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domingo, 16 de junho de 2024

Crônica: Alea Jacta Est




Ultimamente tenho pensando muito no futuro. 

Ter um filho muda as coisas em sua mente. É claro que as prioridades mudam: Um ser minúsculo depende de você quase tanto quanto te ama, e de uma forma tão primal e desesperada quanto. E então você corre para comprar fraldas, remédios, comida específica para o estilo de alimentação dele, e quando percebe um ano e três meses se passaram já, e você mal se recorda como era dormir uma noite inteira, ou como era sua vida antes de sentir tanto amor no coração. Poderes da paternidade, suponho, e estou certo que a minha esposa tem algo igual ou superior a dizer a respeito disso tudo. 

Mas para além disso, eu tenho pensado muito em futuro, em legados. Sou antes de tudo, um historiador, apesar dos tantos chamados de vocações que me puxam para todos os lados. E é difícil para mim não olhar para frente com temor: do clima, dos avanços dos fascismos, dos medos que creio virem acoplados em todos os pais e mães que se importam com seus filhos. O mundo tem dentes e morde, já sabemos, mas como esses dentes assustam quando tememos pela vida de outro! 

Então sigo pensando no futuro, e me paraliso. Bem sei, bem sei: de nada adianta me focar no que não aconteceu ainda, é preciso focar no presente, construir o que se pode, guardar a comida agora e não me preocupar com a fome do inverno. 

Mas eu não tenho escolha. Minha mente é assim, e sou prisioneiro destes químicos que a governam; apenas um espírito tranquilo numa nave mental defeituosa. 

Então sento e penso, e agora já é tarde da noite, e minha esposa e meu filho dormem, e na escuridão da sala de estar sou iluminado apenas pela luz da lua e das estrelas. Daqui a pouco serão 5 da manhã, eu penso. Mas não consigo levantar do sofá

O que me move é o choro do bebê, uma emergência que eu posso lidar. Aline já foi lá no quarto dele recentemente, agora é a minha vez. então levantamos eu e meus temores, e tentamos lentamente dar ao meu filho chorando a calma de espírito que eu já perdi a tanto, tanto tempo. 



quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Cold, Cold Heart


O primeiro frio de verdade que eu peguei, não foi em São Paulo. Foi na Europa, e foi um valor negativo, -14. Lembro até hoje, porque como menino vindo do coração da Amazônia, eu nunca tinha sequer passado por nada que fosse abaixo de 17 graus, e isso vindo de um ar-condicionado alucinadamente forte, de uma sala de aula. A sensação que me veio em estar no meio daquele frio cobriu algumas emoções ruins que tive estando naquela viagem em específico, e nuna me esqeuci da sensação. Foi a primeira vez que eu vi neve também, falando nisso. 

O segundo frio de verdade foi menos forte, mas de certa forma bem mais impactante. Era 2015; eu tinha acabado de me mudar para São Paulo, contando então com 27 anos, para estudar mestrado na gloriosa USP. Eu não sabia que aqui havia inverno, ou pelo menos não sabia exatamente o que esperar. Como eu já tinha vivido um frio negativo (a minha experiência na Europa foi bem antes de vir para Pauliceia desvairada), achei que ia conseguir encarar bem os 15, 16 graus que aqui fizessem. 

Eu estava errado. 

É até engraçado lembrar disso agora, que adquiri uma resistência ao frio (ao ponto de minha esposa me apelidar de "forno ambulante"), mas eu realmente sofri com o frio de Sampa. Tentei resistir, num esforço de bazófia que servia para nada, e continuei fingindo que estava tudo bem, mas a verdade se mostrou em uma noite, quando do nada acordei com as narinas doloridas, e com a respiração soltando fumacinha, dentro do kitnet onde morava. Foi quando decidi comprar um mini-aquecedor, que uso até hoje. 

Mas muito além do frio físico, em São Paulo eu sofri o frio interno, espiritual por assim dizer, e por isso creio que ele foi mais marcante para mim. Eu estava sozinho pela primeira vez, numa cidade distante de pessoas que se importassem se eu vivia ou morria. A tristeza de estar sozinho é uma coisa real, e eu acredito que nunca me senti tão só quanto nesses dias. O hedonismo ajudava, mas eu sempre teria que ir para casa, e deitar, e sentir o frio dentro do coração. 

Hoje, eu sou casado com uma mulher que me chama de sol, mas que é ela em si, o sol que aquece minha vida. Mas ainda assim, em dias frio como os que teremos nesta semana (aparentemente uma "onda histórica de frio", nas palavras da BBC Brasil), eu olho para fora e penso, humildemente penso, naqueles dias e nas marcas que eles me deixaram; penso nas pessoas que moram nas ruas, e sofrem mais do que nunca em dias frios como esses, mas que também sofrem em dias quentes, porque São Paulo muita vezes parece se orgulhar de ser uma cidade que não se importa; e penso também em todas as pessoas que agora, em meio a uma pandemia e crise, ainda tem que carregar dentro de si seu próprio frio no coração, seja de uma forma ou de outra. Este frio tão forte, tão dolorido, que chamamos Solidão.

terça-feira, 30 de junho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Em algum lugar do futuro


Eu e Aline começamos a ver a segunda temporada de Dark. Já tinhamos visto a primeira a algum tempo atrás, acho que foi em meados de novembro, dezembro. Aí, seguimos para ver outra série, outra coisa assim. Não somos fominhas de "zerar" uma série de uma só vez, ainda mais algo complicado como Dark; antes, preferimos ver a temporada e digerir mentalmente a coisa toda, ver se lembramos o diabo do nome de tanta gente loira e branca tudo parecida, e depois ver como seguimos adiante.

