sábado, 28 de novembro de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Memórias são palavras escritas na areia da praia da vida



Nos dias de hoje as memórias assombram muito mais que antes. Talvez porque elas estejam tão presentes em nossa vida; o próprio Facebook tem um aparto de memória de 5, 6, 10 anos atrás, mostrando seus posts daquele período. E o quanto nós somos diferentes de tanto tempo passado! A pessoa que eu sou hoje, com certeza, iria esmurrar a cara do proto-reacinha que eu era há 10 anos atrás. Nem todas as memórias são ruins assim, é óbvio: recentemente fui agraciado com a memória da primeira vez que tomei sorvete de açaí com banana aqui em São Paulo... e gostei! Eu sei, eu sei: carteirinha de paraense cancelada. Mas é gostoso, que posso fazer? 

Nessas memórias mais agradáveis, a gente acaba associando muita coisa com música. Recentemente eu e minha esposa querida estávamos fuçando o youtube em busca de entretenimento (algo mais difícil que parece, creia-me), quando encontramos os 335 vídeoclipes mais tocados pelos usuários em 2020. Todos, sem exceção, do passado. Óbvio, como já falamos antes, que a pandemia tenha trazido à tona saudades de um tempo sem mortes de milhares pelas ruas. Apenas achei engraçado ver uma miscelânea completa de canções na sequência de vídeos, dentre Maroon 5 a Psy, passando por Shakira. Fiquei pensando em como foi a adolescência dessas pessoas, ou os vinte e poucos anos. Tão diversos dos meus, suponho, que sempre fui ligado a canções mais do passado. 

É inegável, porém, que hajam as memórias ruins. E é bom que elas venham, não? As pessoas tendem a abafar muito as coisas ruins: deve ser talvez o exercício mais praticado pela humanidade em séculos. A crença é que se deve esquecer para seguir em frente. O passado, eles dizem, não importa. Mas eu sou historiador: Só o passado importa para mim, porque o presente e o futuro são prenhes dele. Quem somos, quem seremos, está tudo dentro de quem fomos.

E às vezes, só às vezes, surge uma memória que você não sabe como lidar mais. Não é nem boa, nem ruim: só uma lembrança de um lugar, uma situação, ou uma pessoa, que você estaria certo de ter alguma reação, caso você tivesse visto essa memória um, dois anos atrás. Agora, é como se fosse um fantasma, uma memória de uma foto se apagando. E você não sabe mais dizer se ela acrescentou algo bom realmente a sua vida, ou se você simplesmente está preso a uma nostalgia, esse doce veneno. 

Ainda assim, essas são as memórias que mais aparecem na madrugada da vida. Então, um brinde de café à elas, e que possam ser exorcizadas de vez de nossas cabeças. 


quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Raiva é liberdade



O amigo leitor deve saber, que existe uma série de coisas erradas no mundo, e com certeza no Brasil elas se repetem quase ad aeternum. Eu nem mesmo preciso falar quais são as coisas erradas, preciso? Você já pensou em todas. Eu acredito - ou talvez queria acreditar - que mesmo os reaças mais enganados pelos PSDBs, MDBs e CIDADANIAs da vida, tem ainda em si uma fagulha que sente revolta pela corrupção, pelo abandono geral do país, pela esculhambação gritante em todos os lados. "O rico cada vez fica mais rico / e o pobre cada vez fica mais pobre", diriam as moiras em forma de axé que foi o grupo As Meninas. 

(Não vamos falar aqui de PSLs da vida. Esse é um assunto que envolve doença moral, e eu prefiro tratr disso num texto completamente dedicado ao assunto, tragicômico tal qual ele é.)

E como sabemos disso tudo, normalizamos tudo. Eu mesmo já falei disso em momentos anteriores: o principal dom do brasileiro é normalizar as coisas. Tudo é de boa. Morte de milhares de pessoas? Normalíssimo. Dinheiro roubado? Tanto faz, desde sempre foi assim. Tudo de ruim, sempre foi assim, sempre teve que ser assim, sempre será assim. E ai daquele que achar isso estranho: será tachado de inocente, piegas, despreparado para o mundo. 

