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quinta-feira, 30 de julho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Ode ao professor Raimundo

Fonte: Site Observatório da TV

Sou um homem de sorte. Além da minha vida pessoal ser linda neste momento, obrigado, eu tenho trabalhado com algo que gosto muito, que é ensinar Inglês. Para quem não sabe, sou formado em História, mas tenho uma vasta experiência como professor de Língua Inglesa, ao ponto de poder dizer que tenho mais experiência como professor de inglês, que de História, curiosamente.Ou não tão curiosamente assim, já que fui eu mesmo quem buscou este caminho.

Foi uma profissão que sempre me encheu os olhos, a de ser professor. Pode-se dizer que tenha havido aqui alguma influência dos meus pais aqui: Minha mãe, particularmente, certamente foi uma pessoa que me inspirou a ser professor. Muito da minha postura como profissional devo a ela, das observações que fiz de seu trabalho ao longo dos anos que moramos juntos. Não tudo, é claro: Ainda sou uma pessoa um tanto, digamos, laissez faire no que diz respeito à organização de documentos e coisas mais burocráticas que nós professores precisamos fazer. Mas com certez,a o melhor de mim como professor,, devo à Dona Gleice.

Hoje trabalho como professor à distância, especificamente via Zoom e skype, como muitos colegas devem estar fazendo em tempos de Covid-19. Não digo que tenha uma vida fácil. De fato, há dias que parece que nunca estive tão cansado como quando dou 3 aulas direto . Mais cansado até, do que se tivesse feito as mesmas aulas em sala de aula: Li em algum lugar que o foco de uma pessoa trabalhando no computador home-office é redobrado, porque o indivíduo fica mais facilmente distraído pelas coisas e pessoas ao redor: filhos, animais de estimação, campainha tocando ao longe.  Se assim for, isso explica porque todo dia acordo ainda mais cansado que o dia anterior.

Mas apesar disso sou sortudo, muito sortudo, porque tenho amigos que são professores regulares, e que além dessa tensão toda, ainda encaram a idiotice de donos de escolas querendo reabrir seus estabelecimentos em plena pandemia. Donos que só pensam no lucro, se recusando a ver  a suprema estupidez e risco que é reabrir um ambiente onde jovens e crianças vão necessariamente conviver além dos limites estabelecidos, e que carregarão a doença para seus lares, onde dançaremos mais uma vez a dança da morte que tanto convivemos neste primeiro semestre de 2020. Hoje mesmo ouvi falar de um dono de escola que foi fazer uma carreata clamando pela reabertura das escolas: é a definição de estupidez.

Ainda assim, lá estão os professores , com todas as reclamações sobre ter de usar uma tecnologia de forma quase improvisada, sem qualquer treinamento por parte das escolas; tendo de praticamente tornarem-se youtubers para manter a atenção de jovens francamente entediados e em choque com a situação de um mundo em declínio; e se preocupando consigo e com seus entes queridos, posto que são humanos como todos nós. Sim, lá estão eles, e este pequeno texto é só mais uma forma de homenageá-los, embora eu saiba muito bem que o que seria melhor era respeito e um salário justo.

Um dia amigos, quem sabe um dia. 

terça-feira, 21 de julho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: 90 dias para fofocar



Além de futebol, e de reclamar da vida, o brasileiro tem como tradição nacional a fofoca. Ora, não minta para mim: com certeza você já deu aquela esticada de ouvido para tentar entender o que o vizinho estava falando mais alto. Ou então , nesses tempos modernos, procurou o perfil de uma determinada pessoa no facebook ou instagram da vida, seja porque você teve objetios românticos com essa pessoa, seja por pura e simples curiosidade.

Eu sempre advogo que a fofoca é uma consequência do impulso humano de querer saber mais. A nossa mente é faminta por conhecimento, mesmo que inútil .E saber da vida dos outros ao nosso redor é algo assim como o açúcar branco de ter conhecimento: não vai acrescentar nada à sua vida, talvez na verdade até torne sua vida pior.... mas por Deus, como é viciante!

O que nos leva a algo que eu e Aline temos feito durante esta quarentena interminável, o nosso novo êxodo hebreu no deserto da estupidez ao nosso redor. Temos assistido, de maneira quase hipnótica, o programa do TLC 90 dias para casar. Se você não conhece, procure no youtube, estou certo que vai encontrar episódios inteiros deste programa por lá, como nós dois encontramos. Ou melhor, não procure. Salve-se, leia um livro, afaste-se deste vil show de horror.

No entanto.... que divertido que é. Em 45 minutos vemos um verdadeiro zoológico humano de pessoas desesperadas por companhia, tão angustiadas com a solidão que aceitam qualquer migalha de carinho vinda de qualquer parte do mundo; e por outro lado, temos pessoas tão atormentadas em querer sair de seus países, que se sujeitam a situações por vezes humilhantes, por vezes simplesmente ridículas, tudo por um green card pros EUA, lutar pelo falido sonho americano.

Assistimos isso tanto, que eu fiquei enjoado comigo mesmo e sugeri à minha esposa que asisstissemos  algo mais construtivo, no que ela concordou. Foi aí que vimos um documentário muito interessnate sobre o Che Guevara, e aprendemos em 1 hora e 45 minutos muito mais que em 3 horas de 90 dias para casar. Contudo, se não fosse ver esse show, nós provavelmente não teríamos nos animado para assistir um documentário... então talvez de maneira indireta, o TLC tenha contribuído para o nosso conhecimento? Isso sim é escrever certo por linhas tortas!

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Reflexo do passado

Fonte: Getty Images


O Facebook, vocês sabem, tem uma coisa que se chama "lembranças". Você também tem, estou certo, mas as do Facebook são diferentes: ele mostra pra você algumas publicações antigas (sejam fotos, textos, ou um link qualquer), e pergunta se você quer compartilhar isso. Algumas  não precisava nem perguntar: é deletada na certa. Outras são mais suaves, e bonitas: essas são as que mais mexem com a gente. Nesses dias, que estamos presos em casa, as memórias podem ser as melhores fugas que temos.

Mas nem sempre é o que ocorre. Pois é fato que ao passar do tempo, mudamos dia a dia, ano a ano ; e a nossa versão anterior é uma casca que vai aos poucos se rachando, e dando lugar à nossa versão atual, que também irá dar a lugar a uma versão futura, num ciclo que prosseguirá até a nossa partida. E quando somos confrontados com uma versão anterior de nós mesmos, é posssível que surjam uma série de emoções: a mais comum é vergonha, seguida de perto por vontade de rir alto de si mesmo.

Quanto a mim, não sou exceção à regra: é muito comum eu ver surgir nas lembranças da rede social, opiniões que eu tinha, e piadas bizarras que eu fazia, que não condizem em absoluto com quem eu sou hoje em dia. Veja, até mesmo um passado reacinha eu relembrei - não sem passar uma absoluta vergonha própria de como a desinformação me levava a ter um posicionamento agressivo por nada. O vinho da juventude é amargo com nossos erros; muito melhor é o frescor da limonada de nossa Experiência.

Mas sempre me pergunto, quando vejo isso: qual conselho eu daria ao jovem Alfredo neto? Será que o advertiria dos dissabores que viriam ao longo dos anos? Ou as alegrias que viriam adoçar sua vida, que em muitos momentos parecia não ter fim em angústia? Não sei. Só sei que ele provavelmente não me ouviria e me mandaria pra bem longe. Ainda assim, há em mim uma ternura inescapável, e a vontade abraçar a mim mesmo do passado é grande: Pois, naqueles dias, eu não sabia ainda como sentir a vida.




terça-feira, 7 de julho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Aqui, ninguém vai pro Céu


Hoje minha mãe, uma grande professora de português e literatura, passou para seus alunos uma versão da música consagrada de Criolo, "Não existe amor em SP", com ele cantando junto com o Milton Nascimento. Uma canção belíssima, ainda mais nesse bate-bola entre dois cantores excelentes. Recomendo muito que se busque e ouça profundamente, de olhos fechados, numa sala escura.

