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sábado, 22 de agosto de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Fantasia Final, e Inicial.


Uma das coisas que é tema recorrente com meus amigos, familiares, e terapeuta, é o quato eu tenho a capacidade de me perder dentro de mim mesmo durante uma conversa qualquer. Não se trata de algo que eu faça de propósito (bem, talvez um pouco): simplesmente trata-se de uma espécie de defesa contra assuntos que me deixem um pouco mais  acuado, ou atormentado. E um pouco também porque eu me entedio Às vezes, mas isso é assunto para OUTRA crônica.... 

Enfim, umas das muitas coisas que me fazem viajar dentro da minha própria cabeça é uma boa história, e talvez por tradição, em geral uma história de fantasia tende a me levar pra longe. Quando digo isso, quero dizer que qualquer que seja o meio por onde essa história é transmitida (jogos, livros, filmes, etc), é ali que eu fixarei -embora eu confesse que livros e jogos são os métodos que mais me prendem a atenção esses dias. 

Fantasia é um gênero que está comigo desde muito cedo, curiosamente, começando com lendas e mitos gregos. Havia, por muito tempo, um esforço no Brasil por se divulgar estas ficções, e fui afortunado de ler livros com histórias gregas adaptadas por Luiz Galdino, e alguns outros ainda mais antigos, com nomes que infelizmente não saberei lembrar agora, mas que envolviam, com certeza, Monteiro Lobato. 

Depos vieram os jogos, os rpgs de videogame. Ali eu senti minha mente se abrindo, como aliás deve ter acontecido com todos os amigos nerds do começo dos anos 2000, final da década de 90. Foram tantas histórias acontecendo ali; foi acima de tudo uma época de outro para emulação de jogos mais antigos, então eu pude ter acesso a jogos de RPG do Nintendo e Super Nintendo, além de jogar nos PSX de locadoras escusas ao redor da minha vizinhança. Foi a época dos Final Fantasy, ou "os jogos que me fizeram aprender a ler em inglês". 

Em matéria de livros de fantasia não-grega, eu sou um fã confesso de Senhor dos Aneis, e mais de uma vez me afundei no volume ùnico da Martin Claret. Foi meu portal de entrada em drogas mais pesadas: se hoje tenho uma quantidade proibitiva de se carregar  por aí, de livros fantasiosos, devo a Senhor do Aneis. Os filmes também, embora eu tenha lido os livros antes de ter a oportunidade de vê-los. 

Em tempos como estes, acho que a fantasia tem muito a dizer. Alguém disse, em algum lugar, que a utopia é necessária, quanto mais não seja, para que possamos tentar chegar nela, e alcançar um mínimo de felicidade que seja. E  quando olhamos as coisas terríveis que tem acontecido, vemos o poder que ideias, mesmo nocivas, tem em cima das pessoas. Sendo assim, por que não tentarmos plantar ideias boas? E que terreno mais fértil, mais produtivo, que o da fantasia? Acho que podemos nos surpreender com os resultados. 


quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Cold, Cold Heart


O primeiro frio de verdade que eu peguei, não foi em São Paulo. Foi na Europa, e foi um valor negativo, -14. Lembro até hoje, porque como menino vindo do coração da Amazônia, eu nunca tinha sequer passado por nada que fosse abaixo de 17 graus, e isso vindo de um ar-condicionado alucinadamente forte, de uma sala de aula. A sensação que me veio em estar no meio daquele frio cobriu algumas emoções ruins que tive estando naquela viagem em específico, e nuna me esqeuci da sensação. Foi a primeira vez que eu vi neve também, falando nisso. 

O segundo frio de verdade foi menos forte, mas de certa forma bem mais impactante. Era 2015; eu tinha acabado de me mudar para São Paulo, contando então com 27 anos, para estudar mestrado na gloriosa USP. Eu não sabia que aqui havia inverno, ou pelo menos não sabia exatamente o que esperar. Como eu já tinha vivido um frio negativo (a minha experiência na Europa foi bem antes de vir para Pauliceia desvairada), achei que ia conseguir encarar bem os 15, 16 graus que aqui fizessem. 

Eu estava errado. 

É até engraçado lembrar disso agora, que adquiri uma resistência ao frio (ao ponto de minha esposa me apelidar de "forno ambulante"), mas eu realmente sofri com o frio de Sampa. Tentei resistir, num esforço de bazófia que servia para nada, e continuei fingindo que estava tudo bem, mas a verdade se mostrou em uma noite, quando do nada acordei com as narinas doloridas, e com a respiração soltando fumacinha, dentro do kitnet onde morava. Foi quando decidi comprar um mini-aquecedor, que uso até hoje. 

Mas muito além do frio físico, em São Paulo eu sofri o frio interno, espiritual por assim dizer, e por isso creio que ele foi mais marcante para mim. Eu estava sozinho pela primeira vez, numa cidade distante de pessoas que se importassem se eu vivia ou morria. A tristeza de estar sozinho é uma coisa real, e eu acredito que nunca me senti tão só quanto nesses dias. O hedonismo ajudava, mas eu sempre teria que ir para casa, e deitar, e sentir o frio dentro do coração. 

Hoje, eu sou casado com uma mulher que me chama de sol, mas que é ela em si, o sol que aquece minha vida. Mas ainda assim, em dias frio como os que teremos nesta semana (aparentemente uma "onda histórica de frio", nas palavras da BBC Brasil), eu olho para fora e penso, humildemente penso, naqueles dias e nas marcas que eles me deixaram; penso nas pessoas que moram nas ruas, e sofrem mais do que nunca em dias frios como esses, mas que também sofrem em dias quentes, porque São Paulo muita vezes parece se orgulhar de ser uma cidade que não se importa; e penso também em todas as pessoas que agora, em meio a uma pandemia e crise, ainda tem que carregar dentro de si seu próprio frio no coração, seja de uma forma ou de outra. Este frio tão forte, tão dolorido, que chamamos Solidão.

domingo, 9 de agosto de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Jedi (K)Nights

Arte por Guillem H. Ponpigiluppi

Em momentos de tristeza e pânico, a ficção torna-se nosso principal refúgio. E, como bom nerd velho, eu tenho mais de um refúgio para onde escapar.

Um clássico é, obviamente, quadrinhos. Leio HQs desde criança, começando com Turma da Mõnica (como o fizeram, suponho, quase todos os brasileiros), seguindo pelos quadrinhos disney, e chegando nos super-heróis como Homem-Aranha (um favorito, confesso), Batman, e outros. Fui uma criança abençoada nesse sentido: meus pais nunca me proibiriam realmente de ler o que eu gostava, e assim pude explorar meus gostos com todo o apoio deles. é claro que, com o tempo, fui seguindo para leituras mais complexas que essas, mas a verdade é que nunca larguei por completo este mundo.

Como exemplo maior, estes tempos eu tenho me enveredado muito pelo mundo de Guerra nas Estrelas (Nunca na minha vida irei chamar de Star Wars). Esse é um dos amores nerds mais antrigos: ainda lembro de ver o filme na Sessão da Tarde, muito antes deles irem para o SBT com nova dublagem. Vi a trilogia nova (que agora não pode ser mais chamada assim, detalhes de produção) ainda nos cinemas, e tive bonecos e joguinhos para me divertir.