Bem, eu não sei se você estava esperando que alguém lhe desse permissão para ficar puto da vida, mas considere a permissão concedida. E digo mais: ela não foi dada por mim, e sim por você mesmo, indivíduo leitor deste texto. Qual o problema de ficar puto? Você tem o direito de ficar assim. O mundo está indo para o inferno, e ainda assim, somos forçados a entender nuances, "vejas bems", concessões. Não tem que ter concessão nenhuma, amigo leitor. Sua raiva é verdadeira, e ela merece sair. Não contra sua família, ou seus amigos. Nem contra quem lhe ordenam ficar com raiva: o pobre nas ruas morrendo de fome, o sem-teto, os desempregados. Pense na fonte dos problemas. Pense nos que ganham milhões lucrando com o nosso sofrimento. Pense, e veja se quem merece uma pedrada não é essa pessoa. 

Mas isso é depois. Primeiro, você tem que recuperar seu direito de estar com raiva. Porque estão tomando isso, seu destino, de você. O planeta é uma nave pilotada por homens velhos que vão morrer transando com belas mulheres, e que pouco se importam com o destino que as coisas vão tomar. Porque temos de considerar as ideias deles então?  Por que não podemos nos revoltar contra nossos grilhões, e tentar algo novo? Pense nisso, é seu direito querer algo melhor. Não tolice, não utopia. Direito. 

Fique puto e vá a forra, e que cada prédio quebrado, cada pedra lançada, cada coquetel molotov criado, seja um tijolo pro novo futuro que queremos. Raiva é seu direito. Fique com raiva e vá a luta. 



segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Brasil, escrito por Stephen King.


Certa vez, ouvi num sonho que o mundo foi criado por um Grande Escritor, e nossas vidas são tramas que ele vai escrevendo e se divertindo, às vezes pacificamente, ás vezes maliciosamente. A pessoa do sonho (que era eu mas não era - não são assim as regras dos sonhos?) concluiu então: somos todos personagens nestas histórias, e cada país tem em si mil gêneros, mil mundos, mil estantes diferentes em uma biblioteca eterna.

Penso nisso, e fico pensando que estilo literário é o que prevalece neste grande livro que é o Brasil. Difícil dizer direito: estamos dentro dele. Nenhum personagem sabe exatamente qual o gênero de sua história, até que ela encontre seu ápice. Talvez, se fossemos como o personagem de Will Ferrell em Mais estranho que a ficção, pudéssemos conversar com algum entendido e eles nos apontasse formas de tentar entender, afinal, qual a regra do mundo, deste mundo em si. Ai de nós, não temos essa sorte. 

Longe de ser um grande entendedor de literatura (talvez somente um entusiasta?), eu arriscaria dizer que cada país segue um gênero específico de acordo com a sua época. E neste momento, estamos numa horrível historia de horror. Não terror, veja bem: isso implicaria que não soubessemos o que está acontecendo, implicaria um mistério. Nenhum dos nossos males é mistério algum, sabemos muitos bem das origens deles. No entanto, cá estamos, indefesos, esperando tudo passar. Sem saber quando nem como. Que nem personagens em histórias de horror, se pensarmos bem. Pois o horror é ser forçado a ver tudo acontecendo perante os seus olhos, e não poder fazer nada. 

Tudo que podemos fazer é seguir em frente, e tentar ver aonde estamos seguindo pouco a pouco, como se dirigíssemos um carro em uma tempestade, e só desse para ver aos poucos o caminho por detrás do para-brisa cheio de água. O ano está acabando: talvez seja o fim desta chuva, e sigamos pela estrada com um pouco mais de claridade para o futuro. Ou talvez seja só o começo da chuva, e 2021 será uma tempestade maior, bíblica, varrendo todos nós para o fundo, um novo começo para o planeta. 

Quem poderá dizer? Esperemos o fim deste livro. Eu nunca gostei de ler o final antes, mesmo.  


domingo, 22 de novembro de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: No church in the wild


O Brasil é um eterno cego que não quer ver. É a única explicação, em muitos casos: a corrupção abrangente em todos os aspectos da vida social, a violência que nos sufoca em todas as ruas, o racismo estrutural que nos cerca. Cada dia, essas coisas causam mais uma vítima, mais um corpo a ser jogado na cova rasa das estatísticas.