Quanto a mim, eu já tinha ouvido essa versão antes. E a canção original também, anos atrás, em um kitnet numa rua no coração do Butantã.

Eu estava em São Paulo, sozinho, e era o primeiro inverno que eu passava de verdade. Entenda, na minha terra natal, "inverno" é mais uma questão filosófica, que física, real. A Amazônia só conhece períodos de mais ou menos chuvas, não o frio intenso, de Julho, que vem enganador com seus 17, 18 graus de manhã, e seus 2, 3 graus na madrugada. Muitos podem dizer que isso não é frio de verdade: eu posso dizer que não me importo com o que acham. Era frio para mim, e é isso que importa.

Então, eu ouvia músicas aleatórias,e encontrei "Não existe amor em SP". O Kitnet era frio e pqeueno, então o som ecoou por todo o espaço. Naquele dia, eu acho que encontrei a melhor explicação para o que eu sentia, para toda minha solidão. A música se tornou uma espécie de hino mental: eu a ouvia em minha cabeça quando pegava ônibus, quando estava andando nas ruas, quando caminhava para estudar na USP. 

Tempos depois, conheci minha esposa, e me pareceu que eu exgerava um pouco sobre como São Paulo era. Até conhecê-la, eu creio que não acreditava em pessoas que fossem, de fato, preocupdas com coisas mais suaves - pelo menos não do jeito que ela o faz. Conheci Aline e me apaixonei: e então, para mim, a música não fazia mais sentido. Existia amor em SP.

Fui um tolo, é claro. Porque Criolo não está falando de indivíduos; ele está falando da cidade em si. Da alma da cidade, do que agita a grande massa que anda nas ruas, que a faz agitar-se, agir. E a última coisa que passa pelo coração dessa massa é amor. Como pode existir amor em SP, com pessoas morrendo de frio nas ruas?  Com tantos clamando pela reabertura sem a menor preocupação com as mortes , com cuidados para evitar as mortes? Uma cidade que elegeu um prefeito que teve como atitude molhar os moradores de rua, no inverno, com jatos de mangueira?

Aqui é a cidade sem coração. Os pobres são degraus de riqueza para os ricos, ninguém sequer se importa se eles morrem ou não. Ou você acha que os números de casos de corona na região mais pobre importam para os mais ricos? Evidentemente que não, porque senão haveria um esforço maior da própria sociedade para ajudar essas pessoas. Ao contrário, elas são impulsionadas à morte - e por isso, mergulham na dança do desespero para não pensar no que se envolvem todo o dia, só para sobreviver. A classe média, na qual estou incluso, não está à salvo: somos apenas mandriões chorões, lamentando a falta de humanidade das pessoas, ou somos aspirantes a uma riqueza que amais chegará, porque compramos a ideia da meritocracia, a pior cenoura já criada para fazer cavalgar um cavalo chucro.

Está é São Paulo. Venha nos visitar, temos sanduíches, lojas, e mortos por descaso. Mas é só não olhar para eles que fica tudo bem, se duvidar dá até para fazer o selfie e editar depois o morador de rua esfomeado lá no fundo.

domingo, 5 de julho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: CABEAMUN 1


O brasileiro anda firme no empecilho de ser o mais completo idiota no mundo. A competição é muito boa: nossos brothers  dos EUA estão a toda, e saíram, arrisco dizer, bem na frente, como costumam fazer desde sempre. Ali o ambiente de armas e pessoas imbecis ajuda muito eles a seguirem à frente da competição. EUA medalha de ouro em asneira? Talvez!

Mas como somos brasileiros e não desistimos nunca, estamos aí firmes e fortes;. esses dias, um shopping resolveu fazer uma venda drive thru, com os carros passando por dentro do próprio estabelecimento. Isso, numa cidade que está ainda no dito "sinal vermelho" de abertura, ou seja, nem deveria estar funcionando realmente o lugar.  No Rio de Janeiro, imediatamente após uma abertura que nem deveria ter acontecido, alguns bares registraram aglomeração recorde,  com pessoas sem máscaras, alegria sem motivo a mil. "Finalmente voltando à normalidade", uma pessoa que grava o vídeo disse, e nisso eu discordo: sempre estivemos na normalidade. O brasileiro médio não deixou de ser um imbecil só porque estava de quarentena. Afinal, no começo da pandemia, as pessoas se atropelaram para comprar papel higiênico, esquecendo talvez que:

1) O mundo não ia acabar, e portanto você poderia comprar papel tranquilamente num momento posterior;

2) Existe sempre a possibilidade de você lavar a bunda depois de fazer cocô. Ou talvez as pessoas realmente não soubessem disso: nesse caso, não deixou de ser um aprendizado pra elas!

É tanta asneira, tanta, que eu francamente não consigo falar todas numa crônica só. Sendo assim, pedindo a benção do saudoso Stanislaw Ponte Preta, ressuscito aqui seu FEBEAPÁ (o Festival de Besterias que Assolam o País), num pacote mais jumbo. Como a burrice está ganhando de goleada pelo mundo inteiro, faz-se urgente alguém marcar a competição de jumentices internacionais. Declaro portanto, iniciado o Campeonato de Besteiras que Assolam o Mundo, ou CABEAMUN, para facilitar. Porque essa sigla, prezados organismos que leem este texto? Porque sim, na verdade. Faz a homenagem e vira algo novo, ao mesmo tempo. Estamos aqui para surfar na onda do passado!

Torno aqui solene então, acompanhar dolorosamente as besteiras que nossa humanidade estpa fazendo durante a pandemia, e manter uma pontuação digna, sem bairrismos, apesar de que, como vimos, o Brasil está com fome de ganhar, talvez por trauma do 7 a 1 ainda latente nas almas. Contudo, vamos ter que nos esforçar muito: Taiwan acabou de lançar um serviço paras pessoas fingirem que estão viajando ( com check-in, entrar no "avião" e tudo), para os viventes que sentem saudade da rotina de se apertarem do lado de um estranho numa poltrona mais barata que sua alma. Olha aí gente, oriente se orientando na Competição! Mas eu não desisto, AGORA É BRASIL!




quinta-feira, 2 de julho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Elegia



Hoje, marcamos quase um milhão e meio de infectados no Brasil, e mais de sessenta mil mortes.  Pra você ter uma ideia, em 2019, morreram de homicídio neste país pouco mais de 40.000 pessoas, de acordo com os dados oficiais - e isso de uma das mortes que nós, em tese, mais nos preocupamos. E isso num ano todo: ainda estamos em Julho, acabamos de começar o segundo semestre.

Se formos considerar mortes por causas respiratórias, o principal sintoma do Covid-19, os dados vão se acumulando em emergência:  O Brasil teve um aumento de 8,15% de mortes por essa causa, de acordo com a ARPEN (Associação de Registradores de Pessoas Naturais).  Evidentemente. o principal contribuidor disso é o Corona, a despeito do que insite em acreditar o presidente Bolsonaro, quando afirma ser tudo um grande exagero da imprensa.

E no entanto, temos um culpado maior nisso tudo, ou ao menos em uma das áreas que mais afetam nossa sociedade atualmente. Pois veja, não podemos fazer nada a respeito das questões estruturais: resta-nos esperar que os nossos representantes no poder façam algo que possa nos ajudar a sobreviver a esta crise maldita, a esta peste moderna. Alguns estão ajudando, outros estão claramente atrapalhando (cofcof Bolsonarolazarento cof cof), mas é inegável que esta bola, não nos pertence.