Sim, o mundo da Força e dos Jedis e Siths me atraiu muito.... talvez porque logo de cara, quando os filmes nos prometem uma história "há muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante". ative-se um botãozinho na sua mente, e você seja transportado para este universo completamente diferente, com suas regras próprias, políticas específicas... longe dos problemas que o prendem neste vale de lágrimas que chamamos de planeta Terra. Guerra na Estrelas é um bálsamo para os problemas do mundo, mesmo para uma criança que talvez não tenha os maiores dos problemas.

Para um adulto então, eu tenho visto que é quase uma coisa necessária para a sobrevivência de algo que pareça um pouco esperança. E é fato que nós que somos fãs deste universo ficcional somos muito afortuandos em tempos atauis: há series (O Mandaloriano, a melhor série que jamais esperei gostar, dada a relativa falta da magia habitual deste mundo), jogos (Fallen Order é um jogo que está me encantando cada vez mais, mesmo com seus bugs habituais), e filmes novos, que embora controversos (não para mim, gostei de todos eles), esão aí fornecendo material novo para a fantasia de imaginação de uma nova geração de nerdinhos.

Nesses tempos de tanta morte, descaso com o ser humano, desrespeito, onde o que há de pior na humanidade parece crescer e enraizar-se cada vez mais.... è sempre bom ter uma obra que nos fala da importância da esperança em tempos sombrios, de se acreditar no outro contra todas as expectativas, da possibilidade de um mundo melhor. Mesmo que essas coisas aconteçam só ali, no mundo da imaginação, é a partir dali que nascem as sementes da realidade. Esta guerra que travamos, neste país e em nós mesmos, precisa de alimento para a alma, e este é o meu. Um dos meus, pelo menos. E assim, passo as noites numa galáxia muito, muito distante.


quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Ausência Presente

Fonte: Flickr de Ephebic Bears


Não sei se o leitor destas mal-traçadas crônicas sabe, mas eu faço terapia. Não é algo que eu fale muito a respeito. Não por ter vergonha, apenas nunca é realmente um assunto que eu sinta que vem à tona, em conversas casuais. "Ah, bom saber do seu corte de cabelo novo! A propósito, eu faço terapia!". Nada orgânico, como pode ver. Nem mesmo nestas crônicas, eu creio, falei algo sobre minha terapia, o que é algo surpreendente, se considerarmos que estes textos são, de certa forma, parte da jornada de auto-conhecimento, ou seja, parte do tratamento psicológico em si.

Mas hoje é um dia especial, e eu falo disso, porque dentro de um asessão com o terapeuta, eu me vi envolvido em uma coisa muto mais profunda do que eu esperava. Para quem não sabe, isso na verdade é muito comum em sessões: fatalmente você sai de lá com ou um peso gigantesco que você tem de lidar agora, ou com uma sequência de pensamentos galopantes que te intrigam. A terapia, para mim, é a investigação detetivesca de si mesmo, com todas as pistas e reviravoltas possíveis, e um pouco da velha melancolia também.

E foi essa que me acometeu hoje. Pois em meio à sessão, eu me vi pensando em um algo da minha mente, uma lacuna especial. Não posso falar muito sobre o que é, simplesmente porque não sei o que é: trata-se de um espaço que sinto que deve ser preenchido, mas que não tenho a menor ideia de com o que, ou como eu sequer começaria a lidar com isso. Saber que ele existe, na verdade, já foi um grande avanço: eis aqui a "cena do crime" por assim dizer.

Mas o que é esta lacuna:? Qual sua natureza? Não sei dizer. Sei que está no passado, e que ela parece ser uma chave para alguma coisa em mim. Pode ser que eu esteja enganado - já aconteceu antes. A mente quer se sentir melhor, e muitas vezes você se agarra em algo que acredita que, dessa vez, vai conseguir resolver aquele vazio, aquela angústia peculiar. Mas não é verdade, não existem saídas fáceis. O que não te impede de ter esperança, até porque, existem sim momentos-chave, a pista principal para entender a si mesmo, como queria apocrifamente Sócrates.

Ainda assim, esta lacuna me fascina, e penso nela não só hoje, quando ela foi o tema principal da sessão com o terapeuta, mas muitas vezes ao dia, aos dias, e não consigo expressar ela por nenhuma outra forma que não ouvindo uma certa música, ou olhando um certo quadro, ou mesmo saboreando uma certa comida. Uma ferida invisível em algum lugar que não alcanço, ou talvez algo que eu tenha perdido em algum lugar em Belém do Pará, tempos atrás, ventos atrás. 




quinta-feira, 30 de julho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Ode ao professor Raimundo

Fonte: Site Observatório da TV

Sou um homem de sorte. Além da minha vida pessoal ser linda neste momento, obrigado, eu tenho trabalhado com algo que gosto muito, que é ensinar Inglês. Para quem não sabe, sou formado em História, mas tenho uma vasta experiência como professor de Língua Inglesa, ao ponto de poder dizer que tenho mais experiência como professor de inglês, que de História, curiosamente.Ou não tão curiosamente assim, já que fui eu mesmo quem buscou este caminho.

Foi uma profissão que sempre me encheu os olhos, a de ser professor. Pode-se dizer que tenha havido aqui alguma influência dos meus pais aqui: Minha mãe, particularmente, certamente foi uma pessoa que me inspirou a ser professor. Muito da minha postura como profissional devo a ela, das observações que fiz de seu trabalho ao longo dos anos que moramos juntos. Não tudo, é claro: Ainda sou uma pessoa um tanto, digamos, laissez faire no que diz respeito à organização de documentos e coisas mais burocráticas que nós professores precisamos fazer. Mas com certez,a o melhor de mim como professor,, devo à Dona Gleice.

Hoje trabalho como professor à distância, especificamente via Zoom e skype, como muitos colegas devem estar fazendo em tempos de Covid-19. Não digo que tenha uma vida fácil. De fato, há dias que parece que nunca estive tão cansado como quando dou 3 aulas direto . Mais cansado até, do que se tivesse feito as mesmas aulas em sala de aula: Li em algum lugar que o foco de uma pessoa trabalhando no computador home-office é redobrado, porque o indivíduo fica mais facilmente distraído pelas coisas e pessoas ao redor: filhos, animais de estimação, campainha tocando ao longe.  Se assim for, isso explica porque todo dia acordo ainda mais cansado que o dia anterior.

Mas apesar disso sou sortudo, muito sortudo, porque tenho amigos que são professores regulares, e que além dessa tensão toda, ainda encaram a idiotice de donos de escolas querendo reabrir seus estabelecimentos em plena pandemia. Donos que só pensam no lucro, se recusando a ver  a suprema estupidez e risco que é reabrir um ambiente onde jovens e crianças vão necessariamente conviver além dos limites estabelecidos, e que carregarão a doença para seus lares, onde dançaremos mais uma vez a dança da morte que tanto convivemos neste primeiro semestre de 2020. Hoje mesmo ouvi falar de um dono de escola que foi fazer uma carreata clamando pela reabertura das escolas: é a definição de estupidez.