Até aqui, a temporada tem sido boa, rendendo uns bons nós na cabeça, e olhadas entre eu e minha amada esposa, quando não entendemos lhufas de que época as coisas acontecem, aonde está acontecendo, quem está falando, etc. No mais, é mais simples que seguir a política brasileira atual. Na verdade, acho que ser brasileiro é uma vantagem enorme para ver a série: estamos acostumados a um emaranhado de pessoas fazendo bostas monstruosas ao longo dos tempos. Chamamos isso de História Nacional.

Mas eu vim aqui falar do que eu fui pensando ao ver Dark, e foi exatamente sobre tempo. Iria eu, caso fosse possível voltar ao começo deste ano, avisado a mim mesmo de alguma coisa, me ajudado a me preparar melhor? Com certeza eu teria avisado meus pais para não comprarem a passagem para me visitarem em Abril, viagem essa que, lógico, nao foi realizada e que não sei muito bem se houve reposição do dinheiro gasto pela companhia aérea para meus pobres pais. Talvez avisasse a mim mesmo para aproveitar e ir num parque o quanto antes com minha esposa; tínhamos, por aquelas alturas, acabado de voltar do Espírito Santo, numa viagem de família com minha sogra, cunhados e sobrinho, e eu estava muito empolgado para viajar mais e conhecer a natureza. Adiei um pouquinho demais, infelizmente. Por outro lado, sem dinheiro, tudo é adiado. Perguntem ao meu óculos velho.

Mas e seu eu pudesse voltar ainda mais, eu pensei, será que mudaria algo mais profundo na minha vida? É uma questão difícil. Nieztche mesmo, falando do Eterno Retorno, propunha a questão se, caso vivessemos a mesma vida infinitas vezes, se isso seria algo bom ou um castigo horrendo. Somos formados pelas nossas escolhas passadas: quem eu sou foi formado pelos meus erros, infortúnios e tragédias do passado, junto com as vitórias também, é claro. E a verdade é que, com todo meu sofrimento passado, eu não consigo me imaginar outra pessoa, o que implica em dizer que eu não consigo me imaginar mudando as coisas de antes. Mudar uma coisa aqui ou ali implicaria eu nunca conhecer, por exemplo, minha esposa, e isso já é um preço alto demais para mim.

Assim, fico com meu humilde eu de agora mesmo. Sou feliz com obstáculos tipicamente brasileiros - e o que mais eu poderia querer? A única mensagem que eu ia mandar para meu eu do passado seria: "Cara, pode me acreditar,tu vai ser putamente feliz!"

"Ah, e joga cinquentão no macaco do jogo do bicho, tu vai me agradecer"

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: O Desafino Ortográfico



Eu sou um homem injusto, admito. Muitas vezes disse, ou deixei a entender, que minha principal leitora era minha amada esposa, Aline Garcia; pois venho aqui em público me desmentir, e dizer que tenho como fiéis leitores, também meu pai e minha mãe (que inclusive comenta direto aqui no blog, OI MAMÃE).  Meu pai, caso o leitor não saiba, é um escritor nas terras nortistas distantes, um grande escritor, diga-se. E minha mãe é uma grande professor de português, e atual gastróloga em formação. Sortudo sou eu, que tenho a vantagem de experimentar suas receitas quando ela consegue vir aqui me visitar, em Sampa, essa terra cinza.

Pois foram justamente eles que me alertaram de uma coisa acontecendo nestas crônicas: tenho cometido erros por aqui. É bom que se diga, não foi algo dito em tom de crítica: antes, foi uma observação deles, leitores atentos que são, para o ritmo dos textos aqui.  Pois, poucos sabem, eu basicamente só vou escrevendo os textos e publicando. Existe pouca  ou nenhuma revisão nesses escritos, e de fato, se você olhar algumas crônicas para trás, verá alguns (ou muitos) erros de ortografia neles.

Isso ocorre porque escrevo com o calor da emoção, admito: nunca realmente me planejo para escrever aqui, e em geral a única coisa que eu tenho de antecipado é o tema da crônica. Esta, por exemplo, me surgiu na segunda feira, quando conversei via ligação whatsapp com meus pais. Antigamente, eu ainda fazia uma espécie de rascunho no meu caderno, mas com o tempo percebi que acabava perdendo a energia para publicar aqui. Isso é algo que ainda estou trabalhando; a concentração e a energia necessárias para produzir ficção.

Mas justamente por isso, eu acho que este blog tem sido um grande aprendizado, e eu tenho tomado mais cuidado aqui, para que o deleite de meus leitores mais fieis não seja afetado. Afinal, como bons brasileiros que somos, temos o ritmo no sangue, e quando ele quebra, o que nos resta, senão tropeçarmos no texto, e esperar a próxima música? Então, fica aqui o meu relato, e meu pedido para os prezados leitores, quando verem algum erro por aqui, me perdoarem: trata-se menos de um descuido de técnicas, e mais um afã de passar logo para o papel os sentimentos que afloram no peito.

E tennhdo ditpo!

sábado, 13 de junho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: love love love


Conheci a Aline em 2015. Nos vimos pela primeira vez em 2016, mas conhecer mesmo, foi em 2015. Pela internet. Que forma mais incerta de conhecer alguém existirá? Só pela internet mesmo.