Contudo, existe uma série de coisas que poderìamos estar fazendo melhor, e simplesmente nos recusamos a tanto. Talvez por estarmos cansados da quaretena que não acaba, talvez por puro e simples egoísmo, Muitos de nós estão vacilando nos cuidados, e digo isso com pesar no coração, pois alguns destes que vacilam eram justamente parte dos poucos que ainda se valiam de tentar respeitar a quarentena. Talvez também seja uma falsa esperança: afinal, se na Europa já estão reabrindo, porque não no brasil, esta terra que certamente já sofreu tudo que tinha de sofrer, na visão dos iludidos?

E toca haver bares disfarçados de pet-shop, para poder funcionar escondidos. Toca desativar hospitais de campnaha, na esperança que tudo jáa está acabando. Até mesmo conversa sobre retorno do campeonato carioca estão acontecendo - tudo seguindo, de acordo com as autoridades, "o máximo de proteção necessário para isso", como se  houvesse possibilidade de se proteger da doença em meio a um jogo acirrado. Não falo aqui dos trabalhadores essenciais: esses tem todo meu apoio e suporte. Falo dos que insistem em sacrificá-los, sem ao menos garantir que eles tenham o mínimo de segurança. Não à toa, o percentual de pessoas infectadas com coronavírus nos bairros pobres da cidade de São Paulo, a maior metrópole do país, é 2,5 vezes maior do que nos ricos. Ou seja, eles simplesmente não se importam se o pobre morrer: a ideia aqui é reabrir tudo, e que morram os (pobres) que tem que morrer.

E falando de morrer, essa sim é a nossa principal falha, nós, humanos, cidadãos, viventes. pois cada um desses números para nós, tornou-se apenas isso: um dado numérico. Um algo que olhamos todos os dias, e anotamos na agenda mental na nossa cabeça. Hoje 60 mil; amanhã talvez 62 mil? 63 mil? Quem pode saber? Fazemos isso, e esquecemos que cada uma dessas pessoas estava viva, tinha planos, sonhos, como nós. Era alguém que aqui estava, e depois partiu, em dores, afogada em si mesma. Não lamentamos a morte dessas pessoas, exceto quando é da nossa família, ou é alguém conhecido. E no entanto, é preciso pensar neles. Ao menos um pouco, ao menos por alguns momentos, precisamos absorver a enormidade das mortes que estamos observando. Precisamos rehumanizar a nós mesmos.

As coisas não podem ser apenas "vida que segue". Não podemos deixar que cada pessoa morta tenha sido apenas um degrau pra gente voltar à dita vida normal, sem qualquer elegia por elas. Sem um pensamento de conforto, de piedade. Se nos fizermos dessa maneira, podemos sair incólumes da
covid, mas nunca mais nos recuperaremos da doença no espírito que causamos a nós mesmos.


domingo, 28 de junho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Aberturas e Fechamentos

Fonte: Site metropoles.com

O tema atual é a reabertura pós-pandemia. E o que podemos falar a respeito disso? Nada de muito forte, visto que não estamos numa situação pós-pandemia. Ao contrário, o Covid-19 nunca terminou por aqui, ou mesmo diminuiu tão sensivelmente assim. E  no entanto, as pessoas parecem não ter entendido que ela continua, e saem felizes das casas, cantando alegremente um recomeço que não é real.

O Brasil está terminando um isolamento que nunca começou de fato. E falo isso não pelos pobres trabalhadores essenciais, e sim pelos safados que fazem festas pelas horas da noite, celebrando o fato de poderem fazer festas quando muitos se isolam e temem. E eu gostaria de dizer que são apenas os seguidores de Bolsonaro e sua trupe de calhordas - mas eu teria então de admitir que a maior parte das pessoas é seguidora dele, e isso é um prognóstico dos piores.

Não, infelizmente a verdade é que as pessoas só fecharam-se em si mesmas, e não importa mais o próximo. a maioria das pessoas está ali, e observa sua família, e vê que nada aconteceu: este é o momento que o pensamento vem: se nada aconteceu comigo, a doença não existe. Não tenho por que me cuidar, é tudo uma invenção. Ou então, é algo mais visceral mesmo, a ideia de que você é especial, você é o abençoado. Todas as mais de 57 mil pessoas mortas, essas não tinham Deus no coração, mas você, que dorme no culto, que chifra a esposa, que rouba do mercado sem precisar; você sim é o abençoado. Você é o imune da Pandemia.

A reabertura da sociedade no meio de uma pandemia só é possível graças a um fechamento do coração das pessoas - pelo menos, das pessoas que estão no comando desta mesma sociedade. Mas não só delas: aqueles que festejam, que não seguem as questões de segurança BÁSICAS para evitar a disseminação, estes são coniventes, e portanto culpados também. E quem mais vai sofrer, ao fim de tudo, é a parte mais frágil. Rezemos pelo melhor, porque é a única coisa que nos resta. 


quarta-feira, 24 de junho de 2020

Relatos da Cidade Pandêmica: Benjamin, o lixeiro

Fonte: Istockphoto

"O meu cargo, na real, é de gari, mas estou na coleta de lixo por uns 5, 6 anos já. Sempre trabalhei de noite; minha cabeça funciona melhor, meu corpo se arruma bem, sei lá, eu prefiro. Mas já tive que trabalhar de manhã também. Sempre coletando o lixo: com o tempo a gente pega a experiência com isso.

O salário é uma bosta pro que a gente passa. Média de 1200 contos aqui na cidade que eu moro,  correndo risco de se cortar com vidro que uns moradores arrombados botam junto com o lixo comum; correndo de gente armada ali nas ruas mais perigosas; a humilhação de passar e ser julgado como se fosse mesmo o lixo que a gente carrega. esse, aliás, é um dos motivos que a gente aqui de noite prefere esse horário, menos gente, menos aporrinhamento.

Não posso dizer que cruzei a cidade toda, tenho o setor que eu trabalho direitinho. Mas aqui é grande, e variado, então eu sei bem quais as mudanças que tem de cada bairro, em cada parte. A cidade é insana, tem ruas que você só vê mansões, basicamente, e outras partes só casinhas de tijolo cru, uma laje cinza acima. O que sempre tem é um cachorro. Toda rua tem pelo menos um cachorro solto , olhando de longe ou seguindo a gente. Às vezes eles latem e perseguem, mas sendo honesto nem é tantas vezes, pelo menos nesses 6 anos. Alguns a gente até tem amizade, falando à vera pra ti.

Nessa pandemia? Vivendo e segundo, meu irmão. Trabalhador essencial. Sigo pelas ruas, correndo atrás do caminhão, jogando o lixo na caçamba. passo pelas festas que a galera faz, apesar do tal do Fica em Casa que vivem falando. Olho e fico pensando, meu Deus, o que será que faz a pessoa desistir assim? Porque sabe, na minha cabeça, isso não é descrença, é desistência mesmo. Da vida, de um caminho melhor. Não julgo, falar a verdade. Já fui assim.

Mas isso tudo, eu penso rápido mesmo, valeu? Porque daqui a pouco vem a curva, tem que segurar forte: ainda tem mais de 4 horas de turno, e a noite nem começou direito. Olha o que tem aqui no saco: vidro de novo. Eu te falei, mano, o lixo pior é a bosta da pessoa que faz a gente se sujeitar a isso."


terça-feira, 2 de junho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: O horror nosso de cada dia



O tema do desconhecido é algo muito caro a uma série de autores e diretores de horror e terror. O que pode ter mais potencial de ser apavorante do que, especificamente, não saber o que há em um quarto escuro desconhecido, onde sua mente preenche o vazio com formas e ares sinistros? E neste momento, tornamos o horror o OUTRO, o avatar de nossos males, e decididamente fora de nós.  Porém, eu creio que podemos tentar entender isso muito além deste foco. Ou talvez, o melhor termo seja: entender isso muito mais próximo de nós do que se imagina, exatamente. 

