pois venho aqui em público me desmentir, e dizer que tenho como fiéis leitores, também meu pai e minha mãe (que inclusive comenta direto aqui no blog, OI MAMÃE).  Meu pai, caso o leitor não saiba, é um escritor nas terras nortistas distantes, um grande escritor, diga-se. E minha mãe é uma grande professor de português, e atual gastróloga em formação. Sortudo sou eu, que tenho a vantagem de experimentar suas receitas quando ela consegue vir aqui me visitar, em Sampa, essa terra cinza.

Pois foram justamente eles que me alertaram de uma coisa acontecendo nestas crônicas: tenho cometido erros por aqui. É bom que se diga, não foi algo dito em tom de crítica: antes, foi uma observação deles, leitores atentos que são, para o ritmo dos textos aqui.  Pois, poucos sabem, eu basicamente só vou escrevendo os textos e publicando. Existe pouca  ou nenhuma revisão nesses escritos, e de fato, se você olhar algumas crônicas para trás, verá alguns (ou muitos) erros de ortografia neles.

Isso ocorre porque escrevo com o calor da emoção, admito: nunca realmente me planejo para escrever aqui, e em geral a única coisa que eu tenho de antecipado é o tema da crônica. Esta, por exemplo, me surgiu na segunda feira, quando conversei via ligação whatsapp com meus pais. Antigamente, eu ainda fazia uma espécie de rascunho no meu caderno, mas com o tempo percebi que acabava perdendo a energia para publicar aqui. Isso é algo que ainda estou trabalhando; a concentração e a energia necessárias para produzir ficção.

Mas justamente por isso, eu acho que este blog tem sido um grande aprendizado, e eu tenho tomado mais cuidado aqui, para que o deleite de meus leitores mais fieis não seja afetado. Afinal, como bons brasileiros que somos, temos o ritmo no sangue, e quando ele quebra, o que nos resta, senão tropeçarmos no texto, e esperar a próxima música? Então, fica aqui o meu relato, e meu pedido para os prezados leitores, quando verem algum erro por aqui, me perdoarem: trata-se menos de um descuido de técnicas, e mais um afã de passar logo para o papel os sentimentos que afloram no peito.

E tennhdo ditpo!

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Lost and Found



Sábado, eu tirei o dia para ajeitar os livros que estavam , e ainda estão, no meu escritório. Digo "meu", e falho bastante; pois aqui é o espaço de trabalho meu e de minha esposa. Não temos muitos equipamentos aqui, basicamente os computadores e uns ventiladores. Entretanto o que não temos em tecnologia, temos de sobra em livros; de sorte que resolvi me aprofundar na arrumaçao dos mesmos.

A ideia central era simples: eu ia retirar toodos os livros das suas respectivas prateleiras, e catalogar tudo com temas que me interessassem realmente. nada de "drama", "ação", etc. Eu queria assuntos mais agitados: "investigação" seria um. "Romances surreais", outro. Assim, quando eu me sentisse um pouco mais inclinado a explorar um determinado tema, eu iria diretamente na prateleira esotericamente organizada, e me deleitaria com a obra, e com o serviço bem feito em separar por mim mesmo as coisas.

Como todo plano que se põem muitas expectativa,s este falhou miseravelmente: pra começo de conversa, eu subestimei a quantidade de livros que eu tenho, de sorte que pôr os livros das prateleiras para o chão do escritório em breve tornou-se tomar o escritório inteiro de livros jnogados ao chão, sem lei ou razão. desta vez, a poeria não me afetou tanto; estava devidamente protegido com a máscara nossa de todo dia (graças ao Covid). Mas a situação era dantesca: mal se podia andar pelo cômodo, e as horas avançavam implacáveis: o que começou a ser feito às 10 horas da manhã, logo levou-me às 14, 16, 18 horas, sem um avanço significativo...

