Mostrando postagens com marcador quarentena. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador quarentena. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 21 de julho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: 90 dias para fofocar



Além de futebol, e de reclamar da vida, o brasileiro tem como tradição nacional a fofoca. Ora, não minta para mim: com certeza você já deu aquela esticada de ouvido para tentar entender o que o vizinho estava falando mais alto. Ou então , nesses tempos modernos, procurou o perfil de uma determinada pessoa no facebook ou instagram da vida, seja porque você teve objetios românticos com essa pessoa, seja por pura e simples curiosidade.

Eu sempre advogo que a fofoca é uma consequência do impulso humano de querer saber mais. A nossa mente é faminta por conhecimento, mesmo que inútil .E saber da vida dos outros ao nosso redor é algo assim como o açúcar branco de ter conhecimento: não vai acrescentar nada à sua vida, talvez na verdade até torne sua vida pior.... mas por Deus, como é viciante!

O que nos leva a algo que eu e Aline temos feito durante esta quarentena interminável, o nosso novo êxodo hebreu no deserto da estupidez ao nosso redor. Temos assistido, de maneira quase hipnótica, o programa do TLC 90 dias para casar. Se você não conhece, procure no youtube, estou certo que vai encontrar episódios inteiros deste programa por lá, como nós dois encontramos. Ou melhor, não procure. Salve-se, leia um livro, afaste-se deste vil show de horror.

No entanto.... que divertido que é. Em 45 minutos vemos um verdadeiro zoológico humano de pessoas desesperadas por companhia, tão angustiadas com a solidão que aceitam qualquer migalha de carinho vinda de qualquer parte do mundo; e por outro lado, temos pessoas tão atormentadas em querer sair de seus países, que se sujeitam a situações por vezes humilhantes, por vezes simplesmente ridículas, tudo por um green card pros EUA, lutar pelo falido sonho americano.

Assistimos isso tanto, que eu fiquei enjoado comigo mesmo e sugeri à minha esposa que asisstissemos  algo mais construtivo, no que ela concordou. Foi aí que vimos um documentário muito interessnate sobre o Che Guevara, e aprendemos em 1 hora e 45 minutos muito mais que em 3 horas de 90 dias para casar. Contudo, se não fosse ver esse show, nós provavelmente não teríamos nos animado para assistir um documentário... então talvez de maneira indireta, o TLC tenha contribuído para o nosso conhecimento? Isso sim é escrever certo por linhas tortas!

domingo, 19 de julho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Fugere Urbis

Fonte: http://mayoorange.blogspot.com/
E de repente o velho ciclo alcança outro aspecto: a fuga pros interiores. Não que a situação esteja melhor por lá; de fato, se considerarmos São Paulo, as coisas estão indo de mal a pior. O governador recentemente disse que grande parte das cidades estavam no chamado "nível vermelho", e será necessário se organizar uma estratégia para atender as pessoas afetadas pelo Covid-19, de novo.

Se a realidade aponta para uma situação matematicamente pior nas cidades interioranas, por que o fascínio da fuga da cidade, nesses tempos difíceis? A bem da verdade, o conceito em si não é novo, mesmo em tempos mais modernos. Desde algum tempo tenho visto mais e mais pessoas buscarem uma vida "tranquila" e se mudando para lugares mais bucólicos - ou pelo menos com a fama de assim serem. Muitas dessas pessoas, de fato, fazem o movimento de retornarem para suas cidades natais, ou talvez a cidade natal de seus pais e avós. Há sempre alguma estrutura ali que os abrace, seja familiar, seja da memória.

Mas, como eu disse, o plano não é novo e remota a tempos feudais mesmo, quando da queda do Império Romano e da fuga das pessoas para interiores, refugiando-se nos feudos (que antes eram propriedades rurais das elites urbanas). O porquê naquela época era evidente : os "bárbaros" invadiam os portões de Roma, e tudo saqueavam. Era necessário buscar uma espécie de segurança entre novos muros, ou talvez um esquecimento por parte da turba invasora, que talvez se contentasse com os saques nas cidades e deixasse seguir em relativa paz os refugiados campesinos.

Não tanto a questão da segurança (que, como vimos, é bastante discútivel, pelo menos no que concerne o Corona vírus), mas muito mais pelo segundo fator, é que eu acho que as pessoas veem no campo seu refúgio ideal: a visão de que ali, longe da turba enlouquecida e sem máscara, a doença passará como uma tempestade desafortunada, e tudo mais ficará em paz, bastando apenas resistir um pouco.

Não posso deixar de manifestar minha discordância desse pensamento, mas também não posso culpar as pessoas que o tem. Pois a verdade é que até eu mesmo busco a paz em lugares diversos esses dias... e em certos dias azuis, quando olho ao horizonte a infinidade de prédios a se perder de vista em São Paulo, fecho os olhos, sinto o vento ao meu redor, e imagino um longo caminho de árvores e verde, com o vento sacudindo as folhas, numa sonata natural.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Aqui, ninguém vai pro Céu


Hoje minha mãe, uma grande professora de português e literatura, passou para seus alunos uma versão da música consagrada de Criolo, "Não existe amor em SP", com ele cantando junto com o Milton Nascimento. Uma canção belíssima, ainda mais nesse bate-bola entre dois cantores excelentes. Recomendo muito que se busque e ouça profundamente, de olhos fechados, numa sala escura.

Quanto a mim, eu já tinha ouvido essa versão antes. E a canção original também, anos atrás, em um kitnet numa rua no coração do Butantã.

Eu estava em São Paulo, sozinho, e era o primeiro inverno que eu passava de verdade. Entenda, na minha terra natal, "inverno" é mais uma questão filosófica, que física, real. A Amazônia só conhece períodos de mais ou menos chuvas, não o frio intenso, de Julho, que vem enganador com seus 17, 18 graus de manhã, e seus 2, 3 graus na madrugada. Muitos podem dizer que isso não é frio de verdade: eu posso dizer que não me importo com o que acham. Era frio para mim, e é isso que importa.

Então, eu ouvia músicas aleatórias,e encontrei "Não existe amor em SP". O Kitnet era frio e pqeueno, então o som ecoou por todo o espaço. Naquele dia, eu acho que encontrei a melhor explicação para o que eu sentia, para toda minha solidão. A música se tornou uma espécie de hino mental: eu a ouvia em minha cabeça quando pegava ônibus, quando estava andando nas ruas, quando caminhava para estudar na USP. 