Ainda assim, lá estão os professores , com todas as reclamações sobre ter de usar uma tecnologia de forma quase improvisada, sem qualquer treinamento por parte das escolas; tendo de praticamente tornarem-se youtubers para manter a atenção de jovens francamente entediados e em choque com a situação de um mundo em declínio; e se preocupando consigo e com seus entes queridos, posto que são humanos como todos nós. Sim, lá estão eles, e este pequeno texto é só mais uma forma de homenageá-los, embora eu saiba muito bem que o que seria melhor era respeito e um salário justo.

Um dia amigos, quem sabe um dia. 

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: O Catálogo Das Coisas Específicas



Na madrugada da alma, que muitas vezes combina com a madrugada normal de horários e tudo mais, pensamos nas coisas mais loucas, do engraçado ao trágico. Por que o gosto de peito de peru é algo tão peculiar com um determinado de tipo de maionese? Por que aquele garoto se suicidou no meio de um Domingo ensolarado? O que será que eu vou cozinhar amanhã para o almoço? Sabe, coisas assim, aleatórias.

Numa dessas madrugadas, pensei nas músicas reais que ainda existem. Todos nós conhecemos essas canções: são aquelas que você sente o sentimento verdadeiro por trás. Talvez às vezes não seja realmente o sentimento do cantor, talvez as palavras não representem totalmente a dor que carrega em seu coração, mas com certeza ele cantou com sua alma ali. Fingiu que era dor a dor que deveras sentia, como diz o Fernando Pessoa. Você pensaria que essas obras são muito comuns, mas ao contrário, elas tem sido cada vez mais raras; em tempos plásticos, músicas plásticas são as mais pedidas. Arte plástica em geral, ou talvez eu seja um velho ranzinza de 32 anos.

Pensando nisso, lembrei de uma outra preferência específica que tenho: fotos preto em branco, de uma pessoa à vontade, olhando com amor para a lente que captura a imagem. Agora sim, eis um item que é extremamente específico. Boa sorte procurando isso no Google: muitas vezes tentei e só encontro as fotos clássicas, sabe, mega posadas. Eram tempos difíceis para fotos, muitas vezes elas levavam quase 20, 30 minutos. A magia, evidentemente, sumia nesse meio tempo. 

Mas no fim, sabe o que é mais difícil de encontrar por aí? Emoções genuínas. As pessoas falam muito de tempos líquidos, mas elas estão erradas, e muito. É uma era de emoções plásticas: brilhantes e aparentemente duradouras, mas falsas. apagadas com o tempo. Em dias assim, eu luto para encontrar  as migalhas de emoções verdadeira,s seja em canções, fotos, comidas feitas com amor. No começo é imperceptível, porque suas sensações estão diluídas pelo lixo que você chama de emoção real; mas com o tempo, seu paladar se apura, como se provasse um bom vinho. 

E assim, falando em vinho, proponho um brinde: às coisas com verdadeiros sentimentos. Que sejam poucas, porque assim são mais intensas; mas que sejam eternas também, pelo menos enquanto durem.

terça-feira, 21 de julho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: 90 dias para fofocar



Além de futebol, e de reclamar da vida, o brasileiro tem como tradição nacional a fofoca. Ora, não minta para mim: com certeza você já deu aquela esticada de ouvido para tentar entender o que o vizinho estava falando mais alto. Ou então , nesses tempos modernos, procurou o perfil de uma determinada pessoa no facebook ou instagram da vida, seja porque você teve objetios românticos com essa pessoa, seja por pura e simples curiosidade.

Eu sempre advogo que a fofoca é uma consequência do impulso humano de querer saber mais. A nossa mente é faminta por conhecimento, mesmo que inútil .E saber da vida dos outros ao nosso redor é algo assim como o açúcar branco de ter conhecimento: não vai acrescentar nada à sua vida, talvez na verdade até torne sua vida pior.... mas por Deus, como é viciante!

O que nos leva a algo que eu e Aline temos feito durante esta quarentena interminável, o nosso novo êxodo hebreu no deserto da estupidez ao nosso redor. Temos assistido, de maneira quase hipnótica, o programa do TLC 90 dias para casar. Se você não conhece, procure no youtube, estou certo que vai encontrar episódios inteiros deste programa por lá, como nós dois encontramos. Ou melhor, não procure. Salve-se, leia um livro, afaste-se deste vil show de horror.

No entanto.... que divertido que é. Em 45 minutos vemos um verdadeiro zoológico humano de pessoas desesperadas por companhia, tão angustiadas com a solidão que aceitam qualquer migalha de carinho vinda de qualquer parte do mundo; e por outro lado, temos pessoas tão atormentadas em querer sair de seus países, que se sujeitam a situações por vezes humilhantes, por vezes simplesmente ridículas, tudo por um green card pros EUA, lutar pelo falido sonho americano.

Assistimos isso tanto, que eu fiquei enjoado comigo mesmo e sugeri à minha esposa que asisstissemos  algo mais construtivo, no que ela concordou. Foi aí que vimos um documentário muito interessnate sobre o Che Guevara, e aprendemos em 1 hora e 45 minutos muito mais que em 3 horas de 90 dias para casar. Contudo, se não fosse ver esse show, nós provavelmente não teríamos nos animado para assistir um documentário... então talvez de maneira indireta, o TLC tenha contribuído para o nosso conhecimento? Isso sim é escrever certo por linhas tortas!

domingo, 19 de julho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Fugere Urbis

Fonte: http://mayoorange.blogspot.com/
E de repente o velho ciclo alcança outro aspecto: a fuga pros interiores. Não que a situação esteja melhor por lá; de fato, se considerarmos São Paulo, as coisas estão indo de mal a pior. O governador recentemente disse que grande parte das cidades estavam no chamado "nível vermelho", e será necessário se organizar uma estratégia para atender as pessoas afetadas pelo Covid-19, de novo.

Se a realidade aponta para uma situação matematicamente pior nas cidades interioranas, por que o fascínio da fuga da cidade, nesses tempos difíceis? A bem da verdade, o conceito em si não é novo, mesmo em tempos mais modernos. Desde algum tempo tenho visto mais e mais pessoas buscarem uma vida "tranquila" e se mudando para lugares mais bucólicos - ou pelo menos com a fama de assim serem. Muitas dessas pessoas, de fato, fazem o movimento de retornarem para suas cidades natais, ou talvez a cidade natal de seus pais e avós. Há sempre alguma estrutura ali que os abrace, seja familiar, seja da memória.

Mas, como eu disse, o plano não é novo e remota a tempos feudais mesmo, quando da queda do Império Romano e da fuga das pessoas para interiores, refugiando-se nos feudos (que antes eram propriedades rurais das elites urbanas). O porquê naquela época era evidente : os "bárbaros" invadiam os portões de Roma, e tudo saqueavam. Era necessário buscar uma espécie de segurança entre novos muros, ou talvez um esquecimento por parte da turba invasora, que talvez se contentasse com os saques nas cidades e deixasse seguir em relativa paz os refugiados campesinos.

