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domingo, 28 de junho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Aberturas e Fechamentos

Fonte: Site metropoles.com

O tema atual é a reabertura pós-pandemia. E o que podemos falar a respeito disso? Nada de muito forte, visto que não estamos numa situação pós-pandemia. Ao contrário, o Covid-19 nunca terminou por aqui, ou mesmo diminuiu tão sensivelmente assim. E  no entanto, as pessoas parecem não ter entendido que ela continua, e saem felizes das casas, cantando alegremente um recomeço que não é real.

O Brasil está terminando um isolamento que nunca começou de fato. E falo isso não pelos pobres trabalhadores essenciais, e sim pelos safados que fazem festas pelas horas da noite, celebrando o fato de poderem fazer festas quando muitos se isolam e temem. E eu gostaria de dizer que são apenas os seguidores de Bolsonaro e sua trupe de calhordas - mas eu teria então de admitir que a maior parte das pessoas é seguidora dele, e isso é um prognóstico dos piores.

Não, infelizmente a verdade é que as pessoas só fecharam-se em si mesmas, e não importa mais o próximo. a maioria das pessoas está ali, e observa sua família, e vê que nada aconteceu: este é o momento que o pensamento vem: se nada aconteceu comigo, a doença não existe. Não tenho por que me cuidar, é tudo uma invenção. Ou então, é algo mais visceral mesmo, a ideia de que você é especial, você é o abençoado. Todas as mais de 57 mil pessoas mortas, essas não tinham Deus no coração, mas você, que dorme no culto, que chifra a esposa, que rouba do mercado sem precisar; você sim é o abençoado. Você é o imune da Pandemia.

A reabertura da sociedade no meio de uma pandemia só é possível graças a um fechamento do coração das pessoas - pelo menos, das pessoas que estão no comando desta mesma sociedade. Mas não só delas: aqueles que festejam, que não seguem as questões de segurança BÁSICAS para evitar a disseminação, estes são coniventes, e portanto culpados também. E quem mais vai sofrer, ao fim de tudo, é a parte mais frágil. Rezemos pelo melhor, porque é a única coisa que nos resta. 


terça-feira, 2 de junho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: O horror nosso de cada dia



O tema do desconhecido é algo muito caro a uma série de autores e diretores de horror e terror. O que pode ter mais potencial de ser apavorante do que, especificamente, não saber o que há em um quarto escuro desconhecido, onde sua mente preenche o vazio com formas e ares sinistros? E neste momento, tornamos o horror o OUTRO, o avatar de nossos males, e decididamente fora de nós.  Porém, eu creio que podemos tentar entender isso muito além deste foco. Ou talvez, o melhor termo seja: entender isso muito mais próximo de nós do que se imagina, exatamente. 

A sensação do desconhecido como matéria-prima do horror é algo que muitos talentosos artistas usaram. Stephen King é muito conhecido por gostar de propor a sugestão dos terrores, antes de lançar mão de cenas mais abertas, grotescas. Num lado mais chegado ao suspense, Hitchcock era um artista que trabalhava nas sutilezas, no que a audiência esperava que acontecesse, sem necessariamente mostrar  vísceras e sangue explícitos na tela. De fato, Psicose é um dos poucos trabalhos dele em que há uma demonstração mais explícita de sangue em tela. Há também outros autores, mais famosos porém com tema smais cósmicos, que não creio que se enciaxem aqui por estar me atendo a um medo mais próximo, mais em nossa vizinhança humana.

De fato, eu escolhi estes dois auteurs, porque creio que eles demonstram especificamente o que acho ser o fator central de nosso tema de hoje: o Inferno ser os Outros. Ou talvez, o Horror ser o outro. Tanto King quanto Hitchcock , embora cada um com suas especificidades, se esforçam em mostrar o lado oculto do humano, mesmo quando há fatores outros que tornam o fio condutor da história mais  complexo, ou mais sobrenatural (no caso de King). Esse caminho, inclusive, é algo muito usado por outros artistas: com certeza é mais fácil criar um monstro e usá-lo como símbolo de algo de podre dentro da própria alma humana, que enfrentar a podridão em si. 