Naquela época, eu estava desiludido com o amor. uma frase clichê, mas verdadeira: eu realmente não tinha nenhuma confiança de encontrar uma parceira para a vida, até porque eu tinha pouquíssima confiança em mim mesmo. Acho que o meu maior crítico sempre fui eu; seja por erros do passado, seja por não confiar em mim mesmo, eu nunca me entendi como uma pessoa fácil de conviver.... honestamente, acho que sou um verdadeiro chato.

Então a conheci, e acho que foi como se uma porta se abrisse. Talvez o leitor já tenha passado por isso: é menos a paixão arrebatadora dos filmes, e mais uma ideia de pertencimento. Sim, pois com ela, cada diz que íamos nos conhecendo, eu me sentia de novo á vontade no mundo. Eu, que havia desistido de ter conforto neste vale de lágrimas, encontrei-me parte dele novamente, e sorri como nunca tinha sorrido antes, e senti como nunca senti antes.

Ela me fez perceber que as coisas boas que eu sentia quando criança, ainda existiam; eu apenas havia enterrado-as fundo no coração (como acho que muitos fazem, infelizmente). Ela me deu olhos que eu não tinha, para os sentimentos do mundo; ela me deu vida aonde antes tudo estava morto. Não estou exagerando quando digo: ela me salvou de mim mesmo, de um caminho sombrio que eu estava seguindo.

Hoje, somos casados, desde 2018. E 4 anos e mais de 4 meses depois, ainda dançamos pela casa, e cantamos juntos, e brincamos nossas brincadeiras bestas. Sonhamos também, algo fundamental para qualquer casal: quando você sonha junto, você constrói junto, e acho que isso é algo forte para unir duas pessoas. E assim eu e ela seguimos juntos...

Te amo Neguinha. Obrigado por ser minha parceira contra esse mundo!

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Aquela que nasceu com a manhã

Art by Chloe Lynch


Ontem eu sonhei com a minha irmã. Ou talvez eu deva ser específico: sonhei com uma irmã que eu nunca tive. Pois quem me conhece sabe que tenho uma irmã; ela conta hoje com seus quase 25 anos em Julho, e está adulta e cuidando da vida dela.Mas essa pessoa, essa menina com quem sonhei, não era ela. Ao contrário, acho que ela nunca nem sequer teve a oportunidade de ser adulta.

Seu nome era Lucíola, como no livro de José de Alencar (talvez haja aí uma referência psicológica na minha mente? Que os psicólogos de plantão me digam!). E ela morreu, no meu sonho, aos 5, 6 anos de idade. Não chegou a entender a miséria de que é formada o mundo; não chegou, também, a poder sentir emoções bonitas que vem à medida que envelhecemos. Agora, no seguir do dia, não me recordo exatamente dos pormenores do sonho: afinal de contas, muita coisa acontece conosco ao longo de um dia, e estas exigem nossa faculdade mental, ainda mais quando se trata de um professor. Ficou porém, a sensação do vazio, do luto que sentia por ela.

No sonho, ela tinha vivido e brincado conosco. De alguma forma, ela conheceu a Aline também, pois em teoria ela teria vindo para nossas vidas agora, com meus pais mais velhos. e no sonho, ela havia morrido a 6 anos. e seguíamos a nossa vida, sempre com a dor no fundo do coração; pois a dor de um luto é a dor que nunca passa. Você só reconstrói da melhor maneira possível a sua vida, e segue em frente. Mas a dor em si nunca vai passar.

Acordei chorando. Lucíola fizera eu sentir algo que eu nunca senti antes, até agora: a tristeza de uma saudade sem chance de ser resolvida. Senti - ainda sinto- a dor por tudo que ela não pôde viver, tudo que ainda esperava essa criança de msues sonhos. E fiquei pensando nos pais que perderam seus fihlos ainda crianças, para este mundo terrível, que tudo devora. Tanta maldade e sofrimento aqui; quantas Lucíolas não partiram muito cedo desse mundo?

Ela também me ensinou a amar de uma forma que eu não me recordo de ter sentido antes. No sonho eu vi a foto dela, e eu sabia: eu daria tudo para dar vida novamente àquela menininha. Para vê-la dançar no quintal novamente; para poder brincar com ela nos parques e brinquedos que não existiram, que nunca existiram para ela, pois ela está somente aqui, em minha mente.

Um beijo, Lucíola. Fica em paz, te vejo em meus sonhos novamente.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Lost and Found



Sábado, eu tirei o dia para ajeitar os livros que estavam , e ainda estão, no meu escritório. Digo "meu", e falho bastante; pois aqui é o espaço de trabalho meu e de minha esposa. Não temos muitos equipamentos aqui, basicamente os computadores e uns ventiladores. Entretanto o que não temos em tecnologia, temos de sobra em livros; de sorte que resolvi me aprofundar na arrumaçao dos mesmos.

A ideia central era simples: eu ia retirar toodos os livros das suas respectivas prateleiras, e catalogar tudo com temas que me interessassem realmente. nada de "drama", "ação", etc. Eu queria assuntos mais agitados: "investigação" seria um. "Romances surreais", outro. Assim, quando eu me sentisse um pouco mais inclinado a explorar um determinado tema, eu iria diretamente na prateleira esotericamente organizada, e me deleitaria com a obra, e com o serviço bem feito em separar por mim mesmo as coisas.

Como todo plano que se põem muitas expectativa,s este falhou miseravelmente: pra começo de conversa, eu subestimei a quantidade de livros que eu tenho, de sorte que pôr os livros das prateleiras para o chão do escritório em breve tornou-se tomar o escritório inteiro de livros jnogados ao chão, sem lei ou razão. desta vez, a poeria não me afetou tanto; estava devidamente protegido com a máscara nossa de todo dia (graças ao Covid). Mas a situação era dantesca: mal se podia andar pelo cômodo, e as horas avançavam implacáveis: o que começou a ser feito às 10 horas da manhã, logo levou-me às 14, 16, 18 horas, sem um avanço significativo...