Não tanto a questão da segurança (que, como vimos, é bastante discútivel, pelo menos no que concerne o Corona vírus), mas muito mais pelo segundo fator, é que eu acho que as pessoas veem no campo seu refúgio ideal: a visão de que ali, longe da turba enlouquecida e sem máscara, a doença passará como uma tempestade desafortunada, e tudo mais ficará em paz, bastando apenas resistir um pouco.

Não posso deixar de manifestar minha discordância desse pensamento, mas também não posso culpar as pessoas que o tem. Pois a verdade é que até eu mesmo busco a paz em lugares diversos esses dias... e em certos dias azuis, quando olho ao horizonte a infinidade de prédios a se perder de vista em São Paulo, fecho os olhos, sinto o vento ao meu redor, e imagino um longo caminho de árvores e verde, com o vento sacudindo as folhas, numa sonata natural.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Reflexo do passado

Fonte: Getty Images


O Facebook, vocês sabem, tem uma coisa que se chama "lembranças". Você também tem, estou certo, mas as do Facebook são diferentes: ele mostra pra você algumas publicações antigas (sejam fotos, textos, ou um link qualquer), e pergunta se você quer compartilhar isso. Algumas  não precisava nem perguntar: é deletada na certa. Outras são mais suaves, e bonitas: essas são as que mais mexem com a gente. Nesses dias, que estamos presos em casa, as memórias podem ser as melhores fugas que temos.

Mas nem sempre é o que ocorre. Pois é fato que ao passar do tempo, mudamos dia a dia, ano a ano ; e a nossa versão anterior é uma casca que vai aos poucos se rachando, e dando lugar à nossa versão atual, que também irá dar a lugar a uma versão futura, num ciclo que prosseguirá até a nossa partida. E quando somos confrontados com uma versão anterior de nós mesmos, é posssível que surjam uma série de emoções: a mais comum é vergonha, seguida de perto por vontade de rir alto de si mesmo.

Quanto a mim, não sou exceção à regra: é muito comum eu ver surgir nas lembranças da rede social, opiniões que eu tinha, e piadas bizarras que eu fazia, que não condizem em absoluto com quem eu sou hoje em dia. Veja, até mesmo um passado reacinha eu relembrei - não sem passar uma absoluta vergonha própria de como a desinformação me levava a ter um posicionamento agressivo por nada. O vinho da juventude é amargo com nossos erros; muito melhor é o frescor da limonada de nossa Experiência.

Mas sempre me pergunto, quando vejo isso: qual conselho eu daria ao jovem Alfredo neto? Será que o advertiria dos dissabores que viriam ao longo dos anos? Ou as alegrias que viriam adoçar sua vida, que em muitos momentos parecia não ter fim em angústia? Não sei. Só sei que ele provavelmente não me ouviria e me mandaria pra bem longe. Ainda assim, há em mim uma ternura inescapável, e a vontade abraçar a mim mesmo do passado é grande: Pois, naqueles dias, eu não sabia ainda como sentir a vida.




quinta-feira, 2 de julho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Elegia



Hoje, marcamos quase um milhão e meio de infectados no Brasil, e mais de sessenta mil mortes.  Pra você ter uma ideia, em 2019, morreram de homicídio neste país pouco mais de 40.000 pessoas, de acordo com os dados oficiais - e isso de uma das mortes que nós, em tese, mais nos preocupamos. E isso num ano todo: ainda estamos em Julho, acabamos de começar o segundo semestre.

Se formos considerar mortes por causas respiratórias, o principal sintoma do Covid-19, os dados vão se acumulando em emergência:  O Brasil teve um aumento de 8,15% de mortes por essa causa, de acordo com a ARPEN (Associação de Registradores de Pessoas Naturais).  Evidentemente. o principal contribuidor disso é o Corona, a despeito do que insite em acreditar o presidente Bolsonaro, quando afirma ser tudo um grande exagero da imprensa.

E no entanto, temos um culpado maior nisso tudo, ou ao menos em uma das áreas que mais afetam nossa sociedade atualmente. Pois veja, não podemos fazer nada a respeito das questões estruturais: resta-nos esperar que os nossos representantes no poder façam algo que possa nos ajudar a sobreviver a esta crise maldita, a esta peste moderna. Alguns estão ajudando, outros estão claramente atrapalhando (cofcof Bolsonarolazarento cof cof), mas é inegável que esta bola, não nos pertence.

Contudo, existe uma série de coisas que poderìamos estar fazendo melhor, e simplesmente nos recusamos a tanto. Talvez por estarmos cansados da quaretena que não acaba, talvez por puro e simples egoísmo, Muitos de nós estão vacilando nos cuidados, e digo isso com pesar no coração, pois alguns destes que vacilam eram justamente parte dos poucos que ainda se valiam de tentar respeitar a quarentena. Talvez também seja uma falsa esperança: afinal, se na Europa já estão reabrindo, porque não no brasil, esta terra que certamente já sofreu tudo que tinha de sofrer, na visão dos iludidos?

E toca haver bares disfarçados de pet-shop, para poder funcionar escondidos. Toca desativar hospitais de campnaha, na esperança que tudo jáa está acabando. Até mesmo conversa sobre retorno do campeonato carioca estão acontecendo - tudo seguindo, de acordo com as autoridades, "o máximo de proteção necessário para isso", como se  houvesse possibilidade de se proteger da doença em meio a um jogo acirrado. Não falo aqui dos trabalhadores essenciais: esses tem todo meu apoio e suporte. Falo dos que insistem em sacrificá-los, sem ao menos garantir que eles tenham o mínimo de segurança. Não à toa, o percentual de pessoas infectadas com coronavírus nos bairros pobres da cidade de São Paulo, a maior metrópole do país, é 2,5 vezes maior do que nos ricos. Ou seja, eles simplesmente não se importam se o pobre morrer: a ideia aqui é reabrir tudo, e que morram os (pobres) que tem que morrer.

E falando de morrer, essa sim é a nossa principal falha, nós, humanos, cidadãos, viventes. pois cada um desses números para nós, tornou-se apenas isso: um dado numérico. Um algo que olhamos todos os dias, e anotamos na agenda mental na nossa cabeça. Hoje 60 mil; amanhã talvez 62 mil? 63 mil? Quem pode saber? Fazemos isso, e esquecemos que cada uma dessas pessoas estava viva, tinha planos, sonhos, como nós. Era alguém que aqui estava, e depois partiu, em dores, afogada em si mesma. Não lamentamos a morte dessas pessoas, exceto quando é da nossa família, ou é alguém conhecido. E no entanto, é preciso pensar neles. Ao menos um pouco, ao menos por alguns momentos, precisamos absorver a enormidade das mortes que estamos observando. Precisamos rehumanizar a nós mesmos.