A sensação do desconhecido como matéria-prima do horror é algo que muitos talentosos artistas usaram. Stephen King é muito conhecido por gostar de propor a sugestão dos terrores, antes de lançar mão de cenas mais abertas, grotescas. Num lado mais chegado ao suspense, Hitchcock era um artista que trabalhava nas sutilezas, no que a audiência esperava que acontecesse, sem necessariamente mostrar  vísceras e sangue explícitos na tela. De fato, Psicose é um dos poucos trabalhos dele em que há uma demonstração mais explícita de sangue em tela. Há também outros autores, mais famosos porém com tema smais cósmicos, que não creio que se enciaxem aqui por estar me atendo a um medo mais próximo, mais em nossa vizinhança humana.

De fato, eu escolhi estes dois auteurs, porque creio que eles demonstram especificamente o que acho ser o fator central de nosso tema de hoje: o Inferno ser os Outros. Ou talvez, o Horror ser o outro. Tanto King quanto Hitchcock , embora cada um com suas especificidades, se esforçam em mostrar o lado oculto do humano, mesmo quando há fatores outros que tornam o fio condutor da história mais  complexo, ou mais sobrenatural (no caso de King). Esse caminho, inclusive, é algo muito usado por outros artistas: com certeza é mais fácil criar um monstro e usá-lo como símbolo de algo de podre dentro da própria alma humana, que enfrentar a podridão em si. 

No entanto, aqui estamos. Olhamos para fora, e vemos o horror bem ali. e não se trata de um monstro, ou alienígenas, ou espíritos. O nosso horror é um ministro que diz odiar o termo povos indígenas. É um presidente que se recusa a demonstrar qualquer senso de humanidade pelos mortos do Covid, e que prefere acusar a doença de ser um esquema político. Nem tão longe: é um parente que diz concordar com tudo que o presdiente fala, inclusive sobre exterminar oposição, associar negros a gado de corte, diminuir mulheres como merecedoras ou não de serem estupradas. Esses são nossos monstros particulares, e eles venceram.  Talvez nem tanto Hitchcock( que se preocupava mais com thrillers que com o horror, verdade seja dita), mas Stephen King certamente entendeu isso melhor que ninguém: nunca foram os monstros sobrenaturais o nosso problema, e sim os humanos. Sempre os humanos.

E com isso, esse texto passará, e milhares morrerão por nada, exceto por dinheiro e um lucro maior ao fim do ano. Morrerão protestando por direitos enquanto são massacrados por um estado que não liga para eles. Morrerão sendo admoestados por serem agressivos, por não quererem diálogo, quando tantas oportunidades já foram armadas antes, apenas para serem encaradas com desprezo e escárnio. A dança da morte continua. E até esse crônica é apenas uma estupidez a ser lançada ao vento, ao nada. 

domingo, 31 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Ghost Story

Fonte: Wattpad

Um espectro ronda o mundo - o espectro da Tristeza, com "T" maiúsculo mesmo. E nós, brasileiros, o vemos todo dia, a todo momento. Não me parece exagero dizer que ele permeia todas as nossas ações, e as nossas dores. O que é a raiva que sentimos, ao ver o presidente falar asneiras em plena TV? Não raiva, mas impotência: é a Tristeza a nos afundar em sua lama. O que é a sensação de vermos cada vez mais pessoas morrendo, e os empresários discutindo rebaertura ao invés de se reunirem e tentarem ajudar num isolamente? É a Tristeza novamente, disfarçada de ultraje, de raiva no fundo do peito.

Este fantasma que nos assombra, não está aí a pouco tempo: na verdade , se considerarmos o Brasil, ele sempre nos acompanhou, como uma doença crônica acompanha um enfermo. Arrisco dizer que a Tristeza está intríseca na nossa arte, na nossa comida, nas nossas danças... mesmo canções dos anos 80, ditas mais alegres, sempre carregam em si um quê de melancolia, não? Podemos pensar em canções mais alegres: axés, sambas, pagodes em geral. Mas eu penso que eles podem ser apenas uma froma de disfarçar a dor; é costume da alma mais angustiada tentar sublimar seus sofrimentos de alguma forma, e talvez assim seja com a sociedade também.

Como disse, essa Tristeza não é algo que seja novo. Contudo, como ela tem se espalhado nesses tempos! E não apenas pelo Covid, ao contrário, a Pandemia veio meramente como uma espécie de confirmação de nossas previsões mais pessimistas sobre o mundo. Toda a crise, a revolta, as dores e mortes que sentíamos, em nosso âmago, que viriam, aqui estão. De uma forma ou de outra, os temores se concretizaram.

Não foram, também, os resultados de eleições diversas ao redor do mundo que nos afetaram de maneira tão atroz, embora elas realmente não tenham ajudado. Não sou do grupo de pessoa sque diz que nosso presidente, o Idiota no Planalto, é o responsável pelos nosso males de alma: eu sei que ele é o sintoma final de uma sociedade extremamente doente e podre, que enxergou nele uma solução (ainda que torta) para conseguir uma mudança. E essa mudança veio, e era tão destrutiva quanto muitos de nós falaram. Não me importo se essas pessoa mudaram de ideia agora: a verdade já foi revelada, e suas almas já foram expostas. Olhemos para o que acontece neste momento: é isso que os eleitores de Bolsonaro queriam. Sentem-se mal agora, e dizem se arreepende,r porque efetivamente a mudança afetou a eles mesmos; mas nunca nos enganemos em pensar que eles adquiriram consciência.

Como lutar com essa assombração? Não posso dizer, pois creio que cada um tem sua forma própria de resistir. Também acredito que os que se sentem verdadeiramente assombrados, são poucos, e por isso devemos nos unir. Lá fora, veremos a maioria em uma dança macabra, rindo de horrores, abraçando demônios. Que nós, que acreditamos em algo melhor, algo maior, possamos dar as mãos e construir algo para a próxima geração. Sim, a próxima, porque esta nossa... creio que já não há muitas chances. 

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Un jour, je serais de retour prés de tois



Um dia, eu voltarei ao seu lado.

Não falo de uma pessoa em específico. Ou talvez esteja falando, sim; de um grupo de pessoas, essas mesmas, que você pensou, quando leu essa frase acima. Já deixamos muitas pessoas na beira da estrada da nossa vida, não? E algumas, faz muito tempo já. Não me refiro aqui, às pessoas que infelizmente tiveram de ir por força maior: e nesses dias cinzas, elas tem sido tantas! Falo das pessoas que abandonamos mesmo, seja porque achamos não ter escolha, seja porque tinhamos total liberdade e escolha, e decidimos por não seguir adiante ao lado daquele determinado indivíduo.

Isso é, infelizmente, muito normal, não? Seguimos em frente em busca de algo, uma evolução talvez, ou mesmo uma forma de entender melhor o mundo; e nem sequer nos percebemos dos que deixamos para trás. Um amigo de infância, talvez; às vezes, um colega de escola que foi particularmente importante para sua vida. Talvez mesmo um parente: quem não teve um primo ou tio/tia que lhe incentivou a seguir um determinado caminho (ou a explorar um hobbie específico), e com quem não mais conversamos, porque a vida nos levou para um outro lado.

E isso é algo que a sociedade tende a normatizar. É  evidente, dizem as vozes das ruas, que você vai conhecer uma série de pessoas, e que depois você vai sumir da vida delas. Faz parte do processo de crescimento. Você aprendeu o que tinha que aprender com elas, e depois seguiu seu rumo, a pessoa também, e assim é a vida. esses são os dados lançados para estes tipos de relações. Muito fácil, nos dias de hoje, coisificar as amizades, enjaular uma conversa sem pretensões maiores entre dois indivíduos, em uma relação de trocas, de perdas e ganhos. É o que nos manda o Capitalismo: o que importa é você, não o outro. Sugue o que tem sugar, depois siga em frente.