....exceto algo mágico, que eu creio que aconteça com todos vocês. Pois, ao revirar tudo, eu reecontrei livros antigos que eu não mexia a muito tempo - o que quer dize,r que encontrei um pedaço de mim que eu não via a muito tempo. Pois para mim (e , creio, para muitos outros), livros são uma janela da nossa alma. Eu não me lembro de um momento que um livro não estivesse me dando alegria, e nem me lembro de um momento que ganhar um livro não fosse, para mim, o presente ideal.

E eu vi esses velhos amigos, enão pude deixar de relê-los aos poucos. Não tudo, claro - eu tamb´me não sou tão louco assim - mas um pedacinho aqui, e outro ali.... e cada releitura era uma memória, ou uma sensação reencontrada. E amigos, que presente para a alma isso foi. Que refresco, que bálsamo. Cada Raymond Chanlder que eu via ao chão e relia, cada Cormac Mccarhty, cada Garcia_roza... era eu ali. Era um eu que amava aqueles livros, e comprou-os, e viveu com eles em ônibus, sofás, ou mesmo salas de aula, entre um aluno e outro. Túneis do tempo.

Sim, eu amei rever meus livros. Minha esposa também amou que eu me sentisse muito melhor de posi de tudo, mas posso apostar que ela amou muito mais ver o escritório finalmente arrumado. Porque o amor aos livros, ah, esse é o mais bagunceiro de todos!



quinta-feira, 28 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Un jour, je serais de retour prés de tois



Um dia, eu voltarei ao seu lado.

Não falo de uma pessoa em específico. Ou talvez esteja falando, sim; de um grupo de pessoas, essas mesmas, que você pensou, quando leu essa frase acima. Já deixamos muitas pessoas na beira da estrada da nossa vida, não? E algumas, faz muito tempo já. Não me refiro aqui, às pessoas que infelizmente tiveram de ir por força maior: e nesses dias cinzas, elas tem sido tantas! Falo das pessoas que abandonamos mesmo, seja porque achamos não ter escolha, seja porque tinhamos total liberdade e escolha, e decidimos por não seguir adiante ao lado daquele determinado indivíduo.

Isso é, infelizmente, muito normal, não? Seguimos em frente em busca de algo, uma evolução talvez, ou mesmo uma forma de entender melhor o mundo; e nem sequer nos percebemos dos que deixamos para trás. Um amigo de infância, talvez; às vezes, um colega de escola que foi particularmente importante para sua vida. Talvez mesmo um parente: quem não teve um primo ou tio/tia que lhe incentivou a seguir um determinado caminho (ou a explorar um hobbie específico), e com quem não mais conversamos, porque a vida nos levou para um outro lado.

E isso é algo que a sociedade tende a normatizar. É  evidente, dizem as vozes das ruas, que você vai conhecer uma série de pessoas, e que depois você vai sumir da vida delas. Faz parte do processo de crescimento. Você aprendeu o que tinha que aprender com elas, e depois seguiu seu rumo, a pessoa também, e assim é a vida. esses são os dados lançados para estes tipos de relações. Muito fácil, nos dias de hoje, coisificar as amizades, enjaular uma conversa sem pretensões maiores entre dois indivíduos, em uma relação de trocas, de perdas e ganhos. É o que nos manda o Capitalismo: o que importa é você, não o outro. Sugue o que tem sugar, depois siga em frente.

E com isso, cometemos o crime maior de uima alma, que é perder a ternura. Sim, pois quando se perde esse calor interior, as maiores barbaridades são perdoadas, em prol de um ganho que pode ou não ser físico, e que nos fim das contas não serve de nada, pois de que vale ganhar o mundo e perder a alma? Por isso, eu afirmo, contra a corrente, contra o que nos dizem as vozes das ruas: Não esqueçam dos seus amigos. Não esqueçam dos que lhes aquecem o coração. Deste texto, eu lhes grito amigos: Um dia estaremos juntos novamente, e riremos, e choraremos, e não esqueceremos. Nunca esqueceremos. 



quinta-feira, 14 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: I am the Cheese



Então, hoje eu fui buscar um queijo no portão do condomínio. Nada muito peculiar: por causa dos mercados operando com baixa rotatividade de produtos (afinal, a pandemia não é exatamente um grande impulsionador de negócios). Então, alguns  vendedores entram em contato com os síndicos de condomínios, na esperança de vender produtos para os moradores. Muitos conseguem: tenho visto anúncios de horti-fruti, máscaras e até mesmo produtos de limpeza, tudo vendido perto da área de carga e descarga.

Digo vendido, mas na verdade é mais entregue - o carro do vendedor entra no condomínio, abre seu porta-malas, e apressadamente vai entregando e recebendo o pagamento de seu produto das mãos igualmene apressadas dos condôminos. Não tínhamos comprado nada assim anteriormente, somente visto os avisos dados pela síndica; mas dessa vez, sentimos a vontade de comprar um bom queijo, e aventuramos encomendar e ir buscar no dia estipulado.

Eis que chegou o dia de buscar o queijo. Como de costume, me preparei para a saída: camisa, calça jeans, sapatos, máscara na cara. Me despedi de minha esposa com um beijo de olhares, e desci pelo elevador. Quando chego no portão encontro o que não queria: uma fila. Aparentemente, o vendedor se atrapalhou um pouco, e foi necessário organizar os clientes nessa fila.