As coisas não podem ser apenas "vida que segue". Não podemos deixar que cada pessoa morta tenha sido apenas um degrau pra gente voltar à dita vida normal, sem qualquer elegia por elas. Sem um pensamento de conforto, de piedade. Se nos fizermos dessa maneira, podemos sair incólumes da
covid, mas nunca mais nos recuperaremos da doença no espírito que causamos a nós mesmos.


quarta-feira, 24 de junho de 2020

Relatos da Cidade Pandêmica: Benjamin, o lixeiro

Fonte: Istockphoto

"O meu cargo, na real, é de gari, mas estou na coleta de lixo por uns 5, 6 anos já. Sempre trabalhei de noite; minha cabeça funciona melhor, meu corpo se arruma bem, sei lá, eu prefiro. Mas já tive que trabalhar de manhã também. Sempre coletando o lixo: com o tempo a gente pega a experiência com isso.

O salário é uma bosta pro que a gente passa. Média de 1200 contos aqui na cidade que eu moro,  correndo risco de se cortar com vidro que uns moradores arrombados botam junto com o lixo comum; correndo de gente armada ali nas ruas mais perigosas; a humilhação de passar e ser julgado como se fosse mesmo o lixo que a gente carrega. esse, aliás, é um dos motivos que a gente aqui de noite prefere esse horário, menos gente, menos aporrinhamento.

Não posso dizer que cruzei a cidade toda, tenho o setor que eu trabalho direitinho. Mas aqui é grande, e variado, então eu sei bem quais as mudanças que tem de cada bairro, em cada parte. A cidade é insana, tem ruas que você só vê mansões, basicamente, e outras partes só casinhas de tijolo cru, uma laje cinza acima. O que sempre tem é um cachorro. Toda rua tem pelo menos um cachorro solto , olhando de longe ou seguindo a gente. Às vezes eles latem e perseguem, mas sendo honesto nem é tantas vezes, pelo menos nesses 6 anos. Alguns a gente até tem amizade, falando à vera pra ti.

Nessa pandemia? Vivendo e segundo, meu irmão. Trabalhador essencial. Sigo pelas ruas, correndo atrás do caminhão, jogando o lixo na caçamba. passo pelas festas que a galera faz, apesar do tal do Fica em Casa que vivem falando. Olho e fico pensando, meu Deus, o que será que faz a pessoa desistir assim? Porque sabe, na minha cabeça, isso não é descrença, é desistência mesmo. Da vida, de um caminho melhor. Não julgo, falar a verdade. Já fui assim.

Mas isso tudo, eu penso rápido mesmo, valeu? Porque daqui a pouco vem a curva, tem que segurar forte: ainda tem mais de 4 horas de turno, e a noite nem começou direito. Olha o que tem aqui no saco: vidro de novo. Eu te falei, mano, o lixo pior é a bosta da pessoa que faz a gente se sujeitar a isso."


segunda-feira, 22 de junho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Neon Demon

Fonte: PS Store

A obsessão atual com os anos 80, e talvez o começo dos 90, não é de hoje, na verdade. Se bem me lembro, ela começou como uma semente ali pelo começo de 2001, 2002. Certamente não estava presente nos anos 90, pelo menos até aonde me lembro: talvez estivéssemos perto demais para sentir saudade, próximos temporalmente, ansiosos pelo que o futuro traria.

E eu posso entender bem isso. Os anos 80 foram uma período bem terrível no Brasil e no mundo, algo como que uma cereja no bolo de cocô que foram os anos 70 e 60, particularmente no âmbito social. É claro que havia um afã econômico em muitos lugares, mas os direitos sociais eram engolidos a passos largos, ditaduras eram impostas sem cessar, gerações e gerações eram sufocadas pela  vigilância paranóica e violência. Quando vieram os anos 80, com sua grave crise econômica e a eminente guerra nuclear, acho que não veio ser realmente uma surpresa para ninguém.

E quando eles acabaram, tivemos os anos 90. E que respiro deve ter sido, sair de um período sombrio com novas possibilidades. A Guerra Fria estava terminada, a Ditadura Militar no brasil devidamente encerrada, com eleições diretas e tudo.  Em todo o mundo, países se reconstituíam, ditaduras caíam. Podia-se finalmente buscar a cura para o espírito sofrido, superar os fantasmas do passado e construir um mundo novo, um mundo forte.

Mas não foi isso que aconteceu, não é mesmo? As sociedades ocidentais falharam em lidar com seus demônios. Como um indivíduo traumatizado que não consegue superar devidamente seus demônios, o mundo ocidental tratou de buscar desesperadamente um demònio novo, qualquer coisa. Drogas, Saddam Hussein, guerras na África e Oriente Médio. No Brasil, boa parte de nosso tempo foi tomado tentando resolver uma grave crise econômica (algo que é meio que um esporte nacional mais representativo que futebol), mas nunca sequer paramos para curarmos as feridas, chorarmos os mortos, consolarmos os inconsoláveis, prendermos os responsáveis. Isso nunca aconteceu, nem mesmo em um nível simbólico.

E hoje, ouvimos as músicas assombradas pelos anos 80, e a moda da época retorna; os filmes, frases, jogos e ações aparecem por todo lado, numa imitação perversa, de certa forma. Sim, porque o que estamos fazendo é muito simples: queremos voltar àquela época, onde o futuro ainda existia, onde havia a esperança de um algo melhor. Não queremos os anos 90: estes são muitos reais, muito demonstradores da nossa falha em alcançar o Eldorado da paz. Queremos os anos 80, porque ali há o doce bálsamo da enganação, da falsa esperança eterna.

Não queremos crescer, nós que nascemos naquela época, porque crescer implicaria em mudar o mundo pelas nossas forças, então preferimos emprestar nossas  forças para ícones do passado, tnato em cultura como em política. Não queremos que nossos jovens cresçam também, não por si sós: queremos que engulam a mesma coisa que engolimos, sejam como que uma versão mais nova de nós mesmos, porque a mudança nos assusta.

Mas ela está vindo. Devagar, e sempre. E quando ela vier, ou ajudamos, ou saímos do caminho.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: O Desafino Ortográfico



Eu sou um homem injusto, admito. Muitas vezes disse, ou deixei a entender, que minha principal leitora era minha amada esposa, Aline Garcia; pois venho aqui em público me desmentir, e dizer que tenho como fiéis leitores, também meu pai e minha mãe (que inclusive comenta direto aqui no blog, OI MAMÃE).  Meu pai, caso o leitor não saiba, é um escritor nas terras nortistas distantes, um grande escritor, diga-se. E minha mãe é uma grande professor de português, e atual gastróloga em formação. Sortudo sou eu, que tenho a vantagem de experimentar suas receitas quando ela consegue vir aqui me visitar, em Sampa, essa terra cinza.

Pois foram justamente eles que me alertaram de uma coisa acontecendo nestas crônicas: tenho cometido erros por aqui. É bom que se diga, não foi algo dito em tom de crítica: antes, foi uma observação deles, leitores atentos que são, para o ritmo dos textos aqui.  Pois, poucos sabem, eu basicamente só vou escrevendo os textos e publicando. Existe pouca  ou nenhuma revisão nesses escritos, e de fato, se você olhar algumas crônicas para trás, verá alguns (ou muitos) erros de ortografia neles.