Todas essas coisas, juntas, são a realidade. São o mundo. E no entanto, por que elas são negadas, principalmente por quem está no poder? Talvez porque seja mais fácil ignorar o problema que se esforçar para resolvê-lo. Se eu não vejo, não existe; e se não existe, por que eu teria de resolver? E assim vamos vivendo, e seguindo em frente. Aos poucos, eu vejo isso mudando em alguns pontos; mas nem de perto tudo que deveria ter mudado.

Por exemplo, se você pegar o jornal hoje, vai ver que uma miríade de pessoas, entre membros do governo e mesmo analistas sérios de contextos sociais, estarão não só negando a existência do racismo no brasil, quanto estarão torcendo o nariz para o que chamam de "vandalismo". dizem eles, que isso não constrói nada, e que acaba "esvaziando" um movimento de justiça que os manifestantes "deveriam" estar buscando. Primeiro que a ideia do que os manifestantes deveriam ou não fazer, é pautada unicamente por um só grupo: o dos manifestantes em si. Comecemos por esse ponto.

Em seguida, a questão do esvaziamento é engraçada, porque implica em dizer que algo estava sendo feito antes para resolver o problema, que havia alguma ação por parte do Estado em resolver o racismo estrutural. Evidentemente não havia, porque senão um linchamento terrível como o de João Alberto jamais teria acontecido, diferente do que imbecis dizem a respeito de ser um caso isolado. E isso estamos falando só desse caso: conforme já foi explicado, a cada 23 minutos um negro morre assassinado neste país. Como pode isso ser coisa normal? Como pode ser encarado pelas autoridades como algo que faz sentido? 

Quando as palavras faltam, a pedra canta. Nunca ocorreria nenhuma ação do Carrefour sem protestos, e fogo, e depredação. O governo nunca vai se mexer em relação a nada, enquanto não forem forçados a se mexer pelo poder do povo, e pelas suas demandas feitas concretas. Que tudo que serve de opressão queime e se desfaça em cinzas. 



quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: No jejum do coração, quem emagrece é a alma


A frase do título desta crônica veio de um conto de Mia Couto, "A Outra", presente em seu livro Na Berma de nenhuma estrada. Às vezes as coisas acontecem assim: você lê uma parte de algo, e o significado inicial da frase (ou palavra) muda radicalmente para o que você tem na cabeça no momento. Ou talvez muito pelo contrário: ao invés de se perde, a frase encontre na sua cabeça o verdadeiro significado - pelo menos, no que quer dizer para si. 

No meu caso, o que estava na minha mente quando li esta frase, foi uma conversa que tive com meus pais esses dias. Pois, como se sabe, o Covid trouxe muitos horrores a nossa porta, mas uma das coisas boas que aconteceram este ano foi o fato de eu me comunicar com muito mais frequência que antes com meus pais - seja por preocupação, seja por simplesmente sentir a falta deles. O fato é que conversamos quase todos os fins de semana, e eles me contam como tem sido as coisas em Belém, minha cidade natal, enquanto esta loucura ocorre pelo mundo inteiro. 

Essa conversa é um luxo, não tanto por eu e eles podermos realizá-la (a internet é um artigo de luxo em nosso país, e uma internet boa o suficiente para isso, mais rara ainda), e sim porque podemos falar um com o outro. Pois bem sabemos que a pandemia veio do nada, como um ladrão na noite, e talvez não estivéssemos preparados o suficiente, como de fato não estávamos. Tão despreparados fisicamente quanto mentalmente, espiritualmente, para a longe jornada de solidão que seguiríamos. 

Neste momento, quantas pessoas sem poder dar um abraço carinhoso em quem amam, seja pela distância imposta, seja pelo impedimento triste de saúde, o Covid funcionando como uma barreira dos sentimentos nos dois casos? Quantas pessoas vagam pelas ruas, correndo perigo, só porque sentem falta de contato humano, ainda que impessoal? A solidão, amigos, era um mal que nos afligia desde sempre, mas que foi agravado com a pandemia. Que em 2021, possamos recuperar nossas almas enlutadas e quebradas, que possamos nos curar uns aos outros por dentro e por fora. A batalha será grande. 


terça-feira, 17 de novembro de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: A vacina anti-horror: será?