Foi quando

a ansiedade

bateu

então comecei a contar de um a 10, mas eu estava nervosos, então eu basicamente contava até 3, e acrescentava mil, porque se você contar com mil é mais ou menos o tempo de um segundo e lá estava eu 1 mil 2 mil 3 mil, e entre cada um de nós havia espaço de mais de 3 braços, e nem eramos tantos assim mas tudo o que eu pensava era, estou aqui embaixo e queria estar lá em cima, e se ess apessoa ali da frente tem covid, como eu fico? O que eu faço? meu Deus por que tanta demora, 1 mil 2 mil 3 mil, e bem nessa hora entraram várias pessoas pelo portão dos pedestres, e passaram próximo a mim, e meu Deus e se essas pessoas tem Covid? 1 mil 2 mil 3 mil, e então andaram mais duas pessoas e a fila anodu, e lá na frente um senhor de idade tirou a máscara que usava pra provar um pedaço de queijo, que droga é essa, melhor nem usar então né amigo? 1 mil 2 mil 3 mil, finalmente chegou minha vez e o vendedor se desculpou mas não tinha trazido o pão de queijo e o salame que eu tinha encomendado, pode ser lombo? eu falei sim, por favor, me dê logo, e ele, se quiser eu trago o pão de queijo na sexta feira, e eu disse, não por favor, só me dê um biscoito doce, porque minha esposa adora doces, e me peguei pensando e se eu ficar doente aqui? E se ela ficar sozinha em casa? lembrei de tantos casais separados, e nesse momento o pensamento foi, DEUS NÂO QUERO MORRER POR CAUSA DE UM QUEIJO! Finalmente, peguei o queijo provolone, o lombo e o biscoito de goiabada que eu comprei, e zarpei para casa

Diminuindo

por fim

meu ritmo.

Cheguei em casa exausto, como se tivesse corrido uma maratona. entrei em casa, me despi tal qual tivese vindo de um lugar radiotivo, enquanto minha esposa apreensiva perguntava:

- Está tudo bem?

- Mais ou menos, só preciso tirar essa roupa e ir tomar banho.

Foi o que fiz, e ligando o chuveiro quente, lavei o corpo da adrenalina e me senti boiando, feliz, na segurança do lar.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: A comentarista ao lado



Esses dias, você vai mexendo na TV e fatalmente não tem mais nada passando, ou pelo menos nada que você queira realmente assistir. Reprise de novela? Passo. Série sobre as pandemis na história? Interessante, mas estou buscando me desligar um pouco, não me informar sobre as desgraças. E que tal o telejornal? Misericórdia, agora não!

Assim foi neste Domingo passado: plena 21:30 da noite e lá estávamos nós, eu e minha querida esposa Aline, jogados no sofá em completa derrota, zapeando pela Tv em busca de algo que pudesse nos distrair um pouco antes de dormir. Isso aliás, é algo que eu recomendo muito: nunca vá deitar com a cabeça pensando em problemas do mundo, ainda mais nos dias pandêmicos que vivemos. Buscar uma besteira pra aliviar a mente é algo essencial para sua sobrevivência psicológica.

Pois assim estávamos, quando de repente me vi parado num canal que passava a lendária partida Corinthians X Santos de 1974, o último clássico que Pelé jogou, onde o Santos perdeu de 1 a 0, gol de Rivelino. Surpresos com meu conhecimento a respeito? Pois aprendi tudo ontem mesmo: os comentaristas do programa (chamado, a saber, Mesa Redonda, na Gazeta) fizeram o favor de me informar diversas vezes a respeito. Por que parei ali naquele canal, não sei dizer, até porque eu nunca fui um fissurado em futebol. Ao contrário, eu costumo evitar partidas de futebol na TV, elas me causam um tédio sem fim.

O que teria feito eu parar naquele canal, e assistir os melhores momentos daquela partida específica? Talvez a magia do futebol-arte de Pelé e Rivelino se degladiando ali, naquelas imagens de colorido derretido dos anos 70?  Não sei se um dia saberei, talvez seja um dos grandes mistérios que carregarei pelos tempos, ou pelo menos até a próxima coisa que tomará minha mente. O que sei é que em dado momento, houve um impedimento na partida e eu comentei, do alto da minha ignorância, o que eu achava que tinha acontecido ali (completamente equivocado, diga-se). Foi quando ouvi a voz ao meu lado dizer:

- Não foi nada disso. Impedimento é quando o jogador chuta a bola pro outro jogador no campo de ataque, e naquele momento não tem um jogador do time oposto na mesma linha.

- O que?

- É isso que é impedimento, uai - ela disse, e concentrou de novo no jogo.

Fiquei, confesso estupefato: não esperava que Aline soubesse tanto assim de futebol! Perguntei como ela soube disso, e aí fiquei sabendo que por assistir tantos jogos com meu cunhado, ela acabou pegando algumas regras de cabeça; "pouca coisa", ela disse, meio envergonhada; e eu com aquele misto de surpresa e orgulho característicos de quando aprendemos algo bom que nem imaginávamos sobre quem amamos

Continuamos assistindo, e pasmem, nos divertindo muito, quando de repente alguém solta um passe terrivelmente mambebe, e Aline diz:

- Que passe medíocre!