Isso ocorre porque escrevo com o calor da emoção, admito: nunca realmente me planejo para escrever aqui, e em geral a única coisa que eu tenho de antecipado é o tema da crônica. Esta, por exemplo, me surgiu na segunda feira, quando conversei via ligação whatsapp com meus pais. Antigamente, eu ainda fazia uma espécie de rascunho no meu caderno, mas com o tempo percebi que acabava perdendo a energia para publicar aqui. Isso é algo que ainda estou trabalhando; a concentração e a energia necessárias para produzir ficção.

Mas justamente por isso, eu acho que este blog tem sido um grande aprendizado, e eu tenho tomado mais cuidado aqui, para que o deleite de meus leitores mais fieis não seja afetado. Afinal, como bons brasileiros que somos, temos o ritmo no sangue, e quando ele quebra, o que nos resta, senão tropeçarmos no texto, e esperar a próxima música? Então, fica aqui o meu relato, e meu pedido para os prezados leitores, quando verem algum erro por aqui, me perdoarem: trata-se menos de um descuido de técnicas, e mais um afã de passar logo para o papel os sentimentos que afloram no peito.

E tennhdo ditpo!

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Aquela que nasceu com a manhã

Art by Chloe Lynch


Ontem eu sonhei com a minha irmã. Ou talvez eu deva ser específico: sonhei com uma irmã que eu nunca tive. Pois quem me conhece sabe que tenho uma irmã; ela conta hoje com seus quase 25 anos em Julho, e está adulta e cuidando da vida dela.Mas essa pessoa, essa menina com quem sonhei, não era ela. Ao contrário, acho que ela nunca nem sequer teve a oportunidade de ser adulta.

Seu nome era Lucíola, como no livro de José de Alencar (talvez haja aí uma referência psicológica na minha mente? Que os psicólogos de plantão me digam!). E ela morreu, no meu sonho, aos 5, 6 anos de idade. Não chegou a entender a miséria de que é formada o mundo; não chegou, também, a poder sentir emoções bonitas que vem à medida que envelhecemos. Agora, no seguir do dia, não me recordo exatamente dos pormenores do sonho: afinal de contas, muita coisa acontece conosco ao longo de um dia, e estas exigem nossa faculdade mental, ainda mais quando se trata de um professor. Ficou porém, a sensação do vazio, do luto que sentia por ela.

No sonho, ela tinha vivido e brincado conosco. De alguma forma, ela conheceu a Aline também, pois em teoria ela teria vindo para nossas vidas agora, com meus pais mais velhos. e no sonho, ela havia morrido a 6 anos. e seguíamos a nossa vida, sempre com a dor no fundo do coração; pois a dor de um luto é a dor que nunca passa. Você só reconstrói da melhor maneira possível a sua vida, e segue em frente. Mas a dor em si nunca vai passar.

Acordei chorando. Lucíola fizera eu sentir algo que eu nunca senti antes, até agora: a tristeza de uma saudade sem chance de ser resolvida. Senti - ainda sinto- a dor por tudo que ela não pôde viver, tudo que ainda esperava essa criança de msues sonhos. E fiquei pensando nos pais que perderam seus fihlos ainda crianças, para este mundo terrível, que tudo devora. Tanta maldade e sofrimento aqui; quantas Lucíolas não partiram muito cedo desse mundo?

Ela também me ensinou a amar de uma forma que eu não me recordo de ter sentido antes. No sonho eu vi a foto dela, e eu sabia: eu daria tudo para dar vida novamente àquela menininha. Para vê-la dançar no quintal novamente; para poder brincar com ela nos parques e brinquedos que não existiram, que nunca existiram para ela, pois ela está somente aqui, em minha mente.

Um beijo, Lucíola. Fica em paz, te vejo em meus sonhos novamente.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Lost and Found



Sábado, eu tirei o dia para ajeitar os livros que estavam , e ainda estão, no meu escritório. Digo "meu", e falho bastante; pois aqui é o espaço de trabalho meu e de minha esposa. Não temos muitos equipamentos aqui, basicamente os computadores e uns ventiladores. Entretanto o que não temos em tecnologia, temos de sobra em livros; de sorte que resolvi me aprofundar na arrumaçao dos mesmos.

A ideia central era simples: eu ia retirar toodos os livros das suas respectivas prateleiras, e catalogar tudo com temas que me interessassem realmente. nada de "drama", "ação", etc. Eu queria assuntos mais agitados: "investigação" seria um. "Romances surreais", outro. Assim, quando eu me sentisse um pouco mais inclinado a explorar um determinado tema, eu iria diretamente na prateleira esotericamente organizada, e me deleitaria com a obra, e com o serviço bem feito em separar por mim mesmo as coisas.

Como todo plano que se põem muitas expectativa,s este falhou miseravelmente: pra começo de conversa, eu subestimei a quantidade de livros que eu tenho, de sorte que pôr os livros das prateleiras para o chão do escritório em breve tornou-se tomar o escritório inteiro de livros jnogados ao chão, sem lei ou razão. desta vez, a poeria não me afetou tanto; estava devidamente protegido com a máscara nossa de todo dia (graças ao Covid). Mas a situação era dantesca: mal se podia andar pelo cômodo, e as horas avançavam implacáveis: o que começou a ser feito às 10 horas da manhã, logo levou-me às 14, 16, 18 horas, sem um avanço significativo...

....exceto algo mágico, que eu creio que aconteça com todos vocês. Pois, ao revirar tudo, eu reecontrei livros antigos que eu não mexia a muito tempo - o que quer dize,r que encontrei um pedaço de mim que eu não via a muito tempo. Pois para mim (e , creio, para muitos outros), livros são uma janela da nossa alma. Eu não me lembro de um momento que um livro não estivesse me dando alegria, e nem me lembro de um momento que ganhar um livro não fosse, para mim, o presente ideal.

E eu vi esses velhos amigos, enão pude deixar de relê-los aos poucos. Não tudo, claro - eu tamb´me não sou tão louco assim - mas um pedacinho aqui, e outro ali.... e cada releitura era uma memória, ou uma sensação reencontrada. E amigos, que presente para a alma isso foi. Que refresco, que bálsamo. Cada Raymond Chanlder que eu via ao chão e relia, cada Cormac Mccarhty, cada Garcia_roza... era eu ali. Era um eu que amava aqueles livros, e comprou-os, e viveu com eles em ônibus, sofás, ou mesmo salas de aula, entre um aluno e outro. Túneis do tempo.

