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terça-feira, 19 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: ...but the future refused to change.

Sadness, de Daniel Castonguay

Uma coisa que pouca gente fala é da esperança errada das pessoas. É um tema espinhoso, é claro: ninguém quer ouvir falar que suas esperanças de uma vida normal, pós-pandemia, estão erradas, que o mundo de antes acabou. Ou talvez seja difícil, para muitos, tentar entender um mundo que as pessoas ainda são fundamentalmente as mesmas , depois de tanta tragédia, tanta dor.

Essas pessoas são boas, porque acreditam na humanidade,  e no aprendizado por erros. Não uma crença inválida, por certo. As tragédias realmente tendem a mudar uma pessoa, fazê-la buscar entender coisas que talvez tenha relegado ao esquecimento em algum momento da vida. Mas quem disse que a mudança tem que ser positiva? E quem disse que é realmente uma mudança?

Neste momento, existem muitas pessoas que estão se descobrindo, para o bem ou para o mal. E não acredito que o número de mudanças positivas é realmente tão grande quanto esperamos. Na verdade, acho que estamos vendo, nas ruas e na internet, a verdadeira face de tantas, tantas pessoas... e essa revelação não vai se enterrar novamente. A caixa de Pandora se abriu; ou talvez tenha se aberto a muito tempo atrás, em 2018, nas eleições. Talvez até antes. O fato é que, essas revelações ruins são muitas. Existem muitas pessoas que se comprazem do sofrimento de outros, celebram a dor. Usam essa dor para justificar seus atos terríveis.

Também existem as pessoas que se revelam, na escuridão, como fundamentalmente boas. Essas são poucas. Não, não adianta puxar pela memória a quantidade de  pessoas boas que você lembrou agora. Só pare e pense: o mundo seria assim se a maioria das pessoas fossem boas? Pense e observe. Da observação vem a iluminação; mesmo que para coisas atrozes como estas.

A única coisa a se fazer, ao invés de esperar que as pessoas magicamente tornem-se melhores, é trabalhar do nosso lado para tentar pôr uma semente de bondade nessa terra cada vez mais infértil. Um trabalhao hérculeo, e na verdade não sei dizer se vale a pena, se considerarmos as chances de sucesso. No entanto, é preciso realizá-lo. Se não o fizermos, quem fará?


domingo, 17 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: O sabor da vida



Um dos meus hobbies favoritos nesta vida é cozinhar. Não é algo que tenha vindo desde sempre; confesso que. no começo eu era muito mais um gourmet que um projeto de chef. O costume de cozinhar veio com a necessidade: me mudei de Belém para São Paulo em 2015 e um pouco antes, já sabendo que iria precisar me virar, resolvi aventurar na cozinha um pouco. Cozinhei coisas básicas para meus pais e irmãos, e depois somente para mim, e pro fim deleito minha esposa com refeições vegetarianas que estou sempre aprendendo aqui ou ali.

Sim, posso dizer que namorar e casar com Aline foram grandes responsáveis pelo meu desenvolvimento culinário. Uma das piores coisas que se pode ter, quando estamos em um relacionamento com um vegetariano, é a absoluta sensação de isolamento deles em restaurantes regulares, como se eles não merecesse serviço tal qual os clientes "carnívoros". Mais de uma vez me exasperei em ir a um lugar e ver que a opção para minha companheira era, quando muito, uma salada e um ovo frito.

Foi então que comecei a aventura de aprender a cozinhar melhor. E que aventura tem sido! Livros, vídeos, sugestões... tudo é uma forma de aprimorar as habilidades. A pobreza também, se quer saber. Nada como não ter o ingrediente extao de uma determinada receita, para poder descobrir novos sabores e novas combinações acessíveis a um bolso mais magro que suas ambições.E assim fui cozinhandoi vários pratos e versões vegetarianas de pratos famosos para minha amada esposa... que ou adorou todos, ou me ama tanto que o sentimento acaba temperando os pratos. Mas acho que é mais a primeira opção; temos muitas memórias e momentos bonitos ao redor de cozinhar e comer juntos.

Nesta pandemia então, cozinhar tem sido um salvador da pátria, por mais de um motivo. Primeiro, é claro que as saídas para restaurantes cessaram por completo (não que fossem frequentes antes, lembre-se do bolso magro). A chiqueza da comida, portanto, vem do que conseguimos cozinhar ali: um strogonoff requintado, uma pizza caseira da boa, doces e mais doces... tudo tomando o cuidado de não tornar as coisas MUITO gordas. São tempos de quase sempre ficar parado em casa, afinal.