Aí meu amigos, vieram os risos, e a felicidade de dividir aquele momento com minha esposa. Os sorrisos não eram de zombaria; antes, eram de admiração por ela, pelas profundiades que ela tem em si, as quais eu quase nada explorei ainda. Meu riso era o dos sortudos, dos abençoados, pois eu tenho tanto tempo ainda para aprender sobre ela, e saber o que mais ela pode comentar, e risos a darmos com jogos de futebol antigos, e vídeos aleatórios, e séries velhas e novas.....  tudo isso aqui, em minha esposa: eis a maior aventura que eu já tive o prazer de viver, que continuo vivendo, e que viverei muitos anos mais.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Nostos

Fonte: https://rafaelneko.tumblr.com/post/55140600217/sekai-ninja-sen-jiraiya-fanart

Não sei se vocês sabem, mas a rede Bandeirantes, no alto de sua sabedoria ou talvez apenas buscando cobrir um horário um pouco vazio nesses dias pandêmicos e cinzas, resolveu voltar a exibir  Jaspion, Jiraya e Changeman, nomes que eu tenho certeza que alguns leitores deste blog abandonado só ouviram falar ao longe, por alto, talvez quando um irmão mais velho (ou mesmo um pai, vai saber) citava saudoso os programas que gostava de ver quando jovem.

Eu entendo, é claro: o tempo, dizia Cazuza, não pára, e os programas que muitos tem como queridos de suas infâncias são muitas vezes radicalmente diferentes do que fãs de tokusatu (O nome dessas séries cheia de japoneses fantasiados pulando de um lado pro outro, para quem não sabe). Veja você, a minha esposa tem um conhecimento enciclopédico dos desenhos e programas infantis da TV Cultura durante todos os anos 90, às vezes lembrando com carinho coisas que eu nem sequer me lembro de que existiam - e ela só tem dois anos a menos que eu! Se duas pessoas da mesma geração conseguem ter uma diferença tão grande de nostalgia com programs infantis, imagino que esse abismo seja ainda maior entre gerações bem diferentes. 

Ainda assim, creio que todos vão entender o que é sentar em frente à TV e voltar no tempo. Sim, prezados e prezadas, porque é isso que aconteceu hoje quando finalmente revi essas séries, sentado na cama, tomando café com a minha esposa ao lado. Minto, talvez tenha sido melhor que antes: agora eu tinha uma companhia com quem comentar, sorrir e brincar a respeito da tosquice rolando aberta nas séries, o que tornou tudo ainda mais especial. Cabelos mullet,(d)efeitos especiais, monstros de borracha... Eram séries infantis, claro.Mais que realismo, eu creio que a buscar era mostrar um pouco de aventura e fantasia para as crianças japonesas, com as brasileiras por tabela   

Talvez por isso elas sejam até hoje tão charmosas. O ar é meio de fábula: há sempre uma história que termina dentro do próprio episódio, e apresenta uma moral ao fim. O herói sempre vence - mas nem sempre sua vitória é necessariamente doce, ou todos necessaiamente terminam felizes. Mais do que esconder as coisas ruins de sua audiência , Jiraya, Jaspion e outros mostram-nas de uma forma que ele possa entender, e eu acho que isso é a maior forma de respeito possível com um público infanto-juvenil. 

É esse tom que me faz sentar ainda hoje e assistir, é claro; mas confesso que uma grande parte de mim também assiste, porque quer reviver por uns poucos momentos, as glórias de ser uma criança e não ter que me preocupar com tantas mortes, tanto medo e terror. Por breves 20, 40 minutos, sou novamente um pequeno nerd olhando atento para a tela, acreditando nos heróis que ali estavam, e aprendendo como é que se poderia, afinal, construir um mundo mais forte, justo,  e amável.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: The future belongs to the children


Tem sido difícil ver pontos positivos esses dias, esse ano de 2020 particularmente. Conversei esses dias com uma aluna de inglês que pretendo tatuar algo no braço, após toda essa morte e desespero que assolam nossas ruas e vidas, alguma coisa dizendo "2020: eu sobrevivi". Ou algo igualmente cafona. Acho que ganhamos o direito de ser cafona após sobreviver a uma pandemia, não? Com tanto pesar ao nosso redor, a cafonice é um sinal de sobrevivência, creio.

E apesar de tudo isso, também é 2020  um ano de nascimentos, de renovações de certa forma. Em fevereiro, nasceu o filho de uma amiga nossa aqui de casa. Seu nome é Martín, um portuguesinho branquelo fofo e lindo como nunca tinha visto, os olhos azuis curiosos que tudo fitam ao seu redor. Dia nove de Abril, meu sobrinho Bernardo completou um ano, e tem sido uma felicidade vê-lo crescer, mesmo que de longe. Ele gosta de ajudar a mãe a cozinhar coisinhas gostosas . Esses dias, acreditem ou não, ele ajudou a fazer um cupcake de laranja! Para este tio bajulador, que também ama coisas de cozinha, esta foi provavelmente a coisa mais emocionante que eu vi ele fazer, e não puder deixar de derramar a proverbial lágrima de orgulho.

E agora, vejam vocês, nasce meu outro sobrinho, Lee Hesse, em terras canadenses, tão distante de nós mas tão próximo de nosso coração. O rosto dele é de uma mistura poética entre a mãe, luana Hesse, e o pai, Freddie Hesse, meu irmão que partiu do Brasil em busca de sonhos e realizações (o que o torna, mutos diriam, o irmão mais sábio de nós). Acompanhei nervoso o desenvolver do nascimento dele neste dia de hoje; somente o santo dos professores deve saber como consegui dar uma manhã toda de aulas sem sequer pestanejar em momento algum. E quando ele nasceu, e vimos (eu e Aline aqui em casa e meus pais lá em Belém do Pará) a face do novo Hesse Garcia neste mundo sofrido de meu Deus, confesso que a emoção bateu forte.