Tempos depois, conheci minha esposa, e me pareceu que eu exgerava um pouco sobre como São Paulo era. Até conhecê-la, eu creio que não acreditava em pessoas que fossem, de fato, preocupdas com coisas mais suaves - pelo menos não do jeito que ela o faz. Conheci Aline e me apaixonei: e então, para mim, a música não fazia mais sentido. Existia amor em SP.

Fui um tolo, é claro. Porque Criolo não está falando de indivíduos; ele está falando da cidade em si. Da alma da cidade, do que agita a grande massa que anda nas ruas, que a faz agitar-se, agir. E a última coisa que passa pelo coração dessa massa é amor. Como pode existir amor em SP, com pessoas morrendo de frio nas ruas?  Com tantos clamando pela reabertura sem a menor preocupação com as mortes , com cuidados para evitar as mortes? Uma cidade que elegeu um prefeito que teve como atitude molhar os moradores de rua, no inverno, com jatos de mangueira?

Aqui é a cidade sem coração. Os pobres são degraus de riqueza para os ricos, ninguém sequer se importa se eles morrem ou não. Ou você acha que os números de casos de corona na região mais pobre importam para os mais ricos? Evidentemente que não, porque senão haveria um esforço maior da própria sociedade para ajudar essas pessoas. Ao contrário, elas são impulsionadas à morte - e por isso, mergulham na dança do desespero para não pensar no que se envolvem todo o dia, só para sobreviver. A classe média, na qual estou incluso, não está à salvo: somos apenas mandriões chorões, lamentando a falta de humanidade das pessoas, ou somos aspirantes a uma riqueza que amais chegará, porque compramos a ideia da meritocracia, a pior cenoura já criada para fazer cavalgar um cavalo chucro.

Está é São Paulo. Venha nos visitar, temos sanduíches, lojas, e mortos por descaso. Mas é só não olhar para eles que fica tudo bem, se duvidar dá até para fazer o selfie e editar depois o morador de rua esfomeado lá no fundo.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Elegia



Hoje, marcamos quase um milhão e meio de infectados no Brasil, e mais de sessenta mil mortes.  Pra você ter uma ideia, em 2019, morreram de homicídio neste país pouco mais de 40.000 pessoas, de acordo com os dados oficiais - e isso de uma das mortes que nós, em tese, mais nos preocupamos. E isso num ano todo: ainda estamos em Julho, acabamos de começar o segundo semestre.

Se formos considerar mortes por causas respiratórias, o principal sintoma do Covid-19, os dados vão se acumulando em emergência:  O Brasil teve um aumento de 8,15% de mortes por essa causa, de acordo com a ARPEN (Associação de Registradores de Pessoas Naturais).  Evidentemente. o principal contribuidor disso é o Corona, a despeito do que insite em acreditar o presidente Bolsonaro, quando afirma ser tudo um grande exagero da imprensa.

E no entanto, temos um culpado maior nisso tudo, ou ao menos em uma das áreas que mais afetam nossa sociedade atualmente. Pois veja, não podemos fazer nada a respeito das questões estruturais: resta-nos esperar que os nossos representantes no poder façam algo que possa nos ajudar a sobreviver a esta crise maldita, a esta peste moderna. Alguns estão ajudando, outros estão claramente atrapalhando (cofcof Bolsonarolazarento cof cof), mas é inegável que esta bola, não nos pertence.

Contudo, existe uma série de coisas que poderìamos estar fazendo melhor, e simplesmente nos recusamos a tanto. Talvez por estarmos cansados da quaretena que não acaba, talvez por puro e simples egoísmo, Muitos de nós estão vacilando nos cuidados, e digo isso com pesar no coração, pois alguns destes que vacilam eram justamente parte dos poucos que ainda se valiam de tentar respeitar a quarentena. Talvez também seja uma falsa esperança: afinal, se na Europa já estão reabrindo, porque não no brasil, esta terra que certamente já sofreu tudo que tinha de sofrer, na visão dos iludidos?

E toca haver bares disfarçados de pet-shop, para poder funcionar escondidos. Toca desativar hospitais de campnaha, na esperança que tudo jáa está acabando. Até mesmo conversa sobre retorno do campeonato carioca estão acontecendo - tudo seguindo, de acordo com as autoridades, "o máximo de proteção necessário para isso", como se  houvesse possibilidade de se proteger da doença em meio a um jogo acirrado. Não falo aqui dos trabalhadores essenciais: esses tem todo meu apoio e suporte. Falo dos que insistem em sacrificá-los, sem ao menos garantir que eles tenham o mínimo de segurança. Não à toa, o percentual de pessoas infectadas com coronavírus nos bairros pobres da cidade de São Paulo, a maior metrópole do país, é 2,5 vezes maior do que nos ricos. Ou seja, eles simplesmente não se importam se o pobre morrer: a ideia aqui é reabrir tudo, e que morram os (pobres) que tem que morrer.

E falando de morrer, essa sim é a nossa principal falha, nós, humanos, cidadãos, viventes. pois cada um desses números para nós, tornou-se apenas isso: um dado numérico. Um algo que olhamos todos os dias, e anotamos na agenda mental na nossa cabeça. Hoje 60 mil; amanhã talvez 62 mil? 63 mil? Quem pode saber? Fazemos isso, e esquecemos que cada uma dessas pessoas estava viva, tinha planos, sonhos, como nós. Era alguém que aqui estava, e depois partiu, em dores, afogada em si mesma. Não lamentamos a morte dessas pessoas, exceto quando é da nossa família, ou é alguém conhecido. E no entanto, é preciso pensar neles. Ao menos um pouco, ao menos por alguns momentos, precisamos absorver a enormidade das mortes que estamos observando. Precisamos rehumanizar a nós mesmos.

As coisas não podem ser apenas "vida que segue". Não podemos deixar que cada pessoa morta tenha sido apenas um degrau pra gente voltar à dita vida normal, sem qualquer elegia por elas. Sem um pensamento de conforto, de piedade. Se nos fizermos dessa maneira, podemos sair incólumes da
covid, mas nunca mais nos recuperaremos da doença no espírito que causamos a nós mesmos.


domingo, 28 de junho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Aberturas e Fechamentos

Fonte: Site metropoles.com

O tema atual é a reabertura pós-pandemia. E o que podemos falar a respeito disso? Nada de muito forte, visto que não estamos numa situação pós-pandemia. Ao contrário, o Covid-19 nunca terminou por aqui, ou mesmo diminuiu tão sensivelmente assim. E  no entanto, as pessoas parecem não ter entendido que ela continua, e saem felizes das casas, cantando alegremente um recomeço que não é real.