No entanto, aqui estamos. Olhamos para fora, e vemos o horror bem ali. e não se trata de um monstro, ou alienígenas, ou espíritos. O nosso horror é um ministro que diz odiar o termo povos indígenas. É um presidente que se recusa a demonstrar qualquer senso de humanidade pelos mortos do Covid, e que prefere acusar a doença de ser um esquema político. Nem tão longe: é um parente que diz concordar com tudo que o presdiente fala, inclusive sobre exterminar oposição, associar negros a gado de corte, diminuir mulheres como merecedoras ou não de serem estupradas. Esses são nossos monstros particulares, e eles venceram.  Talvez nem tanto Hitchcock( que se preocupava mais com thrillers que com o horror, verdade seja dita), mas Stephen King certamente entendeu isso melhor que ninguém: nunca foram os monstros sobrenaturais o nosso problema, e sim os humanos. Sempre os humanos.

E com isso, esse texto passará, e milhares morrerão por nada, exceto por dinheiro e um lucro maior ao fim do ano. Morrerão protestando por direitos enquanto são massacrados por um estado que não liga para eles. Morrerão sendo admoestados por serem agressivos, por não quererem diálogo, quando tantas oportunidades já foram armadas antes, apenas para serem encaradas com desprezo e escárnio. A dança da morte continua. E até esse crônica é apenas uma estupidez a ser lançada ao vento, ao nada. 

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: O sol se põe vermelho, como o sangue, e completamente despercebido




(Agradecimentos à amiga Tamyris pela frase que nos deu o título e a foto de hoje)

Existe uma certa libertação em não se ver mais a TV por um tempo, especialmente nesses dias tão complicados. era algo que eu fazia de uma forma um tanto religiosa: ligar a Tv em algum momento do dia, buscando entender quais os próximos passos a serem evitados. Aliás, isso é algo que tem definido nossos dias, não planejar fazer algo, e sim evitar fazer algo. Uma vida baseada em negações.

Mas eu falava da TV, e de fato temos feito muito isso aqui em casa, simplesmente não ver mais as notícias. Algumas pessoas poderiam acusar-nos de estar tentando tapar o sol com a peneira, afinal, de que adiantat evitar saber de uma determinada coisa, se ela nos cerca em toda sas interações ao redor? Contudo, é por isso mesmo que temos evitado os telejornais; simplesmente, as notícias são tão intensas, que acabam chegando ao nosso conhecimento de uma forma ou de outra. Impossível seria não chegarem, não é mesmo?

O que temos feito então? Ah, uma série de coisas. Compramos um jogo de tabuleiro de  detetive, e jogamos ele todo Sábado. Aline faz duas xícaras de capuccino, botamos um jazz misterioso, e jogamos nosso joguinho (Soctland Yard:Máquina do Tempo, para os interessados). Depois disso, assistimos alguma série ou filme policial: temos nos absorvido em séries com investigações esses dias, não sei dizer por que.

Já em nossas atividades sozinhos, Aline de vez em quando assiste uma série no Netflix que lhe interesse (em geral algo em espanhol); eu costumo ler algo ou jogar um jogo de aventura no velho laptop. Tenho recuperado meu prazer nos velhos point-and-click possíveis de se jogar um em pobre notebook que já foi molhado, jogado no chão, e que perdeu as teclas de digitação. Buscamos fazer coisas sozinhos, para visitar nossas mentes em paz. Eu acho que se você não der tempo a sua parceira para ela ser ela mesma, você está perdendo a melhor coisa de se ter alguém consigo, que são as descobertas do dia-a-dia.

Além disso tudo, gostamos de sentar e ouvir músicas, e pensar... por vezes, a musica guia nossos pensamentos, e posso ver minha esposa olhando para dentro de si, lembrado algo bom, talvez, ou mesmo apenas sentindo o ritmo. Quanto a mim, também faço isso, mas sempre me vejo olhando para a noite (ou quase noite) lá fora, e vejo que ignorei o céu por tanto tempo, que ele me parece algo novo agora, toda vez que o observo nesta quarentena. E com a música tocando ao meu redor, me ponho a observar lá fora, e sonho com a pintura do que vejo, e que jamais existirá.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Gente merece existir em prosa


Recentemente eu vi no facebook um link chamado "Inumeráveis" e fiquei tocado pelo que ele dizia: trata-se de um programa que mostra os nomes por trás dos números do COVID-19. As pessoas que se foram, tristemente, fora desse vale de lágrimas cada vez mais intensas.