....exceto algo mágico, que eu creio que aconteça com todos vocês. Pois, ao revirar tudo, eu reecontrei livros antigos que eu não mexia a muito tempo - o que quer dize,r que encontrei um pedaço de mim que eu não via a muito tempo. Pois para mim (e , creio, para muitos outros), livros são uma janela da nossa alma. Eu não me lembro de um momento que um livro não estivesse me dando alegria, e nem me lembro de um momento que ganhar um livro não fosse, para mim, o presente ideal.

E eu vi esses velhos amigos, enão pude deixar de relê-los aos poucos. Não tudo, claro - eu tamb´me não sou tão louco assim - mas um pedacinho aqui, e outro ali.... e cada releitura era uma memória, ou uma sensação reencontrada. E amigos, que presente para a alma isso foi. Que refresco, que bálsamo. Cada Raymond Chanlder que eu via ao chão e relia, cada Cormac Mccarhty, cada Garcia_roza... era eu ali. Era um eu que amava aqueles livros, e comprou-os, e viveu com eles em ônibus, sofás, ou mesmo salas de aula, entre um aluno e outro. Túneis do tempo.

Sim, eu amei rever meus livros. Minha esposa também amou que eu me sentisse muito melhor de posi de tudo, mas posso apostar que ela amou muito mais ver o escritório finalmente arrumado. Porque o amor aos livros, ah, esse é o mais bagunceiro de todos!



domingo, 31 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Ghost Story

Fonte: Wattpad

Um espectro ronda o mundo - o espectro da Tristeza, com "T" maiúsculo mesmo. E nós, brasileiros, o vemos todo dia, a todo momento. Não me parece exagero dizer que ele permeia todas as nossas ações, e as nossas dores. O que é a raiva que sentimos, ao ver o presidente falar asneiras em plena TV? Não raiva, mas impotência: é a Tristeza a nos afundar em sua lama. O que é a sensação de vermos cada vez mais pessoas morrendo, e os empresários discutindo rebaertura ao invés de se reunirem e tentarem ajudar num isolamente? É a Tristeza novamente, disfarçada de ultraje, de raiva no fundo do peito.

Este fantasma que nos assombra, não está aí a pouco tempo: na verdade , se considerarmos o Brasil, ele sempre nos acompanhou, como uma doença crônica acompanha um enfermo. Arrisco dizer que a Tristeza está intríseca na nossa arte, na nossa comida, nas nossas danças... mesmo canções dos anos 80, ditas mais alegres, sempre carregam em si um quê de melancolia, não? Podemos pensar em canções mais alegres: axés, sambas, pagodes em geral. Mas eu penso que eles podem ser apenas uma froma de disfarçar a dor; é costume da alma mais angustiada tentar sublimar seus sofrimentos de alguma forma, e talvez assim seja com a sociedade também.

Como disse, essa Tristeza não é algo que seja novo. Contudo, como ela tem se espalhado nesses tempos! E não apenas pelo Covid, ao contrário, a Pandemia veio meramente como uma espécie de confirmação de nossas previsões mais pessimistas sobre o mundo. Toda a crise, a revolta, as dores e mortes que sentíamos, em nosso âmago, que viriam, aqui estão. De uma forma ou de outra, os temores se concretizaram.

Não foram, também, os resultados de eleições diversas ao redor do mundo que nos afetaram de maneira tão atroz, embora elas realmente não tenham ajudado. Não sou do grupo de pessoa sque diz que nosso presidente, o Idiota no Planalto, é o responsável pelos nosso males de alma: eu sei que ele é o sintoma final de uma sociedade extremamente doente e podre, que enxergou nele uma solução (ainda que torta) para conseguir uma mudança. E essa mudança veio, e era tão destrutiva quanto muitos de nós falaram. Não me importo se essas pessoa mudaram de ideia agora: a verdade já foi revelada, e suas almas já foram expostas. Olhemos para o que acontece neste momento: é isso que os eleitores de Bolsonaro queriam. Sentem-se mal agora, e dizem se arreepende,r porque efetivamente a mudança afetou a eles mesmos; mas nunca nos enganemos em pensar que eles adquiriram consciência.