O Brasil está terminando um isolamento que nunca começou de fato. E falo isso não pelos pobres trabalhadores essenciais, e sim pelos safados que fazem festas pelas horas da noite, celebrando o fato de poderem fazer festas quando muitos se isolam e temem. E eu gostaria de dizer que são apenas os seguidores de Bolsonaro e sua trupe de calhordas - mas eu teria então de admitir que a maior parte das pessoas é seguidora dele, e isso é um prognóstico dos piores.

Não, infelizmente a verdade é que as pessoas só fecharam-se em si mesmas, e não importa mais o próximo. a maioria das pessoas está ali, e observa sua família, e vê que nada aconteceu: este é o momento que o pensamento vem: se nada aconteceu comigo, a doença não existe. Não tenho por que me cuidar, é tudo uma invenção. Ou então, é algo mais visceral mesmo, a ideia de que você é especial, você é o abençoado. Todas as mais de 57 mil pessoas mortas, essas não tinham Deus no coração, mas você, que dorme no culto, que chifra a esposa, que rouba do mercado sem precisar; você sim é o abençoado. Você é o imune da Pandemia.

A reabertura da sociedade no meio de uma pandemia só é possível graças a um fechamento do coração das pessoas - pelo menos, das pessoas que estão no comando desta mesma sociedade. Mas não só delas: aqueles que festejam, que não seguem as questões de segurança BÁSICAS para evitar a disseminação, estes são coniventes, e portanto culpados também. E quem mais vai sofrer, ao fim de tudo, é a parte mais frágil. Rezemos pelo melhor, porque é a única coisa que nos resta. 


terça-feira, 2 de junho de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: O horror nosso de cada dia



O tema do desconhecido é algo muito caro a uma série de autores e diretores de horror e terror. O que pode ter mais potencial de ser apavorante do que, especificamente, não saber o que há em um quarto escuro desconhecido, onde sua mente preenche o vazio com formas e ares sinistros? E neste momento, tornamos o horror o OUTRO, o avatar de nossos males, e decididamente fora de nós.  Porém, eu creio que podemos tentar entender isso muito além deste foco. Ou talvez, o melhor termo seja: entender isso muito mais próximo de nós do que se imagina, exatamente. 

A sensação do desconhecido como matéria-prima do horror é algo que muitos talentosos artistas usaram. Stephen King é muito conhecido por gostar de propor a sugestão dos terrores, antes de lançar mão de cenas mais abertas, grotescas. Num lado mais chegado ao suspense, Hitchcock era um artista que trabalhava nas sutilezas, no que a audiência esperava que acontecesse, sem necessariamente mostrar  vísceras e sangue explícitos na tela. De fato, Psicose é um dos poucos trabalhos dele em que há uma demonstração mais explícita de sangue em tela. Há também outros autores, mais famosos porém com tema smais cósmicos, que não creio que se enciaxem aqui por estar me atendo a um medo mais próximo, mais em nossa vizinhança humana.

De fato, eu escolhi estes dois auteurs, porque creio que eles demonstram especificamente o que acho ser o fator central de nosso tema de hoje: o Inferno ser os Outros. Ou talvez, o Horror ser o outro. Tanto King quanto Hitchcock , embora cada um com suas especificidades, se esforçam em mostrar o lado oculto do humano, mesmo quando há fatores outros que tornam o fio condutor da história mais  complexo, ou mais sobrenatural (no caso de King). Esse caminho, inclusive, é algo muito usado por outros artistas: com certeza é mais fácil criar um monstro e usá-lo como símbolo de algo de podre dentro da própria alma humana, que enfrentar a podridão em si. 

No entanto, aqui estamos. Olhamos para fora, e vemos o horror bem ali. e não se trata de um monstro, ou alienígenas, ou espíritos. O nosso horror é um ministro que diz odiar o termo povos indígenas. É um presidente que se recusa a demonstrar qualquer senso de humanidade pelos mortos do Covid, e que prefere acusar a doença de ser um esquema político. Nem tão longe: é um parente que diz concordar com tudo que o presdiente fala, inclusive sobre exterminar oposição, associar negros a gado de corte, diminuir mulheres como merecedoras ou não de serem estupradas. Esses são nossos monstros particulares, e eles venceram.  Talvez nem tanto Hitchcock( que se preocupava mais com thrillers que com o horror, verdade seja dita), mas Stephen King certamente entendeu isso melhor que ninguém: nunca foram os monstros sobrenaturais o nosso problema, e sim os humanos. Sempre os humanos.

E com isso, esse texto passará, e milhares morrerão por nada, exceto por dinheiro e um lucro maior ao fim do ano. Morrerão protestando por direitos enquanto são massacrados por um estado que não liga para eles. Morrerão sendo admoestados por serem agressivos, por não quererem diálogo, quando tantas oportunidades já foram armadas antes, apenas para serem encaradas com desprezo e escárnio. A dança da morte continua. E até esse crônica é apenas uma estupidez a ser lançada ao vento, ao nada. 

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: O sol se põe vermelho, como o sangue, e completamente despercebido




(Agradecimentos à amiga Tamyris pela frase que nos deu o título e a foto de hoje)

Existe uma certa libertação em não se ver mais a TV por um tempo, especialmente nesses dias tão complicados. era algo que eu fazia de uma forma um tanto religiosa: ligar a Tv em algum momento do dia, buscando entender quais os próximos passos a serem evitados. Aliás, isso é algo que tem definido nossos dias, não planejar fazer algo, e sim evitar fazer algo. Uma vida baseada em negações.

Mas eu falava da TV, e de fato temos feito muito isso aqui em casa, simplesmente não ver mais as notícias. Algumas pessoas poderiam acusar-nos de estar tentando tapar o sol com a peneira, afinal, de que adiantat evitar saber de uma determinada coisa, se ela nos cerca em toda sas interações ao redor? Contudo, é por isso mesmo que temos evitado os telejornais; simplesmente, as notícias são tão intensas, que acabam chegando ao nosso conhecimento de uma forma ou de outra. Impossível seria não chegarem, não é mesmo?