O segundo motivo, e creio que o mais forte para meu amor pela cozinha, são as lembranças. Como disse ali em cima, tenho muitas memórias boas de culinária com minha esposa, mas o pensamento voa longe, muitas vezes, quando consigo repetir um tempero que não provava desde a infância... ou quando relaizo um prato que está igual ao que eu comia em almoços no passado, com meus irmãos e meus pais, enquanto pensava nas provas de escola regular... Dizem que a música é a forma mais pura de arte: gostaria de usar aqui a culinária como um exemplo maior ou igual, pois ambas usam nossos sentidos mais primários, para causar emoção e acalantar um coração torturado pela dura realidade. 

sábado, 16 de maio de 2020

Visões do Futuro: Lázaro (2)





A seguir, uma visão do futuro pós-pandemia. Não é otimista. Estudar a natureza huamna através da História tornou o otimismo em mudanças tão essenciais, algo fantasioso demais para este humilde professor e escriba.
Quem quiser ver a parte 1 desta história, favor ler "Lázaro", nos arquivos deste blog. 


Ontem reabriram a capelinha aqui do cemitério São Judas. Eu já esperava isso, depois que toda a pandemia, passasse mas na verdade achava que iam fazer isso muito antes do que aconteceu. No fim, foram mais de três meses até poderem reabrir tudo, e mesmo assim as pessoas não frequentam mais ali como faziam antes. Acho que os enterros rápidos acabaram meio que virando rotina entre todo mundo. Espero que não por muito tempo, me sinto mal com isso. Parece um desrespeito desnecessário com o corpo agora. Por outro lado, quem sou eu pra dizer alguma coisa?

A maior demora foi conseguirem a chave da capelinha. Ela tinha ficado, por algum motivo, com o Tobias, mas ele morreu logo pelo pico da doença em meados de Junho, Julho. Tinha levado a chave para casa, e aí depois da morte dele alguém mandou todas as coisas que ele tinha numa caixa, de volta para Recife, com a família dele. Tiveram que entrar em contato, a porta da capelinha era muito antiga, difícil mandar fazer uma cópia a essa alturas das coisas. Alguém sugeriu arrombar e depois consertar a porta: e cadê a coragem pra isso? Mesmo em tempos que nem esses, ainda se tem temor a Deus na terra. Na verdade, acho que até mais do que antes, se duvidar.
Tobias foi o primeiro, mas perdi muitos colegas de profissão nos dias cinzentos da pandemia. Foram bem uns 3; 4, se contar o Mateus, que se demitiu agoniado, com medo de ser o próximo a falecer. 

Saiu dizendo que o cemitério era amaldiçoado, que todo mundo que tava ali ia partir em breve. Eu não culpo ele; naqueles dias, as coisas estavam parecendo todas carregadas de maldição mesmo. Até eu fiquei doente, uma pessoa que não se lembrava da última vez que tinha gripado. Pensei que não ia conseguir sair daquela; estava fraco demais para qualquer coisa, 7 dias acamado, delirando em febre. Minha esposa deixava a comida na porta do quarto e chorava da sala, baixinho, mas eu ouvia. No alto da noite, eu vi o rosto de minha mãe no escuro; senti a rpesença de meu pai; ouvi a voz de meu filho, que foi embora daqui ainda pequenino, sem conhecer direito esse vale de lágrimas.
No fim, não foi dessa vez. E voltei para o trabalho algum tempo depois, até hoje com o peito um pouco pior, como se faltasse um pedaço do meu fôlego nas lidas do dia. Quando eu voltei, as coisas ainda estavam brabas, mais ou menos 50 enterros por dia. Mas estavam melhores que quando tive a folga forçada, quando estávamos fazendo 75 enterros por dia. Normalmente eram 20, 30 no máximo. 

Difícil dizer que eram bons tempos : morte nunca é bom (nem é ruim: simplesmente é). Mas com certeza eram momentos menos pesados, em todos os aspectos.
Agora, quando saímos, a máscara é item obrigatório. A doença ainda não sumiu, ainda está por aí, em algum lugar. Pelo menos é assim que está a nossa cabeça; todos nos olhamos com medo ainda, as mortes ainda frescas em nossa mente. Muitas propagandas dizendo que o pior já passou, que o mundo normal está de volta, mas aonde? Não vejo em lugar nenhum. Muito menos nos ônibus, onde cada tossida é encarada com medo e raiva.

Chego no cemitério e os enterros são rápidos, ainda. Mais que as vidas, a doença matou o coração das pessoas, e botou medo no lugar. Eles vem, olham rapido, pedem pra gente enterrar logo, o quanto antes melhor. Não todos, mas um bom número, que me faz pensar, lembrar que eu via algumas pessoas no ônibus, quando eu voltava do trabalho naquelas dias doentes, dizendo que agora o mundo ia ficar mais gentil, mais humano. Sinto vontade de rir, mas não consigo. Acho que em parte, eles estão certos mesmo: o que que tem de mais humano que esse medo assim, além da razão, além do amor?