Como lutar com essa assombração? Não posso dizer, pois creio que cada um tem sua forma própria de resistir. Também acredito que os que se sentem verdadeiramente assombrados, são poucos, e por isso devemos nos unir. Lá fora, veremos a maioria em uma dança macabra, rindo de horrores, abraçando demônios. Que nós, que acreditamos em algo melhor, algo maior, possamos dar as mãos e construir algo para a próxima geração. Sim, a próxima, porque esta nossa... creio que já não há muitas chances. 

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: I am the Cheese



Então, hoje eu fui buscar um queijo no portão do condomínio. Nada muito peculiar: por causa dos mercados operando com baixa rotatividade de produtos (afinal, a pandemia não é exatamente um grande impulsionador de negócios). Então, alguns  vendedores entram em contato com os síndicos de condomínios, na esperança de vender produtos para os moradores. Muitos conseguem: tenho visto anúncios de horti-fruti, máscaras e até mesmo produtos de limpeza, tudo vendido perto da área de carga e descarga.

Digo vendido, mas na verdade é mais entregue - o carro do vendedor entra no condomínio, abre seu porta-malas, e apressadamente vai entregando e recebendo o pagamento de seu produto das mãos igualmene apressadas dos condôminos. Não tínhamos comprado nada assim anteriormente, somente visto os avisos dados pela síndica; mas dessa vez, sentimos a vontade de comprar um bom queijo, e aventuramos encomendar e ir buscar no dia estipulado.

Eis que chegou o dia de buscar o queijo. Como de costume, me preparei para a saída: camisa, calça jeans, sapatos, máscara na cara. Me despedi de minha esposa com um beijo de olhares, e desci pelo elevador. Quando chego no portão encontro o que não queria: uma fila. Aparentemente, o vendedor se atrapalhou um pouco, e foi necessário organizar os clientes nessa fila.

Foi quando

a ansiedade

bateu

então comecei a contar de um a 10, mas eu estava nervosos, então eu basicamente contava até 3, e acrescentava mil, porque se você contar com mil é mais ou menos o tempo de um segundo e lá estava eu 1 mil 2 mil 3 mil, e entre cada um de nós havia espaço de mais de 3 braços, e nem eramos tantos assim mas tudo o que eu pensava era, estou aqui embaixo e queria estar lá em cima, e se ess apessoa ali da frente tem covid, como eu fico? O que eu faço? meu Deus por que tanta demora, 1 mil 2 mil 3 mil, e bem nessa hora entraram várias pessoas pelo portão dos pedestres, e passaram próximo a mim, e meu Deus e se essas pessoas tem Covid? 1 mil 2 mil 3 mil, e então andaram mais duas pessoas e a fila anodu, e lá na frente um senhor de idade tirou a máscara que usava pra provar um pedaço de queijo, que droga é essa, melhor nem usar então né amigo? 1 mil 2 mil 3 mil, finalmente chegou minha vez e o vendedor se desculpou mas não tinha trazido o pão de queijo e o salame que eu tinha encomendado, pode ser lombo? eu falei sim, por favor, me dê logo, e ele, se quiser eu trago o pão de queijo na sexta feira, e eu disse, não por favor, só me dê um biscoito doce, porque minha esposa adora doces, e me peguei pensando e se eu ficar doente aqui? E se ela ficar sozinha em casa? lembrei de tantos casais separados, e nesse momento o pensamento foi, DEUS NÂO QUERO MORRER POR CAUSA DE UM QUEIJO! Finalmente, peguei o queijo provolone, o lombo e o biscoito de goiabada que eu comprei, e zarpei para casa

Diminuindo

por fim

meu ritmo.

Cheguei em casa exausto, como se tivesse corrido uma maratona. entrei em casa, me despi tal qual tivese vindo de um lugar radiotivo, enquanto minha esposa apreensiva perguntava:

- Está tudo bem?

- Mais ou menos, só preciso tirar essa roupa e ir tomar banho.