Escrevo este texto no dia 16 de novembro, um dia depois das eleições municipais no Brasil de 2020. Já sabemos os caminhos que as urnas tomaram, comprovando um pouco das pesquisas anteriores, apesar  de estarmos sempre céticos em relação à elas.  Essa, na verdade, me parece uma atitude muito salutar,  a de duvidar das pesquisas eleitorais, de se esperar o resultado para ter qualquer certeza. Isso é bom pelo seguinte: nas últimas eleições, o "já ganhou" atrapalhou muito vários candidatos mais preocupados com o social nas urnas, quando o eleitorado não acreditava que eles perderiam... o que acabou tomando muitos votos, já que "se eles vão vencer mesmo, vou apoiar outro candidato". Isso, somado a um eleitorado que parecia buscar algo diferente mesmo que fosse uma má opção, trouxe-nos grandes derrotas e dissabores, coisas que estamos sofrendo ainda mais nestes tempos, onde uma pandemia tem ceifado vidas. 

Apesar disso, eu olhava as pesquisas e tinha esperanças. Talvez porque eu tenha acabado de ver um filme de natal com a minha esposa, e estes filmes sempre me deixem com esperança na humanidade (os bons , pelo menos). O fato é que quase todas as pesquisas que eu vira, pareciam empurrar os candidatos mais associados com a brutalidade bolsonarista bem para baixo. Aqui em São Paulo, por exemplo, os três candidatos de mais destaque associados a esta política estavam bem abaixo nas pesquisas; no Rio de Janeiro a situação é um pouco mais drástica, com um extremismo em segundo lugar nas pesquisas. Contudo, haviam chances grandes de uma candidata mais humanista ganhar uma chance de segundo turno lá também. 

Eis que os resultados vieram, e cá temos em Sampa um segundo turno de Boulos vs Covas, progressismo e velha política frente a frente. No Rio, as pesquisas também se confirmaram, infelizmente: Paes e Crivella se enfrentam num pleito onde há uma vantagem boa para Paes, que apesar dos pesares não é  um bolsonarista evangélico contumaz, como seu adversário. Ou pelo menos, não parecer ser até o momento: política é volúvel como certas reações químicas, e acordos antes impensáveis acabam sendo só mais uma medida de um dia de trabalho. Em Belém, a terrinha natal, haverá um embate mais direto de ideias: PSOL contra Patriota, projeto de esquerda vs projeto bolsonarista.

E no entanto.... no entanto, minhas esperanças permanecem, amigos. Veja bem, não que as coisas vão mudar para melhor exatamente; Esse trem já partiu a algum tempo, e só volta daqui a muitas rotações da terra ao redor do sol. Tenho esperanças de que os últimos 4, 5 anos, tenham sido um amargo pesadelo, e que o Brasil aos poucos esteja voltando ao seu velho eixo, enlameado e triste, mas ao menos não apodrecido e decadente. Porque se pensávamos que os velhos tempos eram sombrios, amigos, não tínhamos sequer visto o potencial de horror que o brasil - e os brasileiros - podiam chegar.

E essa me parece ser a mensagem que as urnas passam, com seu atraso monumental : chega de horror. Chega de naturalizar coisas que nos fariam vomitar antes. É hora de reconstruir, de tomar uma verdadeira vacina anti-horror, e nos imunizarmos dessa grande doença que é o bolsonarismo no Brasil, e talvez assim nós possamos recuperar um pouco da alma que nos resta ainda. Tarefa difícil, mas necessária, muito necessária: vejamos se 2022 vai poder ser um novo começo. 


sábado, 14 de novembro de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: A síndrome do Somebody Save Me


Um ser humano, além de ser "um amontoado pequeno e miserável de segredos" (parafraseando Drácula), é antes de tudo um sonhador. Sim, mesmo o mais prático dos indivíduos tem dentro de si um sonho, nem que seja uma vida um pouco melhor do que a que tem no momento. Isso é perceptível em qualquer lugar, e não é a toa que as propagandas tem o poder que tem: o que são comerciais senão a venda de uma promessa associada a um produto? Se eu beber esta cachaça, eu posso talvez chegar nessa praia do comercial - ou pelo menos sentir um gosto igual aos que estão nessa praia. Realização por aproximação: eis a hubris e a tragédia humana. 