Quando isso acontece, restou para nós tentar dar um respeito pros corpos. Então enterramos logo, e paramos um pouco depois do serviço concluído. E ninguém sabe nem nós contaremos nunca, mas eu sei que estamos tentando pensar em uma coisa boa, no coração. Não palavras, só uma imagem às vezes, ou um sentimento bom, que às vezes é melhor que um monte de palavras né?

O mundo não acabou, ainda estamos aqui. Eu e quem sobrou aqui no São Judas. Tem gente que tem medo de nós, outros que chamam a gente de herói, porque aguentamos o tranco mais duro do corona. Eu não sei dizer quem está certo. Tudo que sei é que, quando durmo à noite, sonho com este espaço todo aqui, sem covas nem mortos, só as árvores se espalhando ao longe, e um verde sem fim balançado pelo vento de uma tarde quente. E sei que isso deve querer dizer algo. Mas não sei exatamente o que.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: A comentarista ao lado



Esses dias, você vai mexendo na TV e fatalmente não tem mais nada passando, ou pelo menos nada que você queira realmente assistir. Reprise de novela? Passo. Série sobre as pandemis na história? Interessante, mas estou buscando me desligar um pouco, não me informar sobre as desgraças. E que tal o telejornal? Misericórdia, agora não!

Assim foi neste Domingo passado: plena 21:30 da noite e lá estávamos nós, eu e minha querida esposa Aline, jogados no sofá em completa derrota, zapeando pela Tv em busca de algo que pudesse nos distrair um pouco antes de dormir. Isso aliás, é algo que eu recomendo muito: nunca vá deitar com a cabeça pensando em problemas do mundo, ainda mais nos dias pandêmicos que vivemos. Buscar uma besteira pra aliviar a mente é algo essencial para sua sobrevivência psicológica.

Pois assim estávamos, quando de repente me vi parado num canal que passava a lendária partida Corinthians X Santos de 1974, o último clássico que Pelé jogou, onde o Santos perdeu de 1 a 0, gol de Rivelino. Surpresos com meu conhecimento a respeito? Pois aprendi tudo ontem mesmo: os comentaristas do programa (chamado, a saber, Mesa Redonda, na Gazeta) fizeram o favor de me informar diversas vezes a respeito. Por que parei ali naquele canal, não sei dizer, até porque eu nunca fui um fissurado em futebol. Ao contrário, eu costumo evitar partidas de futebol na TV, elas me causam um tédio sem fim.

O que teria feito eu parar naquele canal, e assistir os melhores momentos daquela partida específica? Talvez a magia do futebol-arte de Pelé e Rivelino se degladiando ali, naquelas imagens de colorido derretido dos anos 70?  Não sei se um dia saberei, talvez seja um dos grandes mistérios que carregarei pelos tempos, ou pelo menos até a próxima coisa que tomará minha mente. O que sei é que em dado momento, houve um impedimento na partida e eu comentei, do alto da minha ignorância, o que eu achava que tinha acontecido ali (completamente equivocado, diga-se). Foi quando ouvi a voz ao meu lado dizer:

- Não foi nada disso. Impedimento é quando o jogador chuta a bola pro outro jogador no campo de ataque, e naquele momento não tem um jogador do time oposto na mesma linha.

- O que?

- É isso que é impedimento, uai - ela disse, e concentrou de novo no jogo.

Fiquei, confesso estupefato: não esperava que Aline soubesse tanto assim de futebol! Perguntei como ela soube disso, e aí fiquei sabendo que por assistir tantos jogos com meu cunhado, ela acabou pegando algumas regras de cabeça; "pouca coisa", ela disse, meio envergonhada; e eu com aquele misto de surpresa e orgulho característicos de quando aprendemos algo bom que nem imaginávamos sobre quem amamos

Continuamos assistindo, e pasmem, nos divertindo muito, quando de repente alguém solta um passe terrivelmente mambebe, e Aline diz:

- Que passe medíocre!

Aí meu amigos, vieram os risos, e a felicidade de dividir aquele momento com minha esposa. Os sorrisos não eram de zombaria; antes, eram de admiração por ela, pelas profundiades que ela tem em si, as quais eu quase nada explorei ainda. Meu riso era o dos sortudos, dos abençoados, pois eu tenho tanto tempo ainda para aprender sobre ela, e saber o que mais ela pode comentar, e risos a darmos com jogos de futebol antigos, e vídeos aleatórios, e séries velhas e novas.....  tudo isso aqui, em minha esposa: eis a maior aventura que eu já tive o prazer de viver, que continuo vivendo, e que viverei muitos anos mais.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Salvação virtual


Dizem que as pessoas tem suas formas de superação de sensações ruins das mais diferentes formas. Alguns gostam de música clássica, concertos de piano, etc. Outros buscam conforto em filmes de ação, dramas, séries de Netflix ou Amazon Prime....  Livros também são uma boa opção, ao menos para exercitar a mente um pouco (aqui também podemos apresentar como opção as cruzadinhas, eternas companheiras dos entendiados)

De minha parte faço tudo isso, e tenho dois gêneros especiais aos quais me devoto: o horror e o suspense. Já ouço alguns dizendo: mas que disparate, Alfredo! Por que não vê uma coisa mais leve, pra sorrir e relaxar? O que sua esposa (que caso vocês não saibam, tem verdadeiro pavor de filmes de horror, mas ama filmes de suspense) pensa disso? Você não fica ansioso além da conta, ainda mais com tudo isso que tem acontecido ao seu redor?