Sim, eu amei rever meus livros. Minha esposa também amou que eu me sentisse muito melhor de posi de tudo, mas posso apostar que ela amou muito mais ver o escritório finalmente arrumado. Porque o amor aos livros, ah, esse é o mais bagunceiro de todos!



terça-feira, 2 de junho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: O horror nosso de cada dia



O tema do desconhecido é algo muito caro a uma série de autores e diretores de horror e terror. O que pode ter mais potencial de ser apavorante do que, especificamente, não saber o que há em um quarto escuro desconhecido, onde sua mente preenche o vazio com formas e ares sinistros? E neste momento, tornamos o horror o OUTRO, o avatar de nossos males, e decididamente fora de nós.  Porém, eu creio que podemos tentar entender isso muito além deste foco. Ou talvez, o melhor termo seja: entender isso muito mais próximo de nós do que se imagina, exatamente. 

A sensação do desconhecido como matéria-prima do horror é algo que muitos talentosos artistas usaram. Stephen King é muito conhecido por gostar de propor a sugestão dos terrores, antes de lançar mão de cenas mais abertas, grotescas. Num lado mais chegado ao suspense, Hitchcock era um artista que trabalhava nas sutilezas, no que a audiência esperava que acontecesse, sem necessariamente mostrar  vísceras e sangue explícitos na tela. De fato, Psicose é um dos poucos trabalhos dele em que há uma demonstração mais explícita de sangue em tela. Há também outros autores, mais famosos porém com tema smais cósmicos, que não creio que se enciaxem aqui por estar me atendo a um medo mais próximo, mais em nossa vizinhança humana.

De fato, eu escolhi estes dois auteurs, porque creio que eles demonstram especificamente o que acho ser o fator central de nosso tema de hoje: o Inferno ser os Outros. Ou talvez, o Horror ser o outro. Tanto King quanto Hitchcock , embora cada um com suas especificidades, se esforçam em mostrar o lado oculto do humano, mesmo quando há fatores outros que tornam o fio condutor da história mais  complexo, ou mais sobrenatural (no caso de King). Esse caminho, inclusive, é algo muito usado por outros artistas: com certeza é mais fácil criar um monstro e usá-lo como símbolo de algo de podre dentro da própria alma humana, que enfrentar a podridão em si. 

No entanto, aqui estamos. Olhamos para fora, e vemos o horror bem ali. e não se trata de um monstro, ou alienígenas, ou espíritos. O nosso horror é um ministro que diz odiar o termo povos indígenas. É um presidente que se recusa a demonstrar qualquer senso de humanidade pelos mortos do Covid, e que prefere acusar a doença de ser um esquema político. Nem tão longe: é um parente que diz concordar com tudo que o presdiente fala, inclusive sobre exterminar oposição, associar negros a gado de corte, diminuir mulheres como merecedoras ou não de serem estupradas. Esses são nossos monstros particulares, e eles venceram.  Talvez nem tanto Hitchcock( que se preocupava mais com thrillers que com o horror, verdade seja dita), mas Stephen King certamente entendeu isso melhor que ninguém: nunca foram os monstros sobrenaturais o nosso problema, e sim os humanos. Sempre os humanos.

E com isso, esse texto passará, e milhares morrerão por nada, exceto por dinheiro e um lucro maior ao fim do ano. Morrerão protestando por direitos enquanto são massacrados por um estado que não liga para eles. Morrerão sendo admoestados por serem agressivos, por não quererem diálogo, quando tantas oportunidades já foram armadas antes, apenas para serem encaradas com desprezo e escárnio. A dança da morte continua. E até esse crônica é apenas uma estupidez a ser lançada ao vento, ao nada. 

domingo, 31 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Ghost Story

Fonte: Wattpad

Um espectro ronda o mundo - o espectro da Tristeza, com "T" maiúsculo mesmo. E nós, brasileiros, o vemos todo dia, a todo momento. Não me parece exagero dizer que ele permeia todas as nossas ações, e as nossas dores. O que é a raiva que sentimos, ao ver o presidente falar asneiras em plena TV? Não raiva, mas impotência: é a Tristeza a nos afundar em sua lama. O que é a sensação de vermos cada vez mais pessoas morrendo, e os empresários discutindo rebaertura ao invés de se reunirem e tentarem ajudar num isolamente? É a Tristeza novamente, disfarçada de ultraje, de raiva no fundo do peito.

Este fantasma que nos assombra, não está aí a pouco tempo: na verdade , se considerarmos o Brasil, ele sempre nos acompanhou, como uma doença crônica acompanha um enfermo. Arrisco dizer que a Tristeza está intríseca na nossa arte, na nossa comida, nas nossas danças... mesmo canções dos anos 80, ditas mais alegres, sempre carregam em si um quê de melancolia, não? Podemos pensar em canções mais alegres: axés, sambas, pagodes em geral. Mas eu penso que eles podem ser apenas uma froma de disfarçar a dor; é costume da alma mais angustiada tentar sublimar seus sofrimentos de alguma forma, e talvez assim seja com a sociedade também.

Como disse, essa Tristeza não é algo que seja novo. Contudo, como ela tem se espalhado nesses tempos! E não apenas pelo Covid, ao contrário, a Pandemia veio meramente como uma espécie de confirmação de nossas previsões mais pessimistas sobre o mundo. Toda a crise, a revolta, as dores e mortes que sentíamos, em nosso âmago, que viriam, aqui estão. De uma forma ou de outra, os temores se concretizaram.

Não foram, também, os resultados de eleições diversas ao redor do mundo que nos afetaram de maneira tão atroz, embora elas realmente não tenham ajudado. Não sou do grupo de pessoa sque diz que nosso presidente, o Idiota no Planalto, é o responsável pelos nosso males de alma: eu sei que ele é o sintoma final de uma sociedade extremamente doente e podre, que enxergou nele uma solução (ainda que torta) para conseguir uma mudança. E essa mudança veio, e era tão destrutiva quanto muitos de nós falaram. Não me importo se essas pessoa mudaram de ideia agora: a verdade já foi revelada, e suas almas já foram expostas. Olhemos para o que acontece neste momento: é isso que os eleitores de Bolsonaro queriam. Sentem-se mal agora, e dizem se arreepende,r porque efetivamente a mudança afetou a eles mesmos; mas nunca nos enganemos em pensar que eles adquiriram consciência.

Como lutar com essa assombração? Não posso dizer, pois creio que cada um tem sua forma própria de resistir. Também acredito que os que se sentem verdadeiramente assombrados, são poucos, e por isso devemos nos unir. Lá fora, veremos a maioria em uma dança macabra, rindo de horrores, abraçando demônios. Que nós, que acreditamos em algo melhor, algo maior, possamos dar as mãos e construir algo para a próxima geração. Sim, a próxima, porque esta nossa... creio que já não há muitas chances. 

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Un jour, je serais de retour prés de tois



Um dia, eu voltarei ao seu lado.

Não falo de uma pessoa em específico. Ou talvez esteja falando, sim; de um grupo de pessoas, essas mesmas, que você pensou, quando leu essa frase acima. Já deixamos muitas pessoas na beira da estrada da nossa vida, não? E algumas, faz muito tempo já. Não me refiro aqui, às pessoas que infelizmente tiveram de ir por força maior: e nesses dias cinzas, elas tem sido tantas! Falo das pessoas que abandonamos mesmo, seja porque achamos não ter escolha, seja porque tinhamos total liberdade e escolha, e decidimos por não seguir adiante ao lado daquele determinado indivíduo.