O que temos feito então? Ah, uma série de coisas. Compramos um jogo de tabuleiro de  detetive, e jogamos ele todo Sábado. Aline faz duas xícaras de capuccino, botamos um jazz misterioso, e jogamos nosso joguinho (Soctland Yard:Máquina do Tempo, para os interessados). Depois disso, assistimos alguma série ou filme policial: temos nos absorvido em séries com investigações esses dias, não sei dizer por que.

Já em nossas atividades sozinhos, Aline de vez em quando assiste uma série no Netflix que lhe interesse (em geral algo em espanhol); eu costumo ler algo ou jogar um jogo de aventura no velho laptop. Tenho recuperado meu prazer nos velhos point-and-click possíveis de se jogar um em pobre notebook que já foi molhado, jogado no chão, e que perdeu as teclas de digitação. Buscamos fazer coisas sozinhos, para visitar nossas mentes em paz. Eu acho que se você não der tempo a sua parceira para ela ser ela mesma, você está perdendo a melhor coisa de se ter alguém consigo, que são as descobertas do dia-a-dia.

Além disso tudo, gostamos de sentar e ouvir músicas, e pensar... por vezes, a musica guia nossos pensamentos, e posso ver minha esposa olhando para dentro de si, lembrado algo bom, talvez, ou mesmo apenas sentindo o ritmo. Quanto a mim, também faço isso, mas sempre me vejo olhando para a noite (ou quase noite) lá fora, e vejo que ignorei o céu por tanto tempo, que ele me parece algo novo agora, toda vez que o observo nesta quarentena. E com a música tocando ao meu redor, me ponho a observar lá fora, e sonho com a pintura do que vejo, e que jamais existirá.

domingo, 17 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: O sabor da vida



Um dos meus hobbies favoritos nesta vida é cozinhar. Não é algo que tenha vindo desde sempre; confesso que. no começo eu era muito mais um gourmet que um projeto de chef. O costume de cozinhar veio com a necessidade: me mudei de Belém para São Paulo em 2015 e um pouco antes, já sabendo que iria precisar me virar, resolvi aventurar na cozinha um pouco. Cozinhei coisas básicas para meus pais e irmãos, e depois somente para mim, e pro fim deleito minha esposa com refeições vegetarianas que estou sempre aprendendo aqui ou ali.

Sim, posso dizer que namorar e casar com Aline foram grandes responsáveis pelo meu desenvolvimento culinário. Uma das piores coisas que se pode ter, quando estamos em um relacionamento com um vegetariano, é a absoluta sensação de isolamento deles em restaurantes regulares, como se eles não merecesse serviço tal qual os clientes "carnívoros". Mais de uma vez me exasperei em ir a um lugar e ver que a opção para minha companheira era, quando muito, uma salada e um ovo frito.

Foi então que comecei a aventura de aprender a cozinhar melhor. E que aventura tem sido! Livros, vídeos, sugestões... tudo é uma forma de aprimorar as habilidades. A pobreza também, se quer saber. Nada como não ter o ingrediente extao de uma determinada receita, para poder descobrir novos sabores e novas combinações acessíveis a um bolso mais magro que suas ambições.E assim fui cozinhandoi vários pratos e versões vegetarianas de pratos famosos para minha amada esposa... que ou adorou todos, ou me ama tanto que o sentimento acaba temperando os pratos. Mas acho que é mais a primeira opção; temos muitas memórias e momentos bonitos ao redor de cozinhar e comer juntos.

Nesta pandemia então, cozinhar tem sido um salvador da pátria, por mais de um motivo. Primeiro, é claro que as saídas para restaurantes cessaram por completo (não que fossem frequentes antes, lembre-se do bolso magro). A chiqueza da comida, portanto, vem do que conseguimos cozinhar ali: um strogonoff requintado, uma pizza caseira da boa, doces e mais doces... tudo tomando o cuidado de não tornar as coisas MUITO gordas. São tempos de quase sempre ficar parado em casa, afinal.

O segundo motivo, e creio que o mais forte para meu amor pela cozinha, são as lembranças. Como disse ali em cima, tenho muitas memórias boas de culinária com minha esposa, mas o pensamento voa longe, muitas vezes, quando consigo repetir um tempero que não provava desde a infância... ou quando relaizo um prato que está igual ao que eu comia em almoços no passado, com meus irmãos e meus pais, enquanto pensava nas provas de escola regular... Dizem que a música é a forma mais pura de arte: gostaria de usar aqui a culinária como um exemplo maior ou igual, pois ambas usam nossos sentidos mais primários, para causar emoção e acalantar um coração torturado pela dura realidade. 

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Gente merece existir em prosa


Recentemente eu vi no facebook um link chamado "Inumeráveis" e fiquei tocado pelo que ele dizia: trata-se de um programa que mostra os nomes por trás dos números do COVID-19. As pessoas que se foram, tristemente, fora desse vale de lágrimas cada vez mais intensas.

Na verdade, eu acho que tocado é uma palavra muito fraca para o que eu senti. Neste momento, tendo o site em uma aba aberta ao lado deste singelo blog, eu me sinto... sem palavras. A sensação que me vem ao ler ali é somente possível de descrever quando uso imagens; um vendaval correndo solene  pelo campo em silêncio. Sem pássaros, sem sons, somente o vento a soprar.

Eu li esse site bastante. Há tantos nomes, é muito difícil seguir todos. Há muitos sonhos ali, interompidos, sonhos novos e antigos. Não sejamos aqui como o cruel inimigo no poder, que menospreza os mais velhos e os sacrifica abertamente ao Deus Mercado:  todos podem sonhar, idosos e jovens. E todos tiveram seus sonhos, suas vidas, ceifadas cruelmente, antes da hora, antes do combinado.

Penso neles, essa noite. E em Flávio Migliaccio, vítima não da Covid mas desses tempos péssimos. Em tantas pessoas, sofrendo sem leitos, enquanto idiotas furam quarentenas só para fazer festas e curtir a vida. Enquanto o Presidente Bolsonaro comemora tal qual uma besta fera em frente ao Palácio do Planalto, o apoio de imbecis iguais a ele, enquanto as pessoas no país morrem, sem ninguém para enxugar suas lágrimas finais, porque nem chegar perto de nossos moribundos podemos.   