E lhes digo que não, na verdade me sinto bem relaxado. Primeiro porque acredito que ao me imergir nestes tipos de história, eu sinto a catarse de poder lidar com o horror lá de fora. Naquele momento, não é mais o meu foco o medo do dia-a-dia, e sim um zumbi ou monstro bobo na tela da TV. Ali, vendo ou jogando ou lendo, eu controlo aquela ansiedade, torno-a parte de mim, e posso delsigá-la a qualquer momento. Não estou à mercê do medo; ao contrário, sou um participante ativo e capaz de exercer minhas ações neste mundo. Só preciso entender as regras - algo que é bem mais fácil em mundos de horror e suspense que no mundo real.

Essa catarse deve vir para todos em algum momento. e em diferentes formas: alguns talvez busquem chorar com uma canção triste - e isso não é ruim, chorar na verdade faz bem para a alma, é um curador de corações feridos. Outros talvez busquem ação para agitar seus corações, dar-lhes forças contra o dia que tenta destruí-los - e isso também é válido, nestes tempos sinistros, tudo que nos der um pouco de forças a mais é mais do que bem-vindo. Tudo que puder nos salvar, que seja a aprtir desse momento algo sagrado, ao menos para você mesmo. Não recue à zombarias, arme seu melhor controle de videogame e vá lá matar aqueles monstros. Isso não é esquecer do mundo: é higienizar sua mente para as batalhas crueis do mundo real.

domingo, 26 de abril de 2020

Crônicas da cidade pandêmica: A Grande Noite

Fonte: pixabay

À noite, as coisas ficam mais claras no Butantã. Isso, apesar do fato de muitos preferirem o dia; isso é perfeitamente normal, tem as pessoas do dia e da noite, e acho que sempre existirá. Mas acho que a noite é a face verdadeira do mundo, o momento que ele se mostra sem maquiagens cobrindo as falhas.

Sou suspeito para falar, é claro: sempre fui um habitante da noite dos mais empertigados, então é claro que eu defenderia ardentemente meu momento máximo das 24 horas da terra. Mas tenho argumentos fortes, embora eu admita que sejam no mínimo tendenciosos. Pois para mim, a noite é como mundo sempre deveria ter sido.

As ruas vazias, exceto por um ou outro carro passando; pessoas cambaleando exaustas para casa também são comuns, embora não necessaramente em grande número. O vento parece mais forte também; as árvores balançam solenes, acenando lentamente para o céu estrelado acima delas. pássaros em algum lugar, desafiando o urbanismo distorcido que existe abaixo deles.

Os cães e gatos dominam as ruas também; andando e buscando abrigo ou comida. É claro que eles não pertencem ali, e que a vida é bem mais difícil para estes pobres animais forçados a sobreviver em um ambiente hostil.... ainda assim, não consigo deixar de pensar que o elemento deslocado ali é o humano, quando surge com seus carros barulhentos, suas músicas estourando os tímpanos, sua pose de donos de tudo. E como gostamos de tudo ao nosso bel-prazer, não?

Não é a toa que muitas pessoas burlam tragicamente a quarentena, sem nenhuma necessidade: creio que elas simplesmente não conseguem entender um mundo quea natureza os força a tomar atitudes drásticas. Tudo deve estar sob o controle máximo da humanidade: rios devem ser aterrados, animais devem ser domados, montanhas devem ser aplainadas. Entender-se como parte da natureza é penoso ao Homem, e entender que a natureza pode esmagar seus planos com facilidade é mais penoso ainda. Resta então a negação, até o amargo, amargo fim.

E é por isso que a noite é mais natural que o dia para mim: porque tem, em sua grande parte, pouquíssimo do elemento mais falso em nosso planeta: as pessoas.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Retrato na Cidade Pandêmica: Suzette Salomé

Head of a prostitute, por Vincent Van Gogh

"Me chamam de 'puta' por todo lado que eu vou, até meus clientes me chamam assim. e no entanto, quem sabe quem eu sou?

Não eles nas ruas, julgando em cada olhar. Desejando também, aposto, esses hipócritas.

Não minha família, que me expulsou de casa quando eu tive a coragem de aceitar quem eu era de verdade, mulher, não homem como meu pai queria, como minha mãe rezava pra eu ser (e nunca parou de rezar, eu sei).

