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quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Ausência Presente

Fonte: Flickr de Ephebic Bears


Não sei se o leitor destas mal-traçadas crônicas sabe, mas eu faço terapia. Não é algo que eu fale muito a respeito. Não por ter vergonha, apenas nunca é realmente um assunto que eu sinta que vem à tona, em conversas casuais. "Ah, bom saber do seu corte de cabelo novo! A propósito, eu faço terapia!". Nada orgânico, como pode ver. Nem mesmo nestas crônicas, eu creio, falei algo sobre minha terapia, o que é algo surpreendente, se considerarmos que estes textos são, de certa forma, parte da jornada de auto-conhecimento, ou seja, parte do tratamento psicológico em si.

Mas hoje é um dia especial, e eu falo disso, porque dentro de um asessão com o terapeuta, eu me vi envolvido em uma coisa muto mais profunda do que eu esperava. Para quem não sabe, isso na verdade é muito comum em sessões: fatalmente você sai de lá com ou um peso gigantesco que você tem de lidar agora, ou com uma sequência de pensamentos galopantes que te intrigam. A terapia, para mim, é a investigação detetivesca de si mesmo, com todas as pistas e reviravoltas possíveis, e um pouco da velha melancolia também.

E foi essa que me acometeu hoje. Pois em meio à sessão, eu me vi pensando em um algo da minha mente, uma lacuna especial. Não posso falar muito sobre o que é, simplesmente porque não sei o que é: trata-se de um espaço que sinto que deve ser preenchido, mas que não tenho a menor ideia de com o que, ou como eu sequer começaria a lidar com isso. Saber que ele existe, na verdade, já foi um grande avanço: eis aqui a "cena do crime" por assim dizer.

Mas o que é esta lacuna:? Qual sua natureza? Não sei dizer. Sei que está no passado, e que ela parece ser uma chave para alguma coisa em mim. Pode ser que eu esteja enganado - já aconteceu antes. A mente quer se sentir melhor, e muitas vezes você se agarra em algo que acredita que, dessa vez, vai conseguir resolver aquele vazio, aquela angústia peculiar. Mas não é verdade, não existem saídas fáceis. O que não te impede de ter esperança, até porque, existem sim momentos-chave, a pista principal para entender a si mesmo, como queria apocrifamente Sócrates.

Ainda assim, esta lacuna me fascina, e penso nela não só hoje, quando ela foi o tema principal da sessão com o terapeuta, mas muitas vezes ao dia, aos dias, e não consigo expressar ela por nenhuma outra forma que não ouvindo uma certa música, ou olhando um certo quadro, ou mesmo saboreando uma certa comida. Uma ferida invisível em algum lugar que não alcanço, ou talvez algo que eu tenha perdido em algum lugar em Belém do Pará, tempos atrás, ventos atrás. 




domingo, 2 de agosto de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Vozes da Cidade



Contexto é importante, então é o que lhes darei neste momento, antes de qualquer elocubração. Quando eu era criança, meu pai trabalhava para o BANESPA, o falecido banco. Por causa disso, ele vinha com uma certa frequência para São Paulo, ou pelo menos assim me parecia: é possível que ele tenha vindo só uma vez e a viagem ficou em minha mente, mas enfim. No fim, fatos importam menos do que a impressão que eles causam em você, pelo menos no âmbito da memória.

Para mim, naqueles dias, São Paulo era uma metrópole distante, cheia de prédios e mistério. Por causa disso, por muito tempo a cidade teve essa aura para mim. E isso durou muito tempo, de fato, acho que até eu realmente visitar a cidade pela primeira vez, em 2008, eu ainda tinha essa visão de uma coisa do futuro, uma megalópole incompreensível para mim, pobre caboquinho de óculos da Amazônia.

Todo mistério precisa de trilha sonora, e minha trilha para A Sampa da minha cabeça era, curiosamente, Marina Lima. Talvez não tão curiosamente assim: Como eu diss,e eu associava meu pai com São Paulo, e em seu escritório havia um cd da cantora que eu ouvi e, por algum motivo, associei com a cidade. Que importa se ela é do Rio de Janeiro, e se na verdade não há nenhuma música dela, até onde eu saiba, que fale da Paulicéia Desvairada? A mente quer o que a mente quer, e minha mente só conseguia olhar para fotos, e notícias de São Paulo, e imaginar as canções de Marina Lima como pano de fundo.

Demorei muito tempo para entender o porquê exatamente, eu pus a voz dessa cantora especificamente nesta cidade. Não é como se meu pai tivesse somente cds de Marina Lima em seu escritório: na verdade, ele tinha (e tem ainda!) muito mais álbuns do Legião Urbana que de qualquer outra banda ou cantor/cantora. Se fosse por exemplares musicais, então, eu certamente deveria ter associado a voz de Renato Russo com a cidade. Mas não o fiz, e isso foi porque eu não percebi em Renato Russo, a grande dor da solidão urbana que Marina Lima tem em suas músicas.

Ouça qualquer canção de Marina, principalmente ali na décade de 80, e você ouvirá o pop rpock urbano mais doído que poderia escutar. A versão dela de "Me Chama" é, ao meu ver, a única versão com sentimento verdadeiro que a letra pede. "Nightie Night" embala minhas madrugadas escrevendo: mesmo quando não a ouço, sei que ela está em minha mente, em algum lugar. E lógico, todos os sucessos que já pensamos quando ouvimos o nome de Marina Lima: "Fullgás", "À francesa", "Uma noite e meia".... Todas essas canções, verdadeiras vozes de cidade. Mais que músicas, pinturas (que a cantora provavelmente nunca quis evocar) de uma capital urbana, e buscando desesperadamente seus sentimentos, suas emoções.

Então, venho com tudo isso dizer: obrigado Marina Lima, por me preparar para morar em São Paulo. De um fã criador de sentidos próprios, obrigado de coração.