Foi o que fiz, e ligando o chuveiro quente, lavei o corpo da adrenalina e me senti boiando, feliz, na segurança do lar.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: The future belongs to the children


Tem sido difícil ver pontos positivos esses dias, esse ano de 2020 particularmente. Conversei esses dias com uma aluna de inglês que pretendo tatuar algo no braço, após toda essa morte e desespero que assolam nossas ruas e vidas, alguma coisa dizendo "2020: eu sobrevivi". Ou algo igualmente cafona. Acho que ganhamos o direito de ser cafona após sobreviver a uma pandemia, não? Com tanto pesar ao nosso redor, a cafonice é um sinal de sobrevivência, creio.

E apesar de tudo isso, também é 2020  um ano de nascimentos, de renovações de certa forma. Em fevereiro, nasceu o filho de uma amiga nossa aqui de casa. Seu nome é Martín, um portuguesinho branquelo fofo e lindo como nunca tinha visto, os olhos azuis curiosos que tudo fitam ao seu redor. Dia nove de Abril, meu sobrinho Bernardo completou um ano, e tem sido uma felicidade vê-lo crescer, mesmo que de longe. Ele gosta de ajudar a mãe a cozinhar coisinhas gostosas . Esses dias, acreditem ou não, ele ajudou a fazer um cupcake de laranja! Para este tio bajulador, que também ama coisas de cozinha, esta foi provavelmente a coisa mais emocionante que eu vi ele fazer, e não puder deixar de derramar a proverbial lágrima de orgulho.

E agora, vejam vocês, nasce meu outro sobrinho, Lee Hesse, em terras canadenses, tão distante de nós mas tão próximo de nosso coração. O rosto dele é de uma mistura poética entre a mãe, luana Hesse, e o pai, Freddie Hesse, meu irmão que partiu do Brasil em busca de sonhos e realizações (o que o torna, mutos diriam, o irmão mais sábio de nós). Acompanhei nervoso o desenvolver do nascimento dele neste dia de hoje; somente o santo dos professores deve saber como consegui dar uma manhã toda de aulas sem sequer pestanejar em momento algum. E quando ele nasceu, e vimos (eu e Aline aqui em casa e meus pais lá em Belém do Pará) a face do novo Hesse Garcia neste mundo sofrido de meu Deus, confesso que a emoção bateu forte.

Essas crianças, esses serezinhos humanso, são o futuro que esta nascendo. Não posso dizer que eles trazem, consigo, a promessa de dias melhores; seria uma cobrança absruda em cima de bebês que nada podem fazer, exceto conquistar nossos corações. No entanto.... eles são provas da existência de um futuro. Muitos podem dizer que eles são condenados a viver nesse mundo absurdo: eu digo que eles devem nos servir de inspiração sólida, viva, para a construção de um mundo melhor, das cinzas deste velho e patético mundo que permite homens como Bolsonaro e seus capachos viverem e troçarem do sofrimento alheio.

Em um mundo onde a morte impera, esses bebês desafiam-nos a crer na vida. Não podemos falhar com eles: há ainda milhas a seguir antes de dormimos. Que possamos arrumar a casa  e perrmitir que eles possam conseguis sonhar também, e não apenas sobreviver. Que sejam eles as pessoas que nos trarão esperança no outro, no vizinho ao lado.

Seja bem vindo, Lee Hesse. Titio te ama, sempre te amou, e sempre vai te amar.


PARA OUVIR: The future belongs to the children

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Crônicas da cidade pandêmica: O professor e Sísifo

iStock/Getty)

De segunda a sexta, eu tenho uma rotina. Acordo mais ou menos às sete horas da manhã (às vezes às 06:30), vou tomar café, organizo meu computador em cima da mesa da sala e começo a trabalhar dando aula. Sou professor de Inglês, é como eu ganho o famoso "pão de cada dia" aqui na cidade de São Paulo. Tenho uma grande sorte: porque sou professor de alunos adultos, e em sua maioria pessoas trabalhando em grandes empresas, existe uma certa cultura já incutida neles de usar o computador para chamadas virtuais. São um grupo que tem em si o costume de reuniões via Skype ou Zoom, e que por serem adultos, carregam a responsabilidade de comparecer e se esforçar em casa para avançarem na compreensão da língua inglesa.