E com isso, cometemos o crime maior de uima alma, que é perder a ternura. Sim, pois quando se perde esse calor interior, as maiores barbaridades são perdoadas, em prol de um ganho que pode ou não ser físico, e que nos fim das contas não serve de nada, pois de que vale ganhar o mundo e perder a alma? Por isso, eu afirmo, contra a corrente, contra o que nos dizem as vozes das ruas: Não esqueçam dos seus amigos. Não esqueçam dos que lhes aquecem o coração. Deste texto, eu lhes grito amigos: Um dia estaremos juntos novamente, e riremos, e choraremos, e não esqueceremos. Nunca esqueceremos. 



sexta-feira, 22 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: O sol se põe vermelho, como o sangue, e completamente despercebido




(Agradecimentos à amiga Tamyris pela frase que nos deu o título e a foto de hoje)

Existe uma certa libertação em não se ver mais a TV por um tempo, especialmente nesses dias tão complicados. era algo que eu fazia de uma forma um tanto religiosa: ligar a Tv em algum momento do dia, buscando entender quais os próximos passos a serem evitados. Aliás, isso é algo que tem definido nossos dias, não planejar fazer algo, e sim evitar fazer algo. Uma vida baseada em negações.

Mas eu falava da TV, e de fato temos feito muito isso aqui em casa, simplesmente não ver mais as notícias. Algumas pessoas poderiam acusar-nos de estar tentando tapar o sol com a peneira, afinal, de que adiantat evitar saber de uma determinada coisa, se ela nos cerca em toda sas interações ao redor? Contudo, é por isso mesmo que temos evitado os telejornais; simplesmente, as notícias são tão intensas, que acabam chegando ao nosso conhecimento de uma forma ou de outra. Impossível seria não chegarem, não é mesmo?

O que temos feito então? Ah, uma série de coisas. Compramos um jogo de tabuleiro de  detetive, e jogamos ele todo Sábado. Aline faz duas xícaras de capuccino, botamos um jazz misterioso, e jogamos nosso joguinho (Soctland Yard:Máquina do Tempo, para os interessados). Depois disso, assistimos alguma série ou filme policial: temos nos absorvido em séries com investigações esses dias, não sei dizer por que.

Já em nossas atividades sozinhos, Aline de vez em quando assiste uma série no Netflix que lhe interesse (em geral algo em espanhol); eu costumo ler algo ou jogar um jogo de aventura no velho laptop. Tenho recuperado meu prazer nos velhos point-and-click possíveis de se jogar um em pobre notebook que já foi molhado, jogado no chão, e que perdeu as teclas de digitação. Buscamos fazer coisas sozinhos, para visitar nossas mentes em paz. Eu acho que se você não der tempo a sua parceira para ela ser ela mesma, você está perdendo a melhor coisa de se ter alguém consigo, que são as descobertas do dia-a-dia.

Além disso tudo, gostamos de sentar e ouvir músicas, e pensar... por vezes, a musica guia nossos pensamentos, e posso ver minha esposa olhando para dentro de si, lembrado algo bom, talvez, ou mesmo apenas sentindo o ritmo. Quanto a mim, também faço isso, mas sempre me vejo olhando para a noite (ou quase noite) lá fora, e vejo que ignorei o céu por tanto tempo, que ele me parece algo novo agora, toda vez que o observo nesta quarentena. E com a música tocando ao meu redor, me ponho a observar lá fora, e sonho com a pintura do que vejo, e que jamais existirá.

sábado, 16 de maio de 2020

Visões do Futuro: Lázaro (2)





A seguir, uma visão do futuro pós-pandemia. Não é otimista. Estudar a natureza huamna através da História tornou o otimismo em mudanças tão essenciais, algo fantasioso demais para este humilde professor e escriba.
Quem quiser ver a parte 1 desta história, favor ler "Lázaro", nos arquivos deste blog. 


Ontem reabriram a capelinha aqui do cemitério São Judas. Eu já esperava isso, depois que toda a pandemia, passasse mas na verdade achava que iam fazer isso muito antes do que aconteceu. No fim, foram mais de três meses até poderem reabrir tudo, e mesmo assim as pessoas não frequentam mais ali como faziam antes. Acho que os enterros rápidos acabaram meio que virando rotina entre todo mundo. Espero que não por muito tempo, me sinto mal com isso. Parece um desrespeito desnecessário com o corpo agora. Por outro lado, quem sou eu pra dizer alguma coisa?

A maior demora foi conseguirem a chave da capelinha. Ela tinha ficado, por algum motivo, com o Tobias, mas ele morreu logo pelo pico da doença em meados de Junho, Julho. Tinha levado a chave para casa, e aí depois da morte dele alguém mandou todas as coisas que ele tinha numa caixa, de volta para Recife, com a família dele. Tiveram que entrar em contato, a porta da capelinha era muito antiga, difícil mandar fazer uma cópia a essa alturas das coisas. Alguém sugeriu arrombar e depois consertar a porta: e cadê a coragem pra isso? Mesmo em tempos que nem esses, ainda se tem temor a Deus na terra. Na verdade, acho que até mais do que antes, se duvidar.
Tobias foi o primeiro, mas perdi muitos colegas de profissão nos dias cinzentos da pandemia. Foram bem uns 3; 4, se contar o Mateus, que se demitiu agoniado, com medo de ser o próximo a falecer. 

Saiu dizendo que o cemitério era amaldiçoado, que todo mundo que tava ali ia partir em breve. Eu não culpo ele; naqueles dias, as coisas estavam parecendo todas carregadas de maldição mesmo. Até eu fiquei doente, uma pessoa que não se lembrava da última vez que tinha gripado. Pensei que não ia conseguir sair daquela; estava fraco demais para qualquer coisa, 7 dias acamado, delirando em febre. Minha esposa deixava a comida na porta do quarto e chorava da sala, baixinho, mas eu ouvia. No alto da noite, eu vi o rosto de minha mãe no escuro; senti a rpesença de meu pai; ouvi a voz de meu filho, que foi embora daqui ainda pequenino, sem conhecer direito esse vale de lágrimas.
No fim, não foi dessa vez. E voltei para o trabalho algum tempo depois, até hoje com o peito um pouco pior, como se faltasse um pedaço do meu fôlego nas lidas do dia. Quando eu voltei, as coisas ainda estavam brabas, mais ou menos 50 enterros por dia. Mas estavam melhores que quando tive a folga forçada, quando estávamos fazendo 75 enterros por dia. Normalmente eram 20, 30 no máximo. 

Difícil dizer que eram bons tempos : morte nunca é bom (nem é ruim: simplesmente é). Mas com certeza eram momentos menos pesados, em todos os aspectos.
Agora, quando saímos, a máscara é item obrigatório. A doença ainda não sumiu, ainda está por aí, em algum lugar. Pelo menos é assim que está a nossa cabeça; todos nos olhamos com medo ainda, as mortes ainda frescas em nossa mente. Muitas propagandas dizendo que o pior já passou, que o mundo normal está de volta, mas aonde? Não vejo em lugar nenhum. Muito menos nos ônibus, onde cada tossida é encarada com medo e raiva.

Chego no cemitério e os enterros são rápidos, ainda. Mais que as vidas, a doença matou o coração das pessoas, e botou medo no lugar. Eles vem, olham rapido, pedem pra gente enterrar logo, o quanto antes melhor. Não todos, mas um bom número, que me faz pensar, lembrar que eu via algumas pessoas no ônibus, quando eu voltava do trabalho naquelas dias doentes, dizendo que agora o mundo ia ficar mais gentil, mais humano. Sinto vontade de rir, mas não consigo. Acho que em parte, eles estão certos mesmo: o que que tem de mais humano que esse medo assim, além da razão, além do amor?