Isso é, infelizmente, muito normal, não? Seguimos em frente em busca de algo, uma evolução talvez, ou mesmo uma forma de entender melhor o mundo; e nem sequer nos percebemos dos que deixamos para trás. Um amigo de infância, talvez; às vezes, um colega de escola que foi particularmente importante para sua vida. Talvez mesmo um parente: quem não teve um primo ou tio/tia que lhe incentivou a seguir um determinado caminho (ou a explorar um hobbie específico), e com quem não mais conversamos, porque a vida nos levou para um outro lado.

E isso é algo que a sociedade tende a normatizar. É  evidente, dizem as vozes das ruas, que você vai conhecer uma série de pessoas, e que depois você vai sumir da vida delas. Faz parte do processo de crescimento. Você aprendeu o que tinha que aprender com elas, e depois seguiu seu rumo, a pessoa também, e assim é a vida. esses são os dados lançados para estes tipos de relações. Muito fácil, nos dias de hoje, coisificar as amizades, enjaular uma conversa sem pretensões maiores entre dois indivíduos, em uma relação de trocas, de perdas e ganhos. É o que nos manda o Capitalismo: o que importa é você, não o outro. Sugue o que tem sugar, depois siga em frente.

E com isso, cometemos o crime maior de uima alma, que é perder a ternura. Sim, pois quando se perde esse calor interior, as maiores barbaridades são perdoadas, em prol de um ganho que pode ou não ser físico, e que nos fim das contas não serve de nada, pois de que vale ganhar o mundo e perder a alma? Por isso, eu afirmo, contra a corrente, contra o que nos dizem as vozes das ruas: Não esqueçam dos seus amigos. Não esqueçam dos que lhes aquecem o coração. Deste texto, eu lhes grito amigos: Um dia estaremos juntos novamente, e riremos, e choraremos, e não esqueceremos. Nunca esqueceremos. 



sexta-feira, 22 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: O sol se põe vermelho, como o sangue, e completamente despercebido




(Agradecimentos à amiga Tamyris pela frase que nos deu o título e a foto de hoje)

Existe uma certa libertação em não se ver mais a TV por um tempo, especialmente nesses dias tão complicados. era algo que eu fazia de uma forma um tanto religiosa: ligar a Tv em algum momento do dia, buscando entender quais os próximos passos a serem evitados. Aliás, isso é algo que tem definido nossos dias, não planejar fazer algo, e sim evitar fazer algo. Uma vida baseada em negações.

Mas eu falava da TV, e de fato temos feito muito isso aqui em casa, simplesmente não ver mais as notícias. Algumas pessoas poderiam acusar-nos de estar tentando tapar o sol com a peneira, afinal, de que adiantat evitar saber de uma determinada coisa, se ela nos cerca em toda sas interações ao redor? Contudo, é por isso mesmo que temos evitado os telejornais; simplesmente, as notícias são tão intensas, que acabam chegando ao nosso conhecimento de uma forma ou de outra. Impossível seria não chegarem, não é mesmo?

O que temos feito então? Ah, uma série de coisas. Compramos um jogo de tabuleiro de  detetive, e jogamos ele todo Sábado. Aline faz duas xícaras de capuccino, botamos um jazz misterioso, e jogamos nosso joguinho (Soctland Yard:Máquina do Tempo, para os interessados). Depois disso, assistimos alguma série ou filme policial: temos nos absorvido em séries com investigações esses dias, não sei dizer por que.

Já em nossas atividades sozinhos, Aline de vez em quando assiste uma série no Netflix que lhe interesse (em geral algo em espanhol); eu costumo ler algo ou jogar um jogo de aventura no velho laptop. Tenho recuperado meu prazer nos velhos point-and-click possíveis de se jogar um em pobre notebook que já foi molhado, jogado no chão, e que perdeu as teclas de digitação. Buscamos fazer coisas sozinhos, para visitar nossas mentes em paz. Eu acho que se você não der tempo a sua parceira para ela ser ela mesma, você está perdendo a melhor coisa de se ter alguém consigo, que são as descobertas do dia-a-dia.

Além disso tudo, gostamos de sentar e ouvir músicas, e pensar... por vezes, a musica guia nossos pensamentos, e posso ver minha esposa olhando para dentro de si, lembrado algo bom, talvez, ou mesmo apenas sentindo o ritmo. Quanto a mim, também faço isso, mas sempre me vejo olhando para a noite (ou quase noite) lá fora, e vejo que ignorei o céu por tanto tempo, que ele me parece algo novo agora, toda vez que o observo nesta quarentena. E com a música tocando ao meu redor, me ponho a observar lá fora, e sonho com a pintura do que vejo, e que jamais existirá.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: ...but the future refused to change.

Sadness, de Daniel Castonguay

Uma coisa que pouca gente fala é da esperança errada das pessoas. É um tema espinhoso, é claro: ninguém quer ouvir falar que suas esperanças de uma vida normal, pós-pandemia, estão erradas, que o mundo de antes acabou. Ou talvez seja difícil, para muitos, tentar entender um mundo que as pessoas ainda são fundamentalmente as mesmas , depois de tanta tragédia, tanta dor.

Essas pessoas são boas, porque acreditam na humanidade,  e no aprendizado por erros. Não uma crença inválida, por certo. As tragédias realmente tendem a mudar uma pessoa, fazê-la buscar entender coisas que talvez tenha relegado ao esquecimento em algum momento da vida. Mas quem disse que a mudança tem que ser positiva? E quem disse que é realmente uma mudança?

Neste momento, existem muitas pessoas que estão se descobrindo, para o bem ou para o mal. E não acredito que o número de mudanças positivas é realmente tão grande quanto esperamos. Na verdade, acho que estamos vendo, nas ruas e na internet, a verdadeira face de tantas, tantas pessoas... e essa revelação não vai se enterrar novamente. A caixa de Pandora se abriu; ou talvez tenha se aberto a muito tempo atrás, em 2018, nas eleições. Talvez até antes. O fato é que, essas revelações ruins são muitas. Existem muitas pessoas que se comprazem do sofrimento de outros, celebram a dor. Usam essa dor para justificar seus atos terríveis.

Também existem as pessoas que se revelam, na escuridão, como fundamentalmente boas. Essas são poucas. Não, não adianta puxar pela memória a quantidade de  pessoas boas que você lembrou agora. Só pare e pense: o mundo seria assim se a maioria das pessoas fossem boas? Pense e observe. Da observação vem a iluminação; mesmo que para coisas atrozes como estas.

A única coisa a se fazer, ao invés de esperar que as pessoas magicamente tornem-se melhores, é trabalhar do nosso lado para tentar pôr uma semente de bondade nessa terra cada vez mais infértil. Um trabalhao hérculeo, e na verdade não sei dizer se vale a pena, se considerarmos as chances de sucesso. No entanto, é preciso realizá-lo. Se não o fizermos, quem fará?