Todas essas pessoas, todas. Agora são apenas memórias nas mentes de seus entes queridos, e de quem os respeitava e amava. Nunca se morre enquanto não esquecermos o nome da pessoa: que elas vivam então, se não para sempre, um pouco mais, e que esse site ajude-nos a mantê-las vivas, e fortes. Que elas nos ajudem a superar essa noite densa. Porque é tudo tão escuro, meu Deus. Tão escuro. Precisamos de um pouco de luz aqui.







sábado, 2 de maio de 2020

Retratos na Cidade Pandêmica: Lázaro

Fonte: paintingvalley.com

"Esses dias um político desses falou que os caixões do corona estavam vazios, que a gente estava enterrando sem corpo dentro só pra aumentar os números lá nas estatísticas e tudo mais. Então a última família que veio por aqui nos forçou a abrir tudo na frente deles, mesmo que fosse contra o regulamento. Tentei falar que não era uma boa ideia, além da doença, o corpo tinha passado um tempo sem preservação, já estava avançado o estado.... não teve jeito, um deles até me ameaçou, disse que se eu não abrisse ia ter que ser ele a fazer isso, e eu não ia gostar disso. Não gostei do tom dele, mas achei melhor fazer tudo logo, terminar com isso, para poder seguir com os outros corpos ali. Haviam muitos naquele dia. Esses dias, sempre tem muitos.

Então, abrimos tudo e o olhar da moça, acho que era filha do falecido, foi terrível, mas eu já esperava. Porque quando uma pessoa morre, você se esforça para guardar na cabeça a última imagem que tinha dela, que provavelmente é algo feliz, ou sei lá, um momento de força dela contra alguma coisa. Normalmente a doença. Mas quando a gente abriu o caixão, a pessoa viu a verdade. Não só que era mesmo o pai dela ali, mas o que a morte fez com aquele corpo, sabe, toda a decadência. Então vieram as lágrimas, e o mesmo homem que me ameaçou disse que ia processar o cemitério por descaso com os parentes. Não entendi, mas também deixei de me importar com essas coisas a muito tempo. Desde antes da pandemia mesmo, eu acho. Não tem espaço para coisas mesquinhas para quem trabalha com a morte.

Nem sempre é assim, claro. Tem o pessoal que entende e respeita a situação, e olha só de longe, tristes. Dá vontade de dar uma palavra de consolo, mas não sei o que dizer. Nunca sei o que dizer. Quando eu comecei nesse ramo, eu tinha um caderninho com umas frases de consolo  para as famílias, mas com o tempo eu percebi que não adiantava nada. A morte é real demais para ser resumida em umas palavras; a sensação de perda é forte demais para falar qualquer coisa. Acho que deve ser por isso que tanta gente nega que aconteceu, ou vai pra farra depois de uma coisa dessas. É melhor fugir do fim que encarar, né? Nao julgo. Deixei de julgar há muito, muito tempo.

Apesar disso, tem sempre a dança toda da despedida, né, os ritos que a gente tem que fazer para começar a superar. Mas nem isso tá podendo acontecer, sabe, mesmo os corpos que são suspeita de Corona a gente tem que enterrar com todos os cuidados, até mesmo a capelinha do cemitério teve que fechar, pra evitar aglomeração. E lá vem cinco pessoas enterrar o morto deles, e nem podem olhar por corpo direito, nem podem chorar em cima do corpo. Pra eles deve ser assim como se a pessoa tivesse simplesmente sofrido e sumido do mundo, virado vento.

Olho para eles e penso em como minha família ia sofrer com o meu caso, com a minha partida desse mundo. Não, falar a verdade para você, nem penso nisso não. Só organizo as coisas, e faço as covas, tranquilo. Tem que ter tranquilidade nessas horas, até para tentar passar algum conforto mesmo que à distância para as famílias lá né? E aí, chegando em casa é um se banhar de álcool, esfregar bem, e rezar, que é o que me resta. Não tenho medo. Os mortos vem, eu enterro eles. Ainda estou aqui."


PARA LER: https://epoca.globo.com/sociedade/a-escalada-dos-enterros-das-vitimas-suspeitas-de-coronavirus-no-maior-cemiterio-de-sp-24331182

https://g1.globo.com/sp/mogi-das-cruzes-suzano/noticia/2020/04/22/sepultamentos-rapidos-e-compaixao-pelas-familias-sao-rotina-para-coveiros-durante-pandemia-nao-podemos-nos-deixar-abater.ghtml

https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,estou-exposto-e-sei-que-corro-risco-afirma-coveiro,70003268200




quinta-feira, 30 de abril de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: The future belongs to the children


Tem sido difícil ver pontos positivos esses dias, esse ano de 2020 particularmente. Conversei esses dias com uma aluna de inglês que pretendo tatuar algo no braço, após toda essa morte e desespero que assolam nossas ruas e vidas, alguma coisa dizendo "2020: eu sobrevivi". Ou algo igualmente cafona. Acho que ganhamos o direito de ser cafona após sobreviver a uma pandemia, não? Com tanto pesar ao nosso redor, a cafonice é um sinal de sobrevivência, creio.

E apesar de tudo isso, também é 2020  um ano de nascimentos, de renovações de certa forma. Em fevereiro, nasceu o filho de uma amiga nossa aqui de casa. Seu nome é Martín, um portuguesinho branquelo fofo e lindo como nunca tinha visto, os olhos azuis curiosos que tudo fitam ao seu redor. Dia nove de Abril, meu sobrinho Bernardo completou um ano, e tem sido uma felicidade vê-lo crescer, mesmo que de longe. Ele gosta de ajudar a mãe a cozinhar coisinhas gostosas . Esses dias, acreditem ou não, ele ajudou a fazer um cupcake de laranja! Para este tio bajulador, que também ama coisas de cozinha, esta foi provavelmente a coisa mais emocionante que eu vi ele fazer, e não puder deixar de derramar a proverbial lágrima de orgulho.