Nem mesmo minhas amigas aqui nesse inferno, que me consolam quando as coisas apertam, e me dão um tapa na cara quando eu tenho que levantar e ir pra luta. Vivemos com a família que nos aceita; o sofrimento une mais que o sangue. E ainda assim, nem elas sabem.

O ponto que a gente trabalha fica perto de uma faculdade aqui da capital, faculdade de riquinho, cheia de filhinho de papai. Eles vem muito aqui, mas não só eles: tem executivo, homem de escritório, bancário, pastor de igreja.... carros de ricos e de pobres, gente curiosa, gente maldosa.... 50 reais o programa, esse é o valor mínimo aqui.  Às vezes mais, se o cliente quer uma coisa diferenciada, mas aí depende muito, de quem é, se a gente já conhece.

Dizemos para meninas mais novas, olha, cuidado, olha bem com quem tu vais, pra onde tu vais.... São mais de 5 anos nessa lida né. E eu já passei por muitas dores, então tento evitar que elas passem por algo parecido. É difícil: o desespero leva a gente a aceitar umas coisas terríveis. A gente aceita de acordo com o que a gente precisa para sobreviver.

O movimento caiu depois da pandemia, confesso. Caiu, mas não zerou. Ainda bem, porque senão como que eu ia comer? Faço agora o programa por 30 reais; as outras meninas também, porque senão aí que não conseguimos mesmo nada. Mas tá complicado demais, algumas de nós não podem mais nem ficar na rua com isso tudo.... A Alice, por exemplo, tá com 55 anos e nem consegue ficar em sapato de salto alto mais, dói muito o calcanhar, ela fica que não consegue trabalhar por uns dois dias. Aí ela vem de rasteirinha, mas todo dia tem doído. E os clientes dela são tudo gente mais velha, e esses não tem aparecido por aqui, só um ou outro velho assanhado que fugiu da quarentena que surge, aí ela consegue um trocado.

Nós moramos juntas, todas nós, numa vila aqui perto do ponto,uns kitnetzinhos mobiliado, algumas rachando, outra com um só para si. A gente tem rachado os lucros pra comprar comida, mas não sabemos quanto tempo ainda vamos conseguir. Final do mês tá chegando, o aluguel vem com tudo, e cadê o dinheiro? Ninguém sabe nem como vai comer no dia, imagina ter o dinheiro todo da moradia. Aí  tem que ir pra rua né, e se arriscar com doença. Mas a gente sempre se arrisca, todo dia. Ninguém vai fazer por nós, é só  nós mesmo.

Não me olhe assim. Vá à merda com a sua piedade. Eu quero ela pra que? Aposto que você tá pensando,  coitada da putinha, tá pegando chuva, tá tentando viver... vá à merda com com isso tudo. Sabe o que eu quero? O que nós queremos, eu e as meninas? Que não saiam pisando na gente toda vez que saírem na rua, quando saírem deposi disso tudo. Porque pisam sim, não com os pés, mas com esse olhar aí que julga, que condena.

Como se você soubesse de tudo que passei. Não tem nem ideia do quanto tentei arrumar outra coisa, outro emprego, pra sair das ruas. E as portas fechadas, a zobaria, porque ninguém que contratar bicha fodida. Você não sabe disso, não sabe do quanto eu choro de madrugada, no quartinho encardido, pensando nos meus irmãos que eu nunca mais vou ver, nem sei por onde estão, meus pais esconderam eles de mim. Penso tanto neles, tanto... mas não nos meus pais. Esses quando eu penso neles, não sinto saudades, só dor.

Mas você não sabe nada disso, e nem tem como saber, não daí de onde você me olha.

Você nem sabe meu nome,

Mas eu sei. "



PARA OUVIR: Me llaman Calle

PARA LER: Coronavírus não interrompe prostituição a R$ 30 no centro de São Paulo

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Crônicas da cidade pandêmica: O professor e Sísifo

iStock/Getty)

De segunda a sexta, eu tenho uma rotina. Acordo mais ou menos às sete horas da manhã (às vezes às 06:30), vou tomar café, organizo meu computador em cima da mesa da sala e começo a trabalhar dando aula. Sou professor de Inglês, é como eu ganho o famoso "pão de cada dia" aqui na cidade de São Paulo. Tenho uma grande sorte: porque sou professor de alunos adultos, e em sua maioria pessoas trabalhando em grandes empresas, existe uma certa cultura já incutida neles de usar o computador para chamadas virtuais. São um grupo que tem em si o costume de reuniões via Skype ou Zoom, e que por serem adultos, carregam a responsabilidade de comparecer e se esforçar em casa para avançarem na compreensão da língua inglesa.

Infelizmente,o mesmo não se pode dizer de meus colegas professores regulares, trabalhando em condições terríveis neste momento pandêmico. A profissão, verdade seja dita, nunca foi respeitada devidamente; quando não é considerada coisa de vagabundos reclamões (pelo Estado, quando buscamos nossos direitos), é endeusada como "vocação", igualando-nos a padres e certamente visando nisso o voto de pobreza dos mesmos, já que assim podem justificar para si mesmos  sem sentirem-se culpados, o porquê do salário de fome com o qual muitos professores tem de sobreviver.