Um outro lugar que muitos se perdem são as ficções, as histórias que lhes são contadas. jogos, livros, revistas em quadrinhos, filmes; são estes os principais meios de escape da humanidade neste momento. Não importa, aqui, o quão simples seja uma história que está sendo contada, ou o quão implausível seja ela de acontecer no mundo real: tudo que se pede é que haja uma história que capture as mentes , e que nos faça esquecer do mundo cruel ao nosso redor. Com certeza a pandemia reforçou isso ainda mais: quer dizer que além dos problemas que já enfrentávamos (que eram grandes, não nos esqueçamos), vamos ter de encarar de frente uma pandemia mundial? Muito melhor tentar ignorar isso, seguir grudados na TV, nos jogos, viver uma vida imaginária. 

Às vezes, porém, as pessoas não ignoram tudo, mas simplesmente encaram de uma maneira , na melhor das hipóteses, equivocada. Elas buscam um salvador: uma pessoa que virá dos céus, e representará tudo que tem de bom. Quando este salvador chegar, todos o seguirão, e receberão lições de vida, e mudarão o mundo para melhor.... E antes eu estivesse falando de religião. Na verdade, é em quase qualquer coisa - embora apareça muito em questões políticas, principalmente nos dias de hoje. Quando isso não acontece, as pessoas se desanimam: Por que lutar sempre pelos avanços que nunca chegam, e quando chegam, são tomados à primeira oportunidade? É um pensamento válido, de certa forma, e não creio que podemos culpá-los por isso. 

Quando penso no primeiro caso, das pessoas em busca de um messias, me vem à mente um grupo mais jovem, e mais atrelado à figura de um super-herói, mais do que religião (embora essa também tenha um papel forte neste tipo de pensamento, apesar de ser atrelada mais fortemente á uma população mais velha). Isso porque, e é um fato muito difícil de admitir, uma grande parcela dos que curtem cultura nerd possuem uma cabeça absurdamente retrógrada, com muitos casos de fãs ameaçando de morte um criado de determinado trabalho só por ele ter ousado desviar do que eles entendem ser o rumo de um dado personagem. 

Essas pessoas, presas em uma eterna juventude mimada, não conseguem aceitar quando as coisas não seguem o seu entendimento, e podem até partir para atos violentos só para evitar desmoronar seu castelo de cartas pífio. E também são essas pessoas que, munidas da responsabilidade de escolher um representante político, preferem pensar com esta cabeça infantil e escolher quem mais se aproxima de seus sonhos de areia. 

Não entendem, esses falsos nerds, que é nas próprias obras que são fãs que está a rechaçada final de suas ideias: pois o que são super-heróis senão representações de virtudes? Figuras arquétipicas do que é certo e justo? A salvação do mundo nunca esteve em seus atos, mas sim em seus exemplos. Quando lemos os quadrinhos, por um breve momento, somos testemunhas de atos de bravura e bondade, e o objetivo final seria a iluminação do leitor, para que ele sim, saia da leitura e mude seu próprio mundo. Não que o leitor ou leitora espere uma espécie de Super Homem ou uma Mulher Maravilha chegar e arrebatá-lo aos céus; que ele/ela seja seu próprio exemplo. Que sejam a mudança. 

Se queremos que o amor vença, no fim de tudo, é preciso despertar de nossos sonos pesados e perceber os grilhões que nos prendem ao chão. No caso dos meus caros amigos nerds, com quem me identifico e sou extremamente solidário, o truque está em acreditar em si mesmo, e lembrar dos ensinamentos antigos das hqs: A direção de nosso futuro não está para trás, mas sim para o alto, e avante. 



quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: O amor é mais forte.