Infelizmente,o mesmo não se pode dizer de meus colegas professores regulares, trabalhando em condições terríveis neste momento pandêmico. A profissão, verdade seja dita, nunca foi respeitada devidamente; quando não é considerada coisa de vagabundos reclamões (pelo Estado, quando buscamos nossos direitos), é endeusada como "vocação", igualando-nos a padres e certamente visando nisso o voto de pobreza dos mesmos, já que assim podem justificar para si mesmos  sem sentirem-se culpados, o porquê do salário de fome com o qual muitos professores tem de sobreviver.

Junte-se a isso, neste momento,um momento de crise na sociedade em geral, pais desesperados para que a escola tome o papel deles como educadores  para seus filhos quarentenados em casa (sendo que esse processo deveria ser uma parceria), e uma direção escolar que teme mais do que nunca perder clientes, e temos a completa recieta pro desastre. E como sempre, a carga disso tudo cai em cima dos professores regulares. São eles os que tem de fazer os alunos produzirem, são eles os responsáveis pelo sucesso ou fracasso desta empreitada em um momento que ninguém viveu antes, que ninguém sequer imaginou que iria viver.

A cada dia que trabalham os professores sofrem mais uma pressão, sem saber se perderão aulas (e portanto, dinheiro). sem saber qual a próxima problemática que será criada. "Como todos nós!", o mais cínico diria,e  ele estaria certo: como todos nós, os professores sofrem igualmente. Então por que diminuir seus esforços? Por que dizer que eles estão em melhores condições que outros trabalhadores, forçados a um home office que na verdade os suga 24 horas por dia?  Por que exigir dos professores o preparo que sabe-se que NINGUÉM teve para esses tempos?

A resposta para isso tudo é simples: falta de empatia. O mundo pandêmico surgiu, e revelou o quanto há pessoas que simplesmente observam seu próprio umbigo e se recusam a entender o sofrimento de outros, o esforço que se faz para manter um resquício de ordem e normalidade em nossos dias turbulentos. Querem tudo como antes, querem resultados sem arregaçar suas próprias mangas. Bem, isso não vai acontecer. Para sobrevivermos, precisamos todos trabalhar juntos, de mão metafórica dada. Ou vivemos e trabalhamos juntos, ou morreremos sozinhos e sufocados.




terça-feira, 14 de abril de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Canções e canções


Se você deixar, o isolamento pode te levar à destruição mental. Na verdade, até se você não deixar, ele pode fazer isso - ninguém consegue realmente controlar o quanto um isolamento pode influenciar você. O que fazer portanto? A ordem é controle de danos.

Uma das formas que eu mais consigo fazer isso é com música. E muito há que se dizer ainda das músicas relaxantes como panaceais para acalmar uma mente confusa e agitada. Minha esposa e eu somos grandes fãs desse tipo de música: recentemente pusemos aqui uma canção da Enya e a paz que reinou na sala de estar só foi quebrada pela luta incessante dos nossos dois gatos a pular um sobre o outro. Mas por gloriosos 15 segundos, houve paz naquele recinto.

Outro tipo de música que ouvimos muito juntos aqui é o pop anos 80, que inclusive é um outro que merece um estudo a parte. Há algo de fascinante naquelas músicas tão melosas e chicletentas existirem num momento, numa década, que as coisas pareciam solenemente estar indo para um fim, seja este nuclear ou econômico. Somente uma época assim (antes da nossa atual, claro) poderia fazer canções de amor falando sobre fim do mundo e explosões atômicas com tamanha maestria e canastrice...