Quando isso acontece, restou para nós tentar dar um respeito pros corpos. Então enterramos logo, e paramos um pouco depois do serviço concluído. E ninguém sabe nem nós contaremos nunca, mas eu sei que estamos tentando pensar em uma coisa boa, no coração. Não palavras, só uma imagem às vezes, ou um sentimento bom, que às vezes é melhor que um monte de palavras né?

O mundo não acabou, ainda estamos aqui. Eu e quem sobrou aqui no São Judas. Tem gente que tem medo de nós, outros que chamam a gente de herói, porque aguentamos o tranco mais duro do corona. Eu não sei dizer quem está certo. Tudo que sei é que, quando durmo à noite, sonho com este espaço todo aqui, sem covas nem mortos, só as árvores se espalhando ao longe, e um verde sem fim balançado pelo vento de uma tarde quente. E sei que isso deve querer dizer algo. Mas não sei exatamente o que.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: I am the Cheese



Então, hoje eu fui buscar um queijo no portão do condomínio. Nada muito peculiar: por causa dos mercados operando com baixa rotatividade de produtos (afinal, a pandemia não é exatamente um grande impulsionador de negócios). Então, alguns  vendedores entram em contato com os síndicos de condomínios, na esperança de vender produtos para os moradores. Muitos conseguem: tenho visto anúncios de horti-fruti, máscaras e até mesmo produtos de limpeza, tudo vendido perto da área de carga e descarga.

Digo vendido, mas na verdade é mais entregue - o carro do vendedor entra no condomínio, abre seu porta-malas, e apressadamente vai entregando e recebendo o pagamento de seu produto das mãos igualmene apressadas dos condôminos. Não tínhamos comprado nada assim anteriormente, somente visto os avisos dados pela síndica; mas dessa vez, sentimos a vontade de comprar um bom queijo, e aventuramos encomendar e ir buscar no dia estipulado.

Eis que chegou o dia de buscar o queijo. Como de costume, me preparei para a saída: camisa, calça jeans, sapatos, máscara na cara. Me despedi de minha esposa com um beijo de olhares, e desci pelo elevador. Quando chego no portão encontro o que não queria: uma fila. Aparentemente, o vendedor se atrapalhou um pouco, e foi necessário organizar os clientes nessa fila.

Foi quando

a ansiedade

bateu

então comecei a contar de um a 10, mas eu estava nervosos, então eu basicamente contava até 3, e acrescentava mil, porque se você contar com mil é mais ou menos o tempo de um segundo e lá estava eu 1 mil 2 mil 3 mil, e entre cada um de nós havia espaço de mais de 3 braços, e nem eramos tantos assim mas tudo o que eu pensava era, estou aqui embaixo e queria estar lá em cima, e se ess apessoa ali da frente tem covid, como eu fico? O que eu faço? meu Deus por que tanta demora, 1 mil 2 mil 3 mil, e bem nessa hora entraram várias pessoas pelo portão dos pedestres, e passaram próximo a mim, e meu Deus e se essas pessoas tem Covid? 1 mil 2 mil 3 mil, e então andaram mais duas pessoas e a fila anodu, e lá na frente um senhor de idade tirou a máscara que usava pra provar um pedaço de queijo, que droga é essa, melhor nem usar então né amigo? 1 mil 2 mil 3 mil, finalmente chegou minha vez e o vendedor se desculpou mas não tinha trazido o pão de queijo e o salame que eu tinha encomendado, pode ser lombo? eu falei sim, por favor, me dê logo, e ele, se quiser eu trago o pão de queijo na sexta feira, e eu disse, não por favor, só me dê um biscoito doce, porque minha esposa adora doces, e me peguei pensando e se eu ficar doente aqui? E se ela ficar sozinha em casa? lembrei de tantos casais separados, e nesse momento o pensamento foi, DEUS NÂO QUERO MORRER POR CAUSA DE UM QUEIJO! Finalmente, peguei o queijo provolone, o lombo e o biscoito de goiabada que eu comprei, e zarpei para casa

Diminuindo

por fim

meu ritmo.

Cheguei em casa exausto, como se tivesse corrido uma maratona. entrei em casa, me despi tal qual tivese vindo de um lugar radiotivo, enquanto minha esposa apreensiva perguntava:

- Está tudo bem?

- Mais ou menos, só preciso tirar essa roupa e ir tomar banho.

Foi o que fiz, e ligando o chuveiro quente, lavei o corpo da adrenalina e me senti boiando, feliz, na segurança do lar.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: A comentarista ao lado



Esses dias, você vai mexendo na TV e fatalmente não tem mais nada passando, ou pelo menos nada que você queira realmente assistir. Reprise de novela? Passo. Série sobre as pandemis na história? Interessante, mas estou buscando me desligar um pouco, não me informar sobre as desgraças. E que tal o telejornal? Misericórdia, agora não!

Assim foi neste Domingo passado: plena 21:30 da noite e lá estávamos nós, eu e minha querida esposa Aline, jogados no sofá em completa derrota, zapeando pela Tv em busca de algo que pudesse nos distrair um pouco antes de dormir. Isso aliás, é algo que eu recomendo muito: nunca vá deitar com a cabeça pensando em problemas do mundo, ainda mais nos dias pandêmicos que vivemos. Buscar uma besteira pra aliviar a mente é algo essencial para sua sobrevivência psicológica.

Pois assim estávamos, quando de repente me vi parado num canal que passava a lendária partida Corinthians X Santos de 1974, o último clássico que Pelé jogou, onde o Santos perdeu de 1 a 0, gol de Rivelino. Surpresos com meu conhecimento a respeito? Pois aprendi tudo ontem mesmo: os comentaristas do programa (chamado, a saber, Mesa Redonda, na Gazeta) fizeram o favor de me informar diversas vezes a respeito. Por que parei ali naquele canal, não sei dizer, até porque eu nunca fui um fissurado em futebol. Ao contrário, eu costumo evitar partidas de futebol na TV, elas me causam um tédio sem fim.

O que teria feito eu parar naquele canal, e assistir os melhores momentos daquela partida específica? Talvez a magia do futebol-arte de Pelé e Rivelino se degladiando ali, naquelas imagens de colorido derretido dos anos 70?  Não sei se um dia saberei, talvez seja um dos grandes mistérios que carregarei pelos tempos, ou pelo menos até a próxima coisa que tomará minha mente. O que sei é que em dado momento, houve um impedimento na partida e eu comentei, do alto da minha ignorância, o que eu achava que tinha acontecido ali (completamente equivocado, diga-se). Foi quando ouvi a voz ao meu lado dizer:

- Não foi nada disso. Impedimento é quando o jogador chuta a bola pro outro jogador no campo de ataque, e naquele momento não tem um jogador do time oposto na mesma linha.

- O que?

- É isso que é impedimento, uai - ela disse, e concentrou de novo no jogo.

Fiquei, confesso estupefato: não esperava que Aline soubesse tanto assim de futebol! Perguntei como ela soube disso, e aí fiquei sabendo que por assistir tantos jogos com meu cunhado, ela acabou pegando algumas regras de cabeça; "pouca coisa", ela disse, meio envergonhada; e eu com aquele misto de surpresa e orgulho característicos de quando aprendemos algo bom que nem imaginávamos sobre quem amamos

Continuamos assistindo, e pasmem, nos divertindo muito, quando de repente alguém solta um passe terrivelmente mambebe, e Aline diz:

- Que passe medíocre!