E agora, vejam vocês, nasce meu outro sobrinho, Lee Hesse, em terras canadenses, tão distante de nós mas tão próximo de nosso coração. O rosto dele é de uma mistura poética entre a mãe, luana Hesse, e o pai, Freddie Hesse, meu irmão que partiu do Brasil em busca de sonhos e realizações (o que o torna, mutos diriam, o irmão mais sábio de nós). Acompanhei nervoso o desenvolver do nascimento dele neste dia de hoje; somente o santo dos professores deve saber como consegui dar uma manhã toda de aulas sem sequer pestanejar em momento algum. E quando ele nasceu, e vimos (eu e Aline aqui em casa e meus pais lá em Belém do Pará) a face do novo Hesse Garcia neste mundo sofrido de meu Deus, confesso que a emoção bateu forte.

Essas crianças, esses serezinhos humanso, são o futuro que esta nascendo. Não posso dizer que eles trazem, consigo, a promessa de dias melhores; seria uma cobrança absruda em cima de bebês que nada podem fazer, exceto conquistar nossos corações. No entanto.... eles são provas da existência de um futuro. Muitos podem dizer que eles são condenados a viver nesse mundo absurdo: eu digo que eles devem nos servir de inspiração sólida, viva, para a construção de um mundo melhor, das cinzas deste velho e patético mundo que permite homens como Bolsonaro e seus capachos viverem e troçarem do sofrimento alheio.

Em um mundo onde a morte impera, esses bebês desafiam-nos a crer na vida. Não podemos falhar com eles: há ainda milhas a seguir antes de dormimos. Que possamos arrumar a casa  e perrmitir que eles possam conseguis sonhar também, e não apenas sobreviver. Que sejam eles as pessoas que nos trarão esperança no outro, no vizinho ao lado.

Seja bem vindo, Lee Hesse. Titio te ama, sempre te amou, e sempre vai te amar.


PARA OUVIR: The future belongs to the children

terça-feira, 28 de abril de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Salvação virtual


Dizem que as pessoas tem suas formas de superação de sensações ruins das mais diferentes formas. Alguns gostam de música clássica, concertos de piano, etc. Outros buscam conforto em filmes de ação, dramas, séries de Netflix ou Amazon Prime....  Livros também são uma boa opção, ao menos para exercitar a mente um pouco (aqui também podemos apresentar como opção as cruzadinhas, eternas companheiras dos entendiados)

De minha parte faço tudo isso, e tenho dois gêneros especiais aos quais me devoto: o horror e o suspense. Já ouço alguns dizendo: mas que disparate, Alfredo! Por que não vê uma coisa mais leve, pra sorrir e relaxar? O que sua esposa (que caso vocês não saibam, tem verdadeiro pavor de filmes de horror, mas ama filmes de suspense) pensa disso? Você não fica ansioso além da conta, ainda mais com tudo isso que tem acontecido ao seu redor?

E lhes digo que não, na verdade me sinto bem relaxado. Primeiro porque acredito que ao me imergir nestes tipos de história, eu sinto a catarse de poder lidar com o horror lá de fora. Naquele momento, não é mais o meu foco o medo do dia-a-dia, e sim um zumbi ou monstro bobo na tela da TV. Ali, vendo ou jogando ou lendo, eu controlo aquela ansiedade, torno-a parte de mim, e posso delsigá-la a qualquer momento. Não estou à mercê do medo; ao contrário, sou um participante ativo e capaz de exercer minhas ações neste mundo. Só preciso entender as regras - algo que é bem mais fácil em mundos de horror e suspense que no mundo real.

Essa catarse deve vir para todos em algum momento. e em diferentes formas: alguns talvez busquem chorar com uma canção triste - e isso não é ruim, chorar na verdade faz bem para a alma, é um curador de corações feridos. Outros talvez busquem ação para agitar seus corações, dar-lhes forças contra o dia que tenta destruí-los - e isso também é válido, nestes tempos sinistros, tudo que nos der um pouco de forças a mais é mais do que bem-vindo. Tudo que puder nos salvar, que seja a aprtir desse momento algo sagrado, ao menos para você mesmo. Não recue à zombarias, arme seu melhor controle de videogame e vá lá matar aqueles monstros. Isso não é esquecer do mundo: é higienizar sua mente para as batalhas crueis do mundo real.

domingo, 26 de abril de 2020

Crônicas da cidade pandêmica: A Grande Noite

Fonte: pixabay

À noite, as coisas ficam mais claras no Butantã. Isso, apesar do fato de muitos preferirem o dia; isso é perfeitamente normal, tem as pessoas do dia e da noite, e acho que sempre existirá. Mas acho que a noite é a face verdadeira do mundo, o momento que ele se mostra sem maquiagens cobrindo as falhas.

Sou suspeito para falar, é claro: sempre fui um habitante da noite dos mais empertigados, então é claro que eu defenderia ardentemente meu momento máximo das 24 horas da terra. Mas tenho argumentos fortes, embora eu admita que sejam no mínimo tendenciosos. Pois para mim, a noite é como mundo sempre deveria ter sido.

As ruas vazias, exceto por um ou outro carro passando; pessoas cambaleando exaustas para casa também são comuns, embora não necessaramente em grande número. O vento parece mais forte também; as árvores balançam solenes, acenando lentamente para o céu estrelado acima delas. pássaros em algum lugar, desafiando o urbanismo distorcido que existe abaixo deles.

Os cães e gatos dominam as ruas também; andando e buscando abrigo ou comida. É claro que eles não pertencem ali, e que a vida é bem mais difícil para estes pobres animais forçados a sobreviver em um ambiente hostil.... ainda assim, não consigo deixar de pensar que o elemento deslocado ali é o humano, quando surge com seus carros barulhentos, suas músicas estourando os tímpanos, sua pose de donos de tudo. E como gostamos de tudo ao nosso bel-prazer, não?

Não é a toa que muitas pessoas burlam tragicamente a quarentena, sem nenhuma necessidade: creio que elas simplesmente não conseguem entender um mundo quea natureza os força a tomar atitudes drásticas. Tudo deve estar sob o controle máximo da humanidade: rios devem ser aterrados, animais devem ser domados, montanhas devem ser aplainadas. Entender-se como parte da natureza é penoso ao Homem, e entender que a natureza pode esmagar seus planos com facilidade é mais penoso ainda. Resta então a negação, até o amargo, amargo fim.