Contudo, confesso que nem a World Music, nem o pop 80's são os que mais me levam para um estado de calma mental. O estilo escolhido para esses momentos é nada menos que o BREGA , com todo seu bole-reboles, seus Frutos Sensuais, seus Nelsinhos Rodrigues e Wanderleis Andrades. Quanto a isso, tenho uma explicação: por experiência própria, e por conversar com meus amigos desterrados aqui pelo eixo Sul-Sudeste, tomamos o brega como nossa canção de exílio, não importando qual  letra que seja. Basta apenas os primeiros acordes de um teclado enlouquecido ou um baixo romântico, e voltamos aos momentos na terrinha, bons ou ruins, mas nossos.

Talvez seja esse o segredo do brega comigo, o porquê de eu cantar a plenos pulmões pérolas como "Eu Voltarei", "Gringo Lindo", ou "Ao pôr do Sol". Quando canto, e danço desajeitado pela sala (para espanto e deleite de minha amada esposa), estou na verdade viajando, na memória, para os cantos onde mais me senti seguro. Longe das incertezas e dores do agora. Acho que posso ser perdoado, dado o momento atual, por um certo romantizar do passado.

Qual a sua forma de fuga disso tudo ao nosso redor?


PARA OUVIR: Desejos, de Banda Sayonara

PARA OUVIR 2: Ao Pôr do Sol, de Teddy Max

PARA OUVIR 3: Conquista, de Wanderlei Andrade


sábado, 11 de abril de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Paranoid

(Fonte: Site Shutterstock)

E de repente, não mais que de repente, eu me sinto ansioso com o mundo. Não é algo que seja realmente incompreensível: de fato, nos dias de hoje, não sentir alguma coisa errada em si é que caracteriza um problema psicológico, ao contrário do que digam por aí.  Aliás, existem tantos semi-deuses andando por aí, inabalados pelo seu entorno, que é difícil até pensar em admitir ser humano, demasiadamente humano. Ou talvez o que haja sejam hipócritas mesmo - vai saber.

É errado de minha parte dizer que a ansiedade veio com a pandemia. Na verdade ela é uma velha inimiga, à espreita nas sombras, esperando o momento certo para dar o bote. Começa como um pensamento insistente - será que tranquei a casa direito ao sair? Será que conseguiremos pagar todas as contas esse mês? - e aos poucos, ele vai tomando a mente e o dia todo. Se você não tomar cuidado, ele toma toda boa parte de uma semana, ou mesmo bem mais tempo que isso, dependendo da sua estrutura para aguentar.

Aí vem o choro (de raiva, de impotência), a sensação de esmagamento na cabeça (no meu caso, bem ali na nuca), às vezes um formigamento... receita perfeita pro desastre em um ambiente que pode-se sair às ruas, dirá em um momento de isolamento social. Nisso, uma vez mais sou abençoado com a companheira dos sonhos - que me acolhe em seu colo, entende minhas lágrimas, me nina até eu me acalmar. Também eu faço isso por ela, quando o mundo lhe exige mais que o razoável. Acredito que isso seja o que um casal deva fazer em tempos de crise -e se não for, bem, é o que eles DEVERIAM fazer.

Mas eu toquei nesse assunto, porque me parece cada vez mais as pessoas tem sentido o peso da quarentena, e a sensação da ansiedade deve pesar forte em suas cabeças. A respeito disso devo dizer: não se sintam mal. Se há um momento para estarmos ansioso, é esse. Não prestem atenção nos semideuses, preste atenção em si mesmo. Permita-se sentir, mas não se permita levar pela onda maligna. Chore, se tiver de chorar: cada lágrima, um conforto mais próximo. Depois respire, olha para o céu, e pense no que o espera não em um mês, um ano, um dia e sim em algo bom para fazer em um minuto. Cada avanço na nossa vida, é montado minuto a minuto, "polegada a polegada", parafraseando Al Pacino. Permita-se percorrer estas polegadas, e não se culpe por tropeçar nas pedras do caminho.

Rumo ao fim disto tudo, amigos.


PARA OUVIR: Paranoid

PARA LER: Litania contra o medo