Na verdade, eu acho que tocado é uma palavra muito fraca para o que eu senti. Neste momento, tendo o site em uma aba aberta ao lado deste singelo blog, eu me sinto... sem palavras. A sensação que me vem ao ler ali é somente possível de descrever quando uso imagens; um vendaval correndo solene  pelo campo em silêncio. Sem pássaros, sem sons, somente o vento a soprar.

Eu li esse site bastante. Há tantos nomes, é muito difícil seguir todos. Há muitos sonhos ali, interompidos, sonhos novos e antigos. Não sejamos aqui como o cruel inimigo no poder, que menospreza os mais velhos e os sacrifica abertamente ao Deus Mercado:  todos podem sonhar, idosos e jovens. E todos tiveram seus sonhos, suas vidas, ceifadas cruelmente, antes da hora, antes do combinado.

Penso neles, essa noite. E em Flávio Migliaccio, vítima não da Covid mas desses tempos péssimos. Em tantas pessoas, sofrendo sem leitos, enquanto idiotas furam quarentenas só para fazer festas e curtir a vida. Enquanto o Presidente Bolsonaro comemora tal qual uma besta fera em frente ao Palácio do Planalto, o apoio de imbecis iguais a ele, enquanto as pessoas no país morrem, sem ninguém para enxugar suas lágrimas finais, porque nem chegar perto de nossos moribundos podemos.   

Todas essas pessoas, todas. Agora são apenas memórias nas mentes de seus entes queridos, e de quem os respeitava e amava. Nunca se morre enquanto não esquecermos o nome da pessoa: que elas vivam então, se não para sempre, um pouco mais, e que esse site ajude-nos a mantê-las vivas, e fortes. Que elas nos ajudem a superar essa noite densa. Porque é tudo tão escuro, meu Deus. Tão escuro. Precisamos de um pouco de luz aqui.







segunda-feira, 20 de abril de 2020

Crônicas da cidade pandêmica: O professor e Sísifo

iStock/Getty)

De segunda a sexta, eu tenho uma rotina. Acordo mais ou menos às sete horas da manhã (às vezes às 06:30), vou tomar café, organizo meu computador em cima da mesa da sala e começo a trabalhar dando aula. Sou professor de Inglês, é como eu ganho o famoso "pão de cada dia" aqui na cidade de São Paulo. Tenho uma grande sorte: porque sou professor de alunos adultos, e em sua maioria pessoas trabalhando em grandes empresas, existe uma certa cultura já incutida neles de usar o computador para chamadas virtuais. São um grupo que tem em si o costume de reuniões via Skype ou Zoom, e que por serem adultos, carregam a responsabilidade de comparecer e se esforçar em casa para avançarem na compreensão da língua inglesa.

Infelizmente,o mesmo não se pode dizer de meus colegas professores regulares, trabalhando em condições terríveis neste momento pandêmico. A profissão, verdade seja dita, nunca foi respeitada devidamente; quando não é considerada coisa de vagabundos reclamões (pelo Estado, quando buscamos nossos direitos), é endeusada como "vocação", igualando-nos a padres e certamente visando nisso o voto de pobreza dos mesmos, já que assim podem justificar para si mesmos  sem sentirem-se culpados, o porquê do salário de fome com o qual muitos professores tem de sobreviver.

Junte-se a isso, neste momento,um momento de crise na sociedade em geral, pais desesperados para que a escola tome o papel deles como educadores  para seus filhos quarentenados em casa (sendo que esse processo deveria ser uma parceria), e uma direção escolar que teme mais do que nunca perder clientes, e temos a completa recieta pro desastre. E como sempre, a carga disso tudo cai em cima dos professores regulares. São eles os que tem de fazer os alunos produzirem, são eles os responsáveis pelo sucesso ou fracasso desta empreitada em um momento que ninguém viveu antes, que ninguém sequer imaginou que iria viver.