Essas crianças, esses serezinhos humanso, são o futuro que esta nascendo. Não posso dizer que eles trazem, consigo, a promessa de dias melhores; seria uma cobrança absruda em cima de bebês que nada podem fazer, exceto conquistar nossos corações. No entanto.... eles são provas da existência de um futuro. Muitos podem dizer que eles são condenados a viver nesse mundo absurdo: eu digo que eles devem nos servir de inspiração sólida, viva, para a construção de um mundo melhor, das cinzas deste velho e patético mundo que permite homens como Bolsonaro e seus capachos viverem e troçarem do sofrimento alheio.

Em um mundo onde a morte impera, esses bebês desafiam-nos a crer na vida. Não podemos falhar com eles: há ainda milhas a seguir antes de dormimos. Que possamos arrumar a casa  e perrmitir que eles possam conseguis sonhar também, e não apenas sobreviver. Que sejam eles as pessoas que nos trarão esperança no outro, no vizinho ao lado.

Seja bem vindo, Lee Hesse. Titio te ama, sempre te amou, e sempre vai te amar.


PARA OUVIR: The future belongs to the children

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Olha pro céu, meu amor




Hoje, o céu estava na maioria dos stories do Whatsapp, e fotos no Facebook, ou no Instagram ou o que seja. Não se pode dizer que foi uma ação em massa, a não ser que  tenha sido organizada pelo próprio planeta Terra - o que não seria algo tão difícil de se crer, na verdade. Coisas mais estranhas tem acontecido neste ano de 2020.

Se perguntassem aos espectadores o que tinha de tão peculiar naquele céu, alguns diriam: são os tons de roxo. Outros afirmariam: são os vermelhos resplandecentes. A verdade é que cada um pode ter olhado em um momento específico e, como os cegos com o elefante, tomado uma parte do fenômeno como o todo. Perdoável, se considerarmos o contexto. Acho que a maioria das pessoas simplesmente estava buscando uma notícia boa, qualquer notícia, e depararam-se com o céu, e tal qual nossos antepassados, viram nele um reflexo de um futuro promissor.


E é como eu disse: nós todos, quarentenados e os que não podem ficar em casa, temos fome de notícias boas tal qual um esfomeado que não come há dias. Talvez isso explique o porquê das pessoas quererem acreditar em remédios milagrosos (mas mortais se tomados indevidamente), ou mesmo teimem em tentar crer no Corona só como uma gripezinha. Quero crer, preciso crer, que a maioria dessas pessoas estão tomadas menos pela idiotice e mais pelo desespero ou desinformação.

Então, quando a natureza oferece um espetáculo desse, tão distante das mentiras e falsidades que temos vivido, onde mortos são zombados em plena avenida paulista, e seus detratores não sofrem qualquer punição; onde médicos são agredidos e estigmatizados por cumprirem seu dever; onde o mero ato de sair pra comprar comida nos deixa tensos; quando surgre algo verdadeiro e belo aos nossos olgos, é tempo de celebrar. Que importa que tenha sido , como falou a Vejinha,  um provável efeito da poluição na cidade? Olha para cima agora, amor, vê como o ceú está lindo. Sonha com os dias de antes, e sente eles no seu coração.


PARA OUVIR: Blue Skies




terça-feira, 14 de abril de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Canções e canções


Se você deixar, o isolamento pode te levar à destruição mental. Na verdade, até se você não deixar, ele pode fazer isso - ninguém consegue realmente controlar o quanto um isolamento pode influenciar você. O que fazer portanto? A ordem é controle de danos.

Uma das formas que eu mais consigo fazer isso é com música. E muito há que se dizer ainda das músicas relaxantes como panaceais para acalmar uma mente confusa e agitada. Minha esposa e eu somos grandes fãs desse tipo de música: recentemente pusemos aqui uma canção da Enya e a paz que reinou na sala de estar só foi quebrada pela luta incessante dos nossos dois gatos a pular um sobre o outro. Mas por gloriosos 15 segundos, houve paz naquele recinto.

Outro tipo de música que ouvimos muito juntos aqui é o pop anos 80, que inclusive é um outro que merece um estudo a parte. Há algo de fascinante naquelas músicas tão melosas e chicletentas existirem num momento, numa década, que as coisas pareciam solenemente estar indo para um fim, seja este nuclear ou econômico. Somente uma época assim (antes da nossa atual, claro) poderia fazer canções de amor falando sobre fim do mundo e explosões atômicas com tamanha maestria e canastrice...

Contudo, confesso que nem a World Music, nem o pop 80's são os que mais me levam para um estado de calma mental. O estilo escolhido para esses momentos é nada menos que o BREGA , com todo seu bole-reboles, seus Frutos Sensuais, seus Nelsinhos Rodrigues e Wanderleis Andrades. Quanto a isso, tenho uma explicação: por experiência própria, e por conversar com meus amigos desterrados aqui pelo eixo Sul-Sudeste, tomamos o brega como nossa canção de exílio, não importando qual  letra que seja. Basta apenas os primeiros acordes de um teclado enlouquecido ou um baixo romântico, e voltamos aos momentos na terrinha, bons ou ruins, mas nossos.

Talvez seja esse o segredo do brega comigo, o porquê de eu cantar a plenos pulmões pérolas como "Eu Voltarei", "Gringo Lindo", ou "Ao pôr do Sol". Quando canto, e danço desajeitado pela sala (para espanto e deleite de minha amada esposa), estou na verdade viajando, na memória, para os cantos onde mais me senti seguro. Longe das incertezas e dores do agora. Acho que posso ser perdoado, dado o momento atual, por um certo romantizar do passado.