Eis que o atual presidente da república conseguiu um feito notável: criar três crises ao mesmo tempo.  Primeiramente, chamo todos os brasileiros com medo de uma doença mundial, uma peste que matou mais um milhão de pessoa mundialmente, de "maricas", ofendendo com sua homofobia ao mesmo tempo os que estão resguardando a quarentena, os mortos, e os homossexuais, quando considera usa de termo pejorativo a esse grupo. Seguindo um embalo de desrespeito aos mortos total, o presidente comemorou a morte de um voluntário para a vacina, como se uma vida perdida fosse um ponto que ele fez num jogo político perverso contra João Dória, seu rival em São Paulo. "Mais uma que Jair Bolsonaro ganha", ele disse, comemorando uma morte, e um possível atraso nos estudos da vacina que pode salvar vidas mundialmente, nacionalmente. 

Por fim, o presidente resolveu semideclarar guerra aos EUA, por se sentir amuado da puxada de orelha que tomou na incompetência de gestão das queimadas que ocorreram durante todo esse ano, no Pantanal e na Amazônia. Como uma criança birrenta, resolveu ameaçar os EUA de "pólvora" - ou talvez tenha duvidado da capacidade bélica dos EUA, não ficou muito claro, dado o cacarejar característico de Bolsonaro nesses momentos. 

Estas declarações (que diga-se, nada mais foram que uma tentativa de encobrir seus preciosos filhinhos de papai, cada vez mais afundando em seus esquemas podres) não devem mais surpreender ninguém, não é? Quantas outras coisas já foram ditas nesses quase dois anos de governo Bolsonaro, que não se classificariam como uma brutalidade em palavras? Aliás, a César o que é de César: não só Bolsonaro. Seus aliados ao redor sentem-se livres para falar e agir tal qual seu ídolo, seu "mito", e portanto toca surgirem cada vez mais à vontade, e aí toca surgir mais extremismos, machismos, violência ideológica em geral. 

E no entanto, em meio a isso tudo, existem esperanças. Candidaturas (tímidas talvez, é verdade) mais progressistas ganhando apoio; organizações não-governamentais indo aonde o estado ou se esqueceu, ou ignorou completamente; Indivíduos que se preocupam em levar alimento aos mais carentes, conforto, abrigo. Tudo isso, apesar da falácia do mundo ser dos mais fortes, que estes que estão aí em cima tanto gostam de apregoar. Aliás, já perceberam que quem mais defende o argumento do "mais forte" são justamente as pessoas mais fracas moralmente que se pode conhecer? De que vale a força política, quando a alma é a mais fraca de todas? 

Estas pessoas que surgem , e que até já existiam historicamente, estão aí e creio que vão continuar, apesar de tudo, apesar da lama. Isso porque, na verdade, a maioria das pessoas não é ruim, ou boa: só são apáticos. Só gostam mesmo é do conforto de não ter de escolher, e de não fazer nada. Mas dentro destes habitantes do muro, existe uma enorme capacidade para o bem, ainda mais forte que para fazer o mal (embora não pareça às vezes, muitas vezes...). O amor é mais forte que a dor, que o ódio, que a morte. E o amor vai vencer. 


terça-feira, 10 de novembro de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Olhar pra dentro, olhar pra fora.


Quem vê até pensa, com todos esses posts de facebook sobre a política dos EUA, que o brasileiro tem como esporte, a política internacional. Só dá pra pensar mesmo, e brevemente: a enxurrada de memes e afins logo mostra que isso não é algo que a maioria das pessoas leve a sério. É claro que existem as exceções, ainda mais num país tão amplamente dividido como o nosso; Em geral, porém, é mais fácil achar alguém que prefira levar questões políticas na gaita que realmente parar e pensar nestas questões. 

Não é difícil de entender o porquê disso. Vivemos tempos desesperadores, e muitas vezes a discussão de assuntos políticos torna-se algo um tanto confirmador de nossas desesperanças. Afinal, o que podemos fazer a respeito? O poder está todo na mão dos ricos e corruptos, os movimentos que temos nada significam, o mundo está acabando... São coisas que nos deixam numa sensação de derrota permanente - o que, diga-se, é perfeito para que quem tem o poder mantenha ele em mãos indefinidamente. 