Junte-se a isso, neste momento,um momento de crise na sociedade em geral, pais desesperados para que a escola tome o papel deles como educadores  para seus filhos quarentenados em casa (sendo que esse processo deveria ser uma parceria), e uma direção escolar que teme mais do que nunca perder clientes, e temos a completa recieta pro desastre. E como sempre, a carga disso tudo cai em cima dos professores regulares. São eles os que tem de fazer os alunos produzirem, são eles os responsáveis pelo sucesso ou fracasso desta empreitada em um momento que ninguém viveu antes, que ninguém sequer imaginou que iria viver.

A cada dia que trabalham os professores sofrem mais uma pressão, sem saber se perderão aulas (e portanto, dinheiro). sem saber qual a próxima problemática que será criada. "Como todos nós!", o mais cínico diria,e  ele estaria certo: como todos nós, os professores sofrem igualmente. Então por que diminuir seus esforços? Por que dizer que eles estão em melhores condições que outros trabalhadores, forçados a um home office que na verdade os suga 24 horas por dia?  Por que exigir dos professores o preparo que sabe-se que NINGUÉM teve para esses tempos?

A resposta para isso tudo é simples: falta de empatia. O mundo pandêmico surgiu, e revelou o quanto há pessoas que simplesmente observam seu próprio umbigo e se recusam a entender o sofrimento de outros, o esforço que se faz para manter um resquício de ordem e normalidade em nossos dias turbulentos. Querem tudo como antes, querem resultados sem arregaçar suas próprias mangas. Bem, isso não vai acontecer. Para sobrevivermos, precisamos todos trabalhar juntos, de mão metafórica dada. Ou vivemos e trabalhamos juntos, ou morreremos sozinhos e sufocados.




quinta-feira, 16 de abril de 2020

Crônicas da Pandemia: Mundos Virtuais

(fonte: Shutterstock)

Em momentos de isolamento social, acredito que o whatsapp de muitos de nós tem "bombado", como dizem as pessoas mais conectadas que eu. Não que isso já não acontecesse antes: a discussão se nossa sociedade estava mais no mundo virtual que no real era algo de até antes do whatsapp ou facebook. Tantos filmes terríveis nos anos 90 sobre jovens perdidos dentro do computador, às vezes até literalmente (a ideia de tecnologia naqueles tempos era algo similar à magia)....

Hoje, podemos dizer com certeza que sim, vivemos muito de nossas vidas em um mundo virtual - embora absolutamente contra a vontade.  Presos em nossas casas, qual a opção que temos para conversar com nossos amigos, nossos familiares? Nenhuma, então toca a fazer chamadas via skype, ou facebook mesmo. E com isso os novos dramas que surgem:

- Aqui não tá pegando o sinal de wi-fi!

- Oi gente! Tão me ouvindo? Não né?

- Calma pessoal, um de cada vez senão corta todo o áudio!

Mas eu sou muito grato a ser possível essa tecnologia, pois caso contrário eu teria perdido o aniversário de um ano de meu sobrinho Bernardo, festejado neste mundo pandêmico mas com toda a alegria. Também não teria conversado com meus pais, tão longe no norte do país e preocupados comigo e minha esposa, no coração desta crise toda.... Nem mesmo teria conversado com meu irmão mais novo, morando no Canadá e que me ligou hoje mesmo, para mostrar o berço de madeira que servirá de conforto para seu filho que está para nascer.

E assim vamos seguindo esses dias cinzas, pondo a cor onde podemos, nem que seja pela tela do computador. Amizades menores? Sensações falsas? Quem teria a ousadia de dizer isso? O que importa, o que torna tudo real, é como está nosso coração nisso tudo. E vamos vivendo.

PARA OUVIR: UM CLÁSSICO 

PARA OUVIR 2: Parabolicamará


sábado, 11 de abril de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Paranoid

(Fonte: Site Shutterstock)

E de repente, não mais que de repente, eu me sinto ansioso com o mundo. Não é algo que seja realmente incompreensível: de fato, nos dias de hoje, não sentir alguma coisa errada em si é que caracteriza um problema psicológico, ao contrário do que digam por aí.  Aliás, existem tantos semi-deuses andando por aí, inabalados pelo seu entorno, que é difícil até pensar em admitir ser humano, demasiadamente humano. Ou talvez o que haja sejam hipócritas mesmo - vai saber.

É errado de minha parte dizer que a ansiedade veio com a pandemia. Na verdade ela é uma velha inimiga, à espreita nas sombras, esperando o momento certo para dar o bote. Começa como um pensamento insistente - será que tranquei a casa direito ao sair? Será que conseguiremos pagar todas as contas esse mês? - e aos poucos, ele vai tomando a mente e o dia todo. Se você não tomar cuidado, ele toma toda boa parte de uma semana, ou mesmo bem mais tempo que isso, dependendo da sua estrutura para aguentar.