Aí meu amigos, vieram os risos, e a felicidade de dividir aquele momento com minha esposa. Os sorrisos não eram de zombaria; antes, eram de admiração por ela, pelas profundiades que ela tem em si, as quais eu quase nada explorei ainda. Meu riso era o dos sortudos, dos abençoados, pois eu tenho tanto tempo ainda para aprender sobre ela, e saber o que mais ela pode comentar, e risos a darmos com jogos de futebol antigos, e vídeos aleatórios, e séries velhas e novas.....  tudo isso aqui, em minha esposa: eis a maior aventura que eu já tive o prazer de viver, que continuo vivendo, e que viverei muitos anos mais.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Gente merece existir em prosa


Recentemente eu vi no facebook um link chamado "Inumeráveis" e fiquei tocado pelo que ele dizia: trata-se de um programa que mostra os nomes por trás dos números do COVID-19. As pessoas que se foram, tristemente, fora desse vale de lágrimas cada vez mais intensas.

Na verdade, eu acho que tocado é uma palavra muito fraca para o que eu senti. Neste momento, tendo o site em uma aba aberta ao lado deste singelo blog, eu me sinto... sem palavras. A sensação que me vem ao ler ali é somente possível de descrever quando uso imagens; um vendaval correndo solene  pelo campo em silêncio. Sem pássaros, sem sons, somente o vento a soprar.

Eu li esse site bastante. Há tantos nomes, é muito difícil seguir todos. Há muitos sonhos ali, interompidos, sonhos novos e antigos. Não sejamos aqui como o cruel inimigo no poder, que menospreza os mais velhos e os sacrifica abertamente ao Deus Mercado:  todos podem sonhar, idosos e jovens. E todos tiveram seus sonhos, suas vidas, ceifadas cruelmente, antes da hora, antes do combinado.

Penso neles, essa noite. E em Flávio Migliaccio, vítima não da Covid mas desses tempos péssimos. Em tantas pessoas, sofrendo sem leitos, enquanto idiotas furam quarentenas só para fazer festas e curtir a vida. Enquanto o Presidente Bolsonaro comemora tal qual uma besta fera em frente ao Palácio do Planalto, o apoio de imbecis iguais a ele, enquanto as pessoas no país morrem, sem ninguém para enxugar suas lágrimas finais, porque nem chegar perto de nossos moribundos podemos.   

Todas essas pessoas, todas. Agora são apenas memórias nas mentes de seus entes queridos, e de quem os respeitava e amava. Nunca se morre enquanto não esquecermos o nome da pessoa: que elas vivam então, se não para sempre, um pouco mais, e que esse site ajude-nos a mantê-las vivas, e fortes. Que elas nos ajudem a superar essa noite densa. Porque é tudo tão escuro, meu Deus. Tão escuro. Precisamos de um pouco de luz aqui.







segunda-feira, 4 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Nostos

Fonte: https://rafaelneko.tumblr.com/post/55140600217/sekai-ninja-sen-jiraiya-fanart

Não sei se vocês sabem, mas a rede Bandeirantes, no alto de sua sabedoria ou talvez apenas buscando cobrir um horário um pouco vazio nesses dias pandêmicos e cinzas, resolveu voltar a exibir  Jaspion, Jiraya e Changeman, nomes que eu tenho certeza que alguns leitores deste blog abandonado só ouviram falar ao longe, por alto, talvez quando um irmão mais velho (ou mesmo um pai, vai saber) citava saudoso os programas que gostava de ver quando jovem.

Eu entendo, é claro: o tempo, dizia Cazuza, não pára, e os programas que muitos tem como queridos de suas infâncias são muitas vezes radicalmente diferentes do que fãs de tokusatu (O nome dessas séries cheia de japoneses fantasiados pulando de um lado pro outro, para quem não sabe). Veja você, a minha esposa tem um conhecimento enciclopédico dos desenhos e programas infantis da TV Cultura durante todos os anos 90, às vezes lembrando com carinho coisas que eu nem sequer me lembro de que existiam - e ela só tem dois anos a menos que eu! Se duas pessoas da mesma geração conseguem ter uma diferença tão grande de nostalgia com programs infantis, imagino que esse abismo seja ainda maior entre gerações bem diferentes. 

Ainda assim, creio que todos vão entender o que é sentar em frente à TV e voltar no tempo. Sim, prezados e prezadas, porque é isso que aconteceu hoje quando finalmente revi essas séries, sentado na cama, tomando café com a minha esposa ao lado. Minto, talvez tenha sido melhor que antes: agora eu tinha uma companhia com quem comentar, sorrir e brincar a respeito da tosquice rolando aberta nas séries, o que tornou tudo ainda mais especial. Cabelos mullet,(d)efeitos especiais, monstros de borracha... Eram séries infantis, claro.Mais que realismo, eu creio que a buscar era mostrar um pouco de aventura e fantasia para as crianças japonesas, com as brasileiras por tabela   

Talvez por isso elas sejam até hoje tão charmosas. O ar é meio de fábula: há sempre uma história que termina dentro do próprio episódio, e apresenta uma moral ao fim. O herói sempre vence - mas nem sempre sua vitória é necessariamente doce, ou todos necessaiamente terminam felizes. Mais do que esconder as coisas ruins de sua audiência , Jiraya, Jaspion e outros mostram-nas de uma forma que ele possa entender, e eu acho que isso é a maior forma de respeito possível com um público infanto-juvenil. 

É esse tom que me faz sentar ainda hoje e assistir, é claro; mas confesso que uma grande parte de mim também assiste, porque quer reviver por uns poucos momentos, as glórias de ser uma criança e não ter que me preocupar com tantas mortes, tanto medo e terror. Por breves 20, 40 minutos, sou novamente um pequeno nerd olhando atento para a tela, acreditando nos heróis que ali estavam, e aprendendo como é que se poderia, afinal, construir um mundo mais forte, justo,  e amável.

sábado, 2 de maio de 2020

Retratos na Cidade Pandêmica: Lázaro

Fonte: paintingvalley.com

"Esses dias um político desses falou que os caixões do corona estavam vazios, que a gente estava enterrando sem corpo dentro só pra aumentar os números lá nas estatísticas e tudo mais. Então a última família que veio por aqui nos forçou a abrir tudo na frente deles, mesmo que fosse contra o regulamento. Tentei falar que não era uma boa ideia, além da doença, o corpo tinha passado um tempo sem preservação, já estava avançado o estado.... não teve jeito, um deles até me ameaçou, disse que se eu não abrisse ia ter que ser ele a fazer isso, e eu não ia gostar disso. Não gostei do tom dele, mas achei melhor fazer tudo logo, terminar com isso, para poder seguir com os outros corpos ali. Haviam muitos naquele dia. Esses dias, sempre tem muitos.

Então, abrimos tudo e o olhar da moça, acho que era filha do falecido, foi terrível, mas eu já esperava. Porque quando uma pessoa morre, você se esforça para guardar na cabeça a última imagem que tinha dela, que provavelmente é algo feliz, ou sei lá, um momento de força dela contra alguma coisa. Normalmente a doença. Mas quando a gente abriu o caixão, a pessoa viu a verdade. Não só que era mesmo o pai dela ali, mas o que a morte fez com aquele corpo, sabe, toda a decadência. Então vieram as lágrimas, e o mesmo homem que me ameaçou disse que ia processar o cemitério por descaso com os parentes. Não entendi, mas também deixei de me importar com essas coisas a muito tempo. Desde antes da pandemia mesmo, eu acho. Não tem espaço para coisas mesquinhas para quem trabalha com a morte.