E é por isso que a noite é mais natural que o dia para mim: porque tem, em sua grande parte, pouquíssimo do elemento mais falso em nosso planeta: as pessoas.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Crônicas da cidade pandêmica: O professor e Sísifo

iStock/Getty)

De segunda a sexta, eu tenho uma rotina. Acordo mais ou menos às sete horas da manhã (às vezes às 06:30), vou tomar café, organizo meu computador em cima da mesa da sala e começo a trabalhar dando aula. Sou professor de Inglês, é como eu ganho o famoso "pão de cada dia" aqui na cidade de São Paulo. Tenho uma grande sorte: porque sou professor de alunos adultos, e em sua maioria pessoas trabalhando em grandes empresas, existe uma certa cultura já incutida neles de usar o computador para chamadas virtuais. São um grupo que tem em si o costume de reuniões via Skype ou Zoom, e que por serem adultos, carregam a responsabilidade de comparecer e se esforçar em casa para avançarem na compreensão da língua inglesa.

Infelizmente,o mesmo não se pode dizer de meus colegas professores regulares, trabalhando em condições terríveis neste momento pandêmico. A profissão, verdade seja dita, nunca foi respeitada devidamente; quando não é considerada coisa de vagabundos reclamões (pelo Estado, quando buscamos nossos direitos), é endeusada como "vocação", igualando-nos a padres e certamente visando nisso o voto de pobreza dos mesmos, já que assim podem justificar para si mesmos  sem sentirem-se culpados, o porquê do salário de fome com o qual muitos professores tem de sobreviver.

Junte-se a isso, neste momento,um momento de crise na sociedade em geral, pais desesperados para que a escola tome o papel deles como educadores  para seus filhos quarentenados em casa (sendo que esse processo deveria ser uma parceria), e uma direção escolar que teme mais do que nunca perder clientes, e temos a completa recieta pro desastre. E como sempre, a carga disso tudo cai em cima dos professores regulares. São eles os que tem de fazer os alunos produzirem, são eles os responsáveis pelo sucesso ou fracasso desta empreitada em um momento que ninguém viveu antes, que ninguém sequer imaginou que iria viver.

A cada dia que trabalham os professores sofrem mais uma pressão, sem saber se perderão aulas (e portanto, dinheiro). sem saber qual a próxima problemática que será criada. "Como todos nós!", o mais cínico diria,e  ele estaria certo: como todos nós, os professores sofrem igualmente. Então por que diminuir seus esforços? Por que dizer que eles estão em melhores condições que outros trabalhadores, forçados a um home office que na verdade os suga 24 horas por dia?  Por que exigir dos professores o preparo que sabe-se que NINGUÉM teve para esses tempos?

A resposta para isso tudo é simples: falta de empatia. O mundo pandêmico surgiu, e revelou o quanto há pessoas que simplesmente observam seu próprio umbigo e se recusam a entender o sofrimento de outros, o esforço que se faz para manter um resquício de ordem e normalidade em nossos dias turbulentos. Querem tudo como antes, querem resultados sem arregaçar suas próprias mangas. Bem, isso não vai acontecer. Para sobrevivermos, precisamos todos trabalhar juntos, de mão metafórica dada. Ou vivemos e trabalhamos juntos, ou morreremos sozinhos e sufocados.




quinta-feira, 16 de abril de 2020

Crônicas da Pandemia: Mundos Virtuais

(fonte: Shutterstock)

Em momentos de isolamento social, acredito que o whatsapp de muitos de nós tem "bombado", como dizem as pessoas mais conectadas que eu. Não que isso já não acontecesse antes: a discussão se nossa sociedade estava mais no mundo virtual que no real era algo de até antes do whatsapp ou facebook. Tantos filmes terríveis nos anos 90 sobre jovens perdidos dentro do computador, às vezes até literalmente (a ideia de tecnologia naqueles tempos era algo similar à magia)....

Hoje, podemos dizer com certeza que sim, vivemos muito de nossas vidas em um mundo virtual - embora absolutamente contra a vontade.  Presos em nossas casas, qual a opção que temos para conversar com nossos amigos, nossos familiares? Nenhuma, então toca a fazer chamadas via skype, ou facebook mesmo. E com isso os novos dramas que surgem:

- Aqui não tá pegando o sinal de wi-fi!

- Oi gente! Tão me ouvindo? Não né?

- Calma pessoal, um de cada vez senão corta todo o áudio!

Mas eu sou muito grato a ser possível essa tecnologia, pois caso contrário eu teria perdido o aniversário de um ano de meu sobrinho Bernardo, festejado neste mundo pandêmico mas com toda a alegria. Também não teria conversado com meus pais, tão longe no norte do país e preocupados comigo e minha esposa, no coração desta crise toda.... Nem mesmo teria conversado com meu irmão mais novo, morando no Canadá e que me ligou hoje mesmo, para mostrar o berço de madeira que servirá de conforto para seu filho que está para nascer.

E assim vamos seguindo esses dias cinzas, pondo a cor onde podemos, nem que seja pela tela do computador. Amizades menores? Sensações falsas? Quem teria a ousadia de dizer isso? O que importa, o que torna tudo real, é como está nosso coração nisso tudo. E vamos vivendo.

PARA OUVIR: UM CLÁSSICO 

PARA OUVIR 2: Parabolicamará


quarta-feira, 15 de abril de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Olha pro céu, meu amor




Hoje, o céu estava na maioria dos stories do Whatsapp, e fotos no Facebook, ou no Instagram ou o que seja. Não se pode dizer que foi uma ação em massa, a não ser que  tenha sido organizada pelo próprio planeta Terra - o que não seria algo tão difícil de se crer, na verdade. Coisas mais estranhas tem acontecido neste ano de 2020.

Se perguntassem aos espectadores o que tinha de tão peculiar naquele céu, alguns diriam: são os tons de roxo. Outros afirmariam: são os vermelhos resplandecentes. A verdade é que cada um pode ter olhado em um momento específico e, como os cegos com o elefante, tomado uma parte do fenômeno como o todo. Perdoável, se considerarmos o contexto. Acho que a maioria das pessoas simplesmente estava buscando uma notícia boa, qualquer notícia, e depararam-se com o céu, e tal qual nossos antepassados, viram nele um reflexo de um futuro promissor.


E é como eu disse: nós todos, quarentenados e os que não podem ficar em casa, temos fome de notícias boas tal qual um esfomeado que não come há dias. Talvez isso explique o porquê das pessoas quererem acreditar em remédios milagrosos (mas mortais se tomados indevidamente), ou mesmo teimem em tentar crer no Corona só como uma gripezinha. Quero crer, preciso crer, que a maioria dessas pessoas estão tomadas menos pela idiotice e mais pelo desespero ou desinformação.