A cada dia que trabalham os professores sofrem mais uma pressão, sem saber se perderão aulas (e portanto, dinheiro). sem saber qual a próxima problemática que será criada. "Como todos nós!", o mais cínico diria,e  ele estaria certo: como todos nós, os professores sofrem igualmente. Então por que diminuir seus esforços? Por que dizer que eles estão em melhores condições que outros trabalhadores, forçados a um home office que na verdade os suga 24 horas por dia?  Por que exigir dos professores o preparo que sabe-se que NINGUÉM teve para esses tempos?

A resposta para isso tudo é simples: falta de empatia. O mundo pandêmico surgiu, e revelou o quanto há pessoas que simplesmente observam seu próprio umbigo e se recusam a entender o sofrimento de outros, o esforço que se faz para manter um resquício de ordem e normalidade em nossos dias turbulentos. Querem tudo como antes, querem resultados sem arregaçar suas próprias mangas. Bem, isso não vai acontecer. Para sobrevivermos, precisamos todos trabalhar juntos, de mão metafórica dada. Ou vivemos e trabalhamos juntos, ou morreremos sozinhos e sufocados.




quarta-feira, 8 de abril de 2020

Crônicas da cidade pandêmica: I got you, babe

(Fonte: Getty images)
Acredito que não seja segredo para ninguém que ficar trancado em casa sem possibilidades de sair, seja uma tarefa mais difícil do que parece. Para começar, a própria probição de sair parece dar no indivíduo a vontade ainda maior de descumprir a quarentena, já que o ser humano é antes de tudo um rebelde, pelo que parece. Talvez seja isso que acomete tantos idosos que vejo andando nas ruas ainda: a certeza de que já viveram o suficiente para poderem fazer de si o que bem entenderem. É um erro que pode ser fatal, como muitos exemplos tristes tem demonstrado, mas ainda assim é algo humano, demasiadamente humano.

Resta aos que seguem rigorosamente o isolamento buscar atividades para fazer em casa, depois de cumprida a jornada home office do dia. Antes haveria uma caminhada no parque mais próximo de sua casa, ou quem sabe uma caminhada rápida para lanchar no fast-food  mais próximo, a junção máxima de exercício e recompensa errada. Isso tudo foi trocado, pelos próximos dias (meses?), pelo delivery acanhado tentando evitar a máximo o contato físico, e pela corrida rápida dentro da própria sala, de um lado pro outro - ou talvez uma volta rápida ao redor do prédio onde se mora, se tiver sorte.

Aqui em casa, as coisas tem sido um pouco mais tranquilas, quanto mais não seja porque somos um casal um tanto caseiro. De fato, a maior parte das atividade que fazíamos antes continuam as mesmas, embora algumas tenham aumentado em intensidade. Por exemplo, a completa perplexidade na idiotice do presidente no poder, um hobby nacional desde pelo menos 2019, aumentou em pelo menos 50% em força, e agora é acrescido da saudável expurgação desta raiva através de xingamentos gritados da varanda do apartamento. Apesar do que possa parecer, é uma atividade bem calorosa, com participação ativa da vizinhança. Provavelmente foi a primeira vez que eu interagi com a nossa vizinhança de uma maneira  mais lúdica e ativa.

Outras atividades menos comunitárias tem seguido também seu curso: séries, filmes, conversas ao anoitecer, músicas. Mas principalmente, e essa talvez seja a melhor de nossas ações juntos, continua também aquele momento que, sem dizer nada, seguimos para alguma janela e olhamos o céu em silêncio, e sentimos o vento (às vezes frio, às vezes cálido) da cidade. Não sei dizer exatamente o que ela pensa: as divagações de um indivíduo são um conforto privado que não devem ser esmiuçado à toa. Mas sei que também eu tenho cá os meus pensamentos, e naquele momento  isso nos basta. E sonhamos e olhamos juntos para o horizonte, longe de tudo que nos aflige, voando tranquilos com o vento que nos afaga o corpo.

PARA OUVIR: I got you Babe

PARA LER: Sopra o Vento, Sopra o vento