Aí vem o choro (de raiva, de impotência), a sensação de esmagamento na cabeça (no meu caso, bem ali na nuca), às vezes um formigamento... receita perfeita pro desastre em um ambiente que pode-se sair às ruas, dirá em um momento de isolamento social. Nisso, uma vez mais sou abençoado com a companheira dos sonhos - que me acolhe em seu colo, entende minhas lágrimas, me nina até eu me acalmar. Também eu faço isso por ela, quando o mundo lhe exige mais que o razoável. Acredito que isso seja o que um casal deva fazer em tempos de crise -e se não for, bem, é o que eles DEVERIAM fazer.

Mas eu toquei nesse assunto, porque me parece cada vez mais as pessoas tem sentido o peso da quarentena, e a sensação da ansiedade deve pesar forte em suas cabeças. A respeito disso devo dizer: não se sintam mal. Se há um momento para estarmos ansioso, é esse. Não prestem atenção nos semideuses, preste atenção em si mesmo. Permita-se sentir, mas não se permita levar pela onda maligna. Chore, se tiver de chorar: cada lágrima, um conforto mais próximo. Depois respire, olha para o céu, e pense no que o espera não em um mês, um ano, um dia e sim em algo bom para fazer em um minuto. Cada avanço na nossa vida, é montado minuto a minuto, "polegada a polegada", parafraseando Al Pacino. Permita-se percorrer estas polegadas, e não se culpe por tropeçar nas pedras do caminho.

Rumo ao fim disto tudo, amigos.


PARA OUVIR: Paranoid

PARA LER: Litania contra o medo





quinta-feira, 9 de abril de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Helden


(Doctor, de Nikolai Plastov)


Vejo nos jornais as notícias sobre o avanço do vírus, e é difícil não se sentir vulnerável. Ainda mais eu, que estou no grupo de risco: desde sempre com problemas respiratórios, um de meus maiores pesadelos é justamente morrer sufocado, o ar sumindo dos pulmões e a sugada desesperada por mais, sem que o pulmão possa absorver o suficiente para a vida.

Lembro-me de quando era criança, e tive uma das crises mais poderosas de asmas que jamais tinha sofrido. Foi um momento tenebroso, e lembro ter ficado certo que aquela vez eu realmente iria partir deste mundo. Não seria a primeira vez que eu pensaria isso ao longo da minha vida, mas naquela vez eu tinha por volta de 11, 12 anos. Um romântico de segunda geração precoce, digamos.

Naquela hora atroz, eu lembro perfeitamente de três coisas: minha mãe tentando segurar suas lágrimas, eu fazendo uma piada idiota ao meu irmão mais novo imitando Darth Vader (o respirador que eu usava fazia um som parecido ao do vilão), e o médico que me olhou no fundo dos olhos, e disse: você vai voltar bem para casa hoje.

Essas palavras vindas de um profissional da saúde me marcaram profundamente, porque ali eu vi a certeza, eu vi a segurança, E desde então adquiri um profundo respeito pelos profissionais da saúde e a medicina, apesar de alguns que conheci durante a vida serem uma desora à profissão. Mas eu sempre os vi como esses arautos da segurança. A pessoa de branco que olha para você e diz: tudo vai ficar bem.

Nem posso imaginar o choque e caso que nossos profissionais da sáude tem enfrentando nesses dias sombrios. As histórias que ouço são coisas escabrosas, mortes em nível de guerra, dias e noites  em claro lutando contra o vírus letal. É a definição do bom combate: não um conflito para tirar vidas, mas sim para salvá-las. O preço cobrado é alto demais, demandante demais, e ainda por cima mal recompensado, se os relatos de agressões aos médicos e enfermeiras que tenho lido tristemente forem verdadeiros. No entanto ali vão eles, a linha de frente no combate à peste e seguindo seu juramento à risca, coisa rara nos dias de hoje.

Há muito o que se escrever sobre esses bravos indivíduos, e creio que mais de uma vez voltarei ao assunto aqui. Por hora, que esta pálida crônica seja uma forma de homenagear estes trabalhadores da saúde, que não veem sua família a dias talvez, que choram sozinhos ao perder um paciente, que não desistem em momentos que muitos já teriam partido a tempos. A eles, mais que um mero obrigado, segue aqui a gratidão eterna de um doente crônico, que acreditou no doutor, e realmente conseguiu voltar para casa bem.