Nem sempre é assim, claro. Tem o pessoal que entende e respeita a situação, e olha só de longe, tristes. Dá vontade de dar uma palavra de consolo, mas não sei o que dizer. Nunca sei o que dizer. Quando eu comecei nesse ramo, eu tinha um caderninho com umas frases de consolo  para as famílias, mas com o tempo eu percebi que não adiantava nada. A morte é real demais para ser resumida em umas palavras; a sensação de perda é forte demais para falar qualquer coisa. Acho que deve ser por isso que tanta gente nega que aconteceu, ou vai pra farra depois de uma coisa dessas. É melhor fugir do fim que encarar, né? Nao julgo. Deixei de julgar há muito, muito tempo.

Apesar disso, tem sempre a dança toda da despedida, né, os ritos que a gente tem que fazer para começar a superar. Mas nem isso tá podendo acontecer, sabe, mesmo os corpos que são suspeita de Corona a gente tem que enterrar com todos os cuidados, até mesmo a capelinha do cemitério teve que fechar, pra evitar aglomeração. E lá vem cinco pessoas enterrar o morto deles, e nem podem olhar por corpo direito, nem podem chorar em cima do corpo. Pra eles deve ser assim como se a pessoa tivesse simplesmente sofrido e sumido do mundo, virado vento.

Olho para eles e penso em como minha família ia sofrer com o meu caso, com a minha partida desse mundo. Não, falar a verdade para você, nem penso nisso não. Só organizo as coisas, e faço as covas, tranquilo. Tem que ter tranquilidade nessas horas, até para tentar passar algum conforto mesmo que à distância para as famílias lá né? E aí, chegando em casa é um se banhar de álcool, esfregar bem, e rezar, que é o que me resta. Não tenho medo. Os mortos vem, eu enterro eles. Ainda estou aqui."


PARA LER: https://epoca.globo.com/sociedade/a-escalada-dos-enterros-das-vitimas-suspeitas-de-coronavirus-no-maior-cemiterio-de-sp-24331182

https://g1.globo.com/sp/mogi-das-cruzes-suzano/noticia/2020/04/22/sepultamentos-rapidos-e-compaixao-pelas-familias-sao-rotina-para-coveiros-durante-pandemia-nao-podemos-nos-deixar-abater.ghtml

https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,estou-exposto-e-sei-que-corro-risco-afirma-coveiro,70003268200




quinta-feira, 30 de abril de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: The future belongs to the children


Tem sido difícil ver pontos positivos esses dias, esse ano de 2020 particularmente. Conversei esses dias com uma aluna de inglês que pretendo tatuar algo no braço, após toda essa morte e desespero que assolam nossas ruas e vidas, alguma coisa dizendo "2020: eu sobrevivi". Ou algo igualmente cafona. Acho que ganhamos o direito de ser cafona após sobreviver a uma pandemia, não? Com tanto pesar ao nosso redor, a cafonice é um sinal de sobrevivência, creio.

E apesar de tudo isso, também é 2020  um ano de nascimentos, de renovações de certa forma. Em fevereiro, nasceu o filho de uma amiga nossa aqui de casa. Seu nome é Martín, um portuguesinho branquelo fofo e lindo como nunca tinha visto, os olhos azuis curiosos que tudo fitam ao seu redor. Dia nove de Abril, meu sobrinho Bernardo completou um ano, e tem sido uma felicidade vê-lo crescer, mesmo que de longe. Ele gosta de ajudar a mãe a cozinhar coisinhas gostosas . Esses dias, acreditem ou não, ele ajudou a fazer um cupcake de laranja! Para este tio bajulador, que também ama coisas de cozinha, esta foi provavelmente a coisa mais emocionante que eu vi ele fazer, e não puder deixar de derramar a proverbial lágrima de orgulho.

E agora, vejam vocês, nasce meu outro sobrinho, Lee Hesse, em terras canadenses, tão distante de nós mas tão próximo de nosso coração. O rosto dele é de uma mistura poética entre a mãe, luana Hesse, e o pai, Freddie Hesse, meu irmão que partiu do Brasil em busca de sonhos e realizações (o que o torna, mutos diriam, o irmão mais sábio de nós). Acompanhei nervoso o desenvolver do nascimento dele neste dia de hoje; somente o santo dos professores deve saber como consegui dar uma manhã toda de aulas sem sequer pestanejar em momento algum. E quando ele nasceu, e vimos (eu e Aline aqui em casa e meus pais lá em Belém do Pará) a face do novo Hesse Garcia neste mundo sofrido de meu Deus, confesso que a emoção bateu forte.

Essas crianças, esses serezinhos humanso, são o futuro que esta nascendo. Não posso dizer que eles trazem, consigo, a promessa de dias melhores; seria uma cobrança absruda em cima de bebês que nada podem fazer, exceto conquistar nossos corações. No entanto.... eles são provas da existência de um futuro. Muitos podem dizer que eles são condenados a viver nesse mundo absurdo: eu digo que eles devem nos servir de inspiração sólida, viva, para a construção de um mundo melhor, das cinzas deste velho e patético mundo que permite homens como Bolsonaro e seus capachos viverem e troçarem do sofrimento alheio.

Em um mundo onde a morte impera, esses bebês desafiam-nos a crer na vida. Não podemos falhar com eles: há ainda milhas a seguir antes de dormimos. Que possamos arrumar a casa  e perrmitir que eles possam conseguis sonhar também, e não apenas sobreviver. Que sejam eles as pessoas que nos trarão esperança no outro, no vizinho ao lado.

Seja bem vindo, Lee Hesse. Titio te ama, sempre te amou, e sempre vai te amar.


PARA OUVIR: The future belongs to the children

terça-feira, 28 de abril de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Salvação virtual


Dizem que as pessoas tem suas formas de superação de sensações ruins das mais diferentes formas. Alguns gostam de música clássica, concertos de piano, etc. Outros buscam conforto em filmes de ação, dramas, séries de Netflix ou Amazon Prime....  Livros também são uma boa opção, ao menos para exercitar a mente um pouco (aqui também podemos apresentar como opção as cruzadinhas, eternas companheiras dos entendiados)

De minha parte faço tudo isso, e tenho dois gêneros especiais aos quais me devoto: o horror e o suspense. Já ouço alguns dizendo: mas que disparate, Alfredo! Por que não vê uma coisa mais leve, pra sorrir e relaxar? O que sua esposa (que caso vocês não saibam, tem verdadeiro pavor de filmes de horror, mas ama filmes de suspense) pensa disso? Você não fica ansioso além da conta, ainda mais com tudo isso que tem acontecido ao seu redor?

E lhes digo que não, na verdade me sinto bem relaxado. Primeiro porque acredito que ao me imergir nestes tipos de história, eu sinto a catarse de poder lidar com o horror lá de fora. Naquele momento, não é mais o meu foco o medo do dia-a-dia, e sim um zumbi ou monstro bobo na tela da TV. Ali, vendo ou jogando ou lendo, eu controlo aquela ansiedade, torno-a parte de mim, e posso delsigá-la a qualquer momento. Não estou à mercê do medo; ao contrário, sou um participante ativo e capaz de exercer minhas ações neste mundo. Só preciso entender as regras - algo que é bem mais fácil em mundos de horror e suspense que no mundo real.

Essa catarse deve vir para todos em algum momento. e em diferentes formas: alguns talvez busquem chorar com uma canção triste - e isso não é ruim, chorar na verdade faz bem para a alma, é um curador de corações feridos. Outros talvez busquem ação para agitar seus corações, dar-lhes forças contra o dia que tenta destruí-los - e isso também é válido, nestes tempos sinistros, tudo que nos der um pouco de forças a mais é mais do que bem-vindo. Tudo que puder nos salvar, que seja a aprtir desse momento algo sagrado, ao menos para você mesmo. Não recue à zombarias, arme seu melhor controle de videogame e vá lá matar aqueles monstros. Isso não é esquecer do mundo: é higienizar sua mente para as batalhas crueis do mundo real.