Qual a sua forma de fuga disso tudo ao nosso redor?


PARA OUVIR: Desejos, de Banda Sayonara

PARA OUVIR 2: Ao Pôr do Sol, de Teddy Max

PARA OUVIR 3: Conquista, de Wanderlei Andrade


quarta-feira, 8 de abril de 2020

Crônicas da cidade pandêmica: I got you, babe

(Fonte: Getty images)
Acredito que não seja segredo para ninguém que ficar trancado em casa sem possibilidades de sair, seja uma tarefa mais difícil do que parece. Para começar, a própria probição de sair parece dar no indivíduo a vontade ainda maior de descumprir a quarentena, já que o ser humano é antes de tudo um rebelde, pelo que parece. Talvez seja isso que acomete tantos idosos que vejo andando nas ruas ainda: a certeza de que já viveram o suficiente para poderem fazer de si o que bem entenderem. É um erro que pode ser fatal, como muitos exemplos tristes tem demonstrado, mas ainda assim é algo humano, demasiadamente humano.

Resta aos que seguem rigorosamente o isolamento buscar atividades para fazer em casa, depois de cumprida a jornada home office do dia. Antes haveria uma caminhada no parque mais próximo de sua casa, ou quem sabe uma caminhada rápida para lanchar no fast-food  mais próximo, a junção máxima de exercício e recompensa errada. Isso tudo foi trocado, pelos próximos dias (meses?), pelo delivery acanhado tentando evitar a máximo o contato físico, e pela corrida rápida dentro da própria sala, de um lado pro outro - ou talvez uma volta rápida ao redor do prédio onde se mora, se tiver sorte.

Aqui em casa, as coisas tem sido um pouco mais tranquilas, quanto mais não seja porque somos um casal um tanto caseiro. De fato, a maior parte das atividade que fazíamos antes continuam as mesmas, embora algumas tenham aumentado em intensidade. Por exemplo, a completa perplexidade na idiotice do presidente no poder, um hobby nacional desde pelo menos 2019, aumentou em pelo menos 50% em força, e agora é acrescido da saudável expurgação desta raiva através de xingamentos gritados da varanda do apartamento. Apesar do que possa parecer, é uma atividade bem calorosa, com participação ativa da vizinhança. Provavelmente foi a primeira vez que eu interagi com a nossa vizinhança de uma maneira  mais lúdica e ativa.

Outras atividades menos comunitárias tem seguido também seu curso: séries, filmes, conversas ao anoitecer, músicas. Mas principalmente, e essa talvez seja a melhor de nossas ações juntos, continua também aquele momento que, sem dizer nada, seguimos para alguma janela e olhamos o céu em silêncio, e sentimos o vento (às vezes frio, às vezes cálido) da cidade. Não sei dizer exatamente o que ela pensa: as divagações de um indivíduo são um conforto privado que não devem ser esmiuçado à toa. Mas sei que também eu tenho cá os meus pensamentos, e naquele momento  isso nos basta. E sonhamos e olhamos juntos para o horizonte, longe de tudo que nos aflige, voando tranquilos com o vento que nos afaga o corpo.

PARA OUVIR: I got you Babe

PARA LER: Sopra o Vento, Sopra o vento

terça-feira, 7 de abril de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Heaven in a Wild Flower


Em tempos incertos, o mais ideal seria buscar em si uma certeza, uma plataforma para tentar sobreviver. Mas e quando mesmo o seu lugar interno é carregado de incertezas? Aí vem a grande busca, o conhecer-se a si mesmo. 

Confesso que este é um tema um tanto espinhoso para mim; sofro de incertezas até do que deveria ser fato consumado em minha vida. Nunca acreditei na durabilidade de coisas boas, fossem elas aprazíveis ao corpo, mente ou espírito. Na verdade, por anos eu nem sequer acreditava na existência em si de emoções lindas que muitos tomam como parte integrante da existência.... foi preciso conhecer ELA, a mulher a quem tenho o priviléigo de chamar de esposa, para que eu pudesse cogitar que merecia ser feliz. Mas isso é assunto para outro momento. 

Por anos, a ideia de um mundo frio e incolor era para mim a realidade, até um dia eu enxergar as cores e a vida ao meu redor, um daltônico emocional de repente curado. É justamente nesse momento do ápice das descobertas, o mundo surge para se reafirmar gélido e implacável, com a Covid-19 funcionando como o argumento final desta visão. 

Mas não é possível que deixemos este vírus destruir nossos corpos e espíritos ao mesmo tempo, que esses momentos atrozes sejam a nossa regra e não a exceção monstruosa. Não podemos nos deixar demolir tanto pelo corona quanto pela absoluta soberba e ineficácia do atual presidente do Brasil, um homem que é em si uma doença sobre duas pernas, ameaçando diariamente nossa salubridade mental. É preciso resistir, é necessário crer num momento melhor, além deste tão terrível que estamos vivendo, e outros piores que ainda virão. Um dia, além da fumaça da História em curso, poderemos todos descansar e olhar atentamente as cores ao nosso redor, sem medo, sem raiva, em paz. 

Afinal, como disse um certo sábio inglês a mais de 30 anos atrás: O inferno é algo que carregamos conosco, e não um lugar para onde se vai. Larguemos portanto este inferno que nos pesa as costas e embrulha o estômago, e criemos em nós mesmos um paraíso. Faça-se a luz.


PARA OUVIRPanoramic