PARA OUVIR: Heroes

PARA LER: Juramento de Hipócrates 

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Crônicas da cidade pandêmica: I got you, babe

(Fonte: Getty images)
Acredito que não seja segredo para ninguém que ficar trancado em casa sem possibilidades de sair, seja uma tarefa mais difícil do que parece. Para começar, a própria probição de sair parece dar no indivíduo a vontade ainda maior de descumprir a quarentena, já que o ser humano é antes de tudo um rebelde, pelo que parece. Talvez seja isso que acomete tantos idosos que vejo andando nas ruas ainda: a certeza de que já viveram o suficiente para poderem fazer de si o que bem entenderem. É um erro que pode ser fatal, como muitos exemplos tristes tem demonstrado, mas ainda assim é algo humano, demasiadamente humano.

Resta aos que seguem rigorosamente o isolamento buscar atividades para fazer em casa, depois de cumprida a jornada home office do dia. Antes haveria uma caminhada no parque mais próximo de sua casa, ou quem sabe uma caminhada rápida para lanchar no fast-food  mais próximo, a junção máxima de exercício e recompensa errada. Isso tudo foi trocado, pelos próximos dias (meses?), pelo delivery acanhado tentando evitar a máximo o contato físico, e pela corrida rápida dentro da própria sala, de um lado pro outro - ou talvez uma volta rápida ao redor do prédio onde se mora, se tiver sorte.

Aqui em casa, as coisas tem sido um pouco mais tranquilas, quanto mais não seja porque somos um casal um tanto caseiro. De fato, a maior parte das atividade que fazíamos antes continuam as mesmas, embora algumas tenham aumentado em intensidade. Por exemplo, a completa perplexidade na idiotice do presidente no poder, um hobby nacional desde pelo menos 2019, aumentou em pelo menos 50% em força, e agora é acrescido da saudável expurgação desta raiva através de xingamentos gritados da varanda do apartamento. Apesar do que possa parecer, é uma atividade bem calorosa, com participação ativa da vizinhança. Provavelmente foi a primeira vez que eu interagi com a nossa vizinhança de uma maneira  mais lúdica e ativa.

Outras atividades menos comunitárias tem seguido também seu curso: séries, filmes, conversas ao anoitecer, músicas. Mas principalmente, e essa talvez seja a melhor de nossas ações juntos, continua também aquele momento que, sem dizer nada, seguimos para alguma janela e olhamos o céu em silêncio, e sentimos o vento (às vezes frio, às vezes cálido) da cidade. Não sei dizer exatamente o que ela pensa: as divagações de um indivíduo são um conforto privado que não devem ser esmiuçado à toa. Mas sei que também eu tenho cá os meus pensamentos, e naquele momento  isso nos basta. E sonhamos e olhamos juntos para o horizonte, longe de tudo que nos aflige, voando tranquilos com o vento que nos afaga o corpo.

PARA OUVIR: I got you Babe

PARA LER: Sopra o Vento, Sopra o vento

terça-feira, 7 de abril de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Heaven in a Wild Flower


Em tempos incertos, o mais ideal seria buscar em si uma certeza, uma plataforma para tentar sobreviver. Mas e quando mesmo o seu lugar interno é carregado de incertezas? Aí vem a grande busca, o conhecer-se a si mesmo. 

Confesso que este é um tema um tanto espinhoso para mim; sofro de incertezas até do que deveria ser fato consumado em minha vida. Nunca acreditei na durabilidade de coisas boas, fossem elas aprazíveis ao corpo, mente ou espírito. Na verdade, por anos eu nem sequer acreditava na existência em si de emoções lindas que muitos tomam como parte integrante da existência.... foi preciso conhecer ELA, a mulher a quem tenho o priviléigo de chamar de esposa, para que eu pudesse cogitar que merecia ser feliz. Mas isso é assunto para outro momento. 

Por anos, a ideia de um mundo frio e incolor era para mim a realidade, até um dia eu enxergar as cores e a vida ao meu redor, um daltônico emocional de repente curado. É justamente nesse momento do ápice das descobertas, o mundo surge para se reafirmar gélido e implacável, com a Covid-19 funcionando como o argumento final desta visão. 

Mas não é possível que deixemos este vírus destruir nossos corpos e espíritos ao mesmo tempo, que esses momentos atrozes sejam a nossa regra e não a exceção monstruosa. Não podemos nos deixar demolir tanto pelo corona quanto pela absoluta soberba e ineficácia do atual presidente do Brasil, um homem que é em si uma doença sobre duas pernas, ameaçando diariamente nossa salubridade mental. É preciso resistir, é necessário crer num momento melhor, além deste tão terrível que estamos vivendo, e outros piores que ainda virão. Um dia, além da fumaça da História em curso, poderemos todos descansar e olhar atentamente as cores ao nosso redor, sem medo, sem raiva, em paz. 

Afinal, como disse um certo sábio inglês a mais de 30 anos atrás: O inferno é algo que carregamos conosco, e não um lugar para onde se vai. Larguemos portanto este inferno que nos pesa as costas e embrulha o estômago, e criemos em nós mesmos um paraíso. Faça-se a luz.


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