Então, quando a natureza oferece um espetáculo desse, tão distante das mentiras e falsidades que temos vivido, onde mortos são zombados em plena avenida paulista, e seus detratores não sofrem qualquer punição; onde médicos são agredidos e estigmatizados por cumprirem seu dever; onde o mero ato de sair pra comprar comida nos deixa tensos; quando surgre algo verdadeiro e belo aos nossos olgos, é tempo de celebrar. Que importa que tenha sido , como falou a Vejinha,  um provável efeito da poluição na cidade? Olha para cima agora, amor, vê como o ceú está lindo. Sonha com os dias de antes, e sente eles no seu coração.


PARA OUVIR: Blue Skies




sábado, 11 de abril de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Paranoid

(Fonte: Site Shutterstock)

E de repente, não mais que de repente, eu me sinto ansioso com o mundo. Não é algo que seja realmente incompreensível: de fato, nos dias de hoje, não sentir alguma coisa errada em si é que caracteriza um problema psicológico, ao contrário do que digam por aí.  Aliás, existem tantos semi-deuses andando por aí, inabalados pelo seu entorno, que é difícil até pensar em admitir ser humano, demasiadamente humano. Ou talvez o que haja sejam hipócritas mesmo - vai saber.

É errado de minha parte dizer que a ansiedade veio com a pandemia. Na verdade ela é uma velha inimiga, à espreita nas sombras, esperando o momento certo para dar o bote. Começa como um pensamento insistente - será que tranquei a casa direito ao sair? Será que conseguiremos pagar todas as contas esse mês? - e aos poucos, ele vai tomando a mente e o dia todo. Se você não tomar cuidado, ele toma toda boa parte de uma semana, ou mesmo bem mais tempo que isso, dependendo da sua estrutura para aguentar.

Aí vem o choro (de raiva, de impotência), a sensação de esmagamento na cabeça (no meu caso, bem ali na nuca), às vezes um formigamento... receita perfeita pro desastre em um ambiente que pode-se sair às ruas, dirá em um momento de isolamento social. Nisso, uma vez mais sou abençoado com a companheira dos sonhos - que me acolhe em seu colo, entende minhas lágrimas, me nina até eu me acalmar. Também eu faço isso por ela, quando o mundo lhe exige mais que o razoável. Acredito que isso seja o que um casal deva fazer em tempos de crise -e se não for, bem, é o que eles DEVERIAM fazer.

Mas eu toquei nesse assunto, porque me parece cada vez mais as pessoas tem sentido o peso da quarentena, e a sensação da ansiedade deve pesar forte em suas cabeças. A respeito disso devo dizer: não se sintam mal. Se há um momento para estarmos ansioso, é esse. Não prestem atenção nos semideuses, preste atenção em si mesmo. Permita-se sentir, mas não se permita levar pela onda maligna. Chore, se tiver de chorar: cada lágrima, um conforto mais próximo. Depois respire, olha para o céu, e pense no que o espera não em um mês, um ano, um dia e sim em algo bom para fazer em um minuto. Cada avanço na nossa vida, é montado minuto a minuto, "polegada a polegada", parafraseando Al Pacino. Permita-se percorrer estas polegadas, e não se culpe por tropeçar nas pedras do caminho.

Rumo ao fim disto tudo, amigos.


PARA OUVIR: Paranoid

PARA LER: Litania contra o medo





quarta-feira, 8 de abril de 2020

Crônicas da cidade pandêmica: I got you, babe

(Fonte: Getty images)
Acredito que não seja segredo para ninguém que ficar trancado em casa sem possibilidades de sair, seja uma tarefa mais difícil do que parece. Para começar, a própria probição de sair parece dar no indivíduo a vontade ainda maior de descumprir a quarentena, já que o ser humano é antes de tudo um rebelde, pelo que parece. Talvez seja isso que acomete tantos idosos que vejo andando nas ruas ainda: a certeza de que já viveram o suficiente para poderem fazer de si o que bem entenderem. É um erro que pode ser fatal, como muitos exemplos tristes tem demonstrado, mas ainda assim é algo humano, demasiadamente humano.

Resta aos que seguem rigorosamente o isolamento buscar atividades para fazer em casa, depois de cumprida a jornada home office do dia. Antes haveria uma caminhada no parque mais próximo de sua casa, ou quem sabe uma caminhada rápida para lanchar no fast-food  mais próximo, a junção máxima de exercício e recompensa errada. Isso tudo foi trocado, pelos próximos dias (meses?), pelo delivery acanhado tentando evitar a máximo o contato físico, e pela corrida rápida dentro da própria sala, de um lado pro outro - ou talvez uma volta rápida ao redor do prédio onde se mora, se tiver sorte.

Aqui em casa, as coisas tem sido um pouco mais tranquilas, quanto mais não seja porque somos um casal um tanto caseiro. De fato, a maior parte das atividade que fazíamos antes continuam as mesmas, embora algumas tenham aumentado em intensidade. Por exemplo, a completa perplexidade na idiotice do presidente no poder, um hobby nacional desde pelo menos 2019, aumentou em pelo menos 50% em força, e agora é acrescido da saudável expurgação desta raiva através de xingamentos gritados da varanda do apartamento. Apesar do que possa parecer, é uma atividade bem calorosa, com participação ativa da vizinhança. Provavelmente foi a primeira vez que eu interagi com a nossa vizinhança de uma maneira  mais lúdica e ativa.

Outras atividades menos comunitárias tem seguido também seu curso: séries, filmes, conversas ao anoitecer, músicas. Mas principalmente, e essa talvez seja a melhor de nossas ações juntos, continua também aquele momento que, sem dizer nada, seguimos para alguma janela e olhamos o céu em silêncio, e sentimos o vento (às vezes frio, às vezes cálido) da cidade. Não sei dizer exatamente o que ela pensa: as divagações de um indivíduo são um conforto privado que não devem ser esmiuçado à toa. Mas sei que também eu tenho cá os meus pensamentos, e naquele momento  isso nos basta. E sonhamos e olhamos juntos para o horizonte, longe de tudo que nos aflige, voando tranquilos com o vento que nos afaga o corpo.

PARA OUVIR: I got you Babe

PARA LER: Sopra o Vento, Sopra o vento