É essa sensação que permite que situações como a do Amapá esteja ocorrendo agora, nesse momento. 7 dias , ou mais, foi o que levou o governo federal para ao menos reconhecer que há problemas lá. Hoje, nas notícias, foi dito que o Presidente do Senado, Davi Alcolumbre, foi ter com o presidente Bolsonaro a fim de saber que medidas poderiam ser tomadas. E o presidente, como bom representante do espírito brasileiro, estava lá em Brasília, matutando sobre os resultados das eleições dos EUA. 

Nessas horas, muitas pessoas usam o argumento do "em um país sério". "Em um país sério isso não aconteceria"; "em um país sério já haveriam feito algo mais relevante"... Eu não gosto de usar isso, porque acredito que o governo é sim, sério. Seriamente ruim. E as pessoas do país, por sua vez, são ou extremamente hipócritas, ou sem empatia alguma. Porque, no fim das contas, as pessoas só não se ligavam nas questões no amapá, porque não era interessante. Não dava a emoção de participar de algo maior, não dava pra fingir que era estadunidense por uns momentinhos a mais. E portanto, a notícia era sumariamente ignorada. 

Agora veja, uma TV fazer isso, é compreensível, embora moralmente errado: nunca se deve cobrar de emissoras de TV humanidade, já que elas são puramente levadas e guiadas pelo que dá audiência, pelo que lhes rende lucro. mas é justamente isso: se as pessoas tivessem mostrado um interesse maior, talvez houvesse uma cobertura maior disso tudo. Ou se houvesse ocorrido alguma manifestação, qualquer coisa; e não venha me dizer que a pandemia impede isso, não quando eu vejo do lado de fora da minha janela todo sábado festas e mais festas.

O brasileiro médio odeia o Brasil. ele quer que o país seja outro, seja que nem os states, que nem os filmes que ele vê na TV. Engana-se, esse gado, quando pensa que lá não existem problemas também. E não estou dizendo que acompanhar as eleições dos EUA não seja lá algo importante também: somos afinal, o quintal dos EUA, e calha saber se vão jogar lixo ou se vão construir um parquinho em nós, esse vasto terreno de brincadeiras estadunidenses. Mas eu também acho que um olhar interno vale muito a pena. Que possamos levar um pouco disso agora, nas eleições para prefeito, e para 2021 como um todo. 

 

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Descanse em Paz, Louro José.

Fonte: Site revista Capricho

Difícil dizer o que afeta mais a gente em certas mortes de famosos. Pois no fim das contas, nem sequer os conhecemos: temos a ilusão de conhecermos essas pessoas, de sabermos seus gostos, seus dissabores e problemas... mas não sabemos realmente quem são elas. O que temos em mente, são somente imagens, muitas vezes idealizadas, de quem elas verdadeiramente são. O real é inalcançável para quem não conhece mesmo o indivíduo. 

A coisa muda de figura, por certo, quando tratamos de pessoas que são, em si, conhecidas pela sua forma mais idealizada. e isso, a gente entra numa série de outras coisas, com certeza, mas eu creio que fica muito forte com personagens infantis. Porque nesse universo, o simbólico, o lúdico, é forte demais; então tudo que é criado pensando esse público, tendo esse foco, sem tem sucesso, é porque se concentra mesmo nessa questão. Talvez por isso, apesar de minha esposa e tantas outras pessoas terem horro a palhaço, ele ainda seja uma figura tão forte no imaginário infantil: o que está ali é menos uma pessoa e mais, muito mais, um símbolo da brincadeira, da diversão. leveza mesmo. 

O leitor já deve saber, até mesmo pelo título, que estou falando disso hoje por causa da morte de Tom Veiga, o manipulador e intérprete do Louro José, uma figura clássica de mais de 20 anos nas telas brasileiras. Um homem novo, levado tão cedo pelo AVC, esse inimigo invisível. E é claro que o mais cínico de nós pode levantar e dizer "ah, mas agora todo mundo que morre é santo!", e talvez ele o fale com uma certa razão, mas não nesse caso. O programa Mais Você de Finados, foi particularmente sensível e emocionante nesse sentido, de homenagear o homem e o personagem, ambos levados tão cedo pro mundo da saudade. Sim, também o Louro José , pois é até imoral pensar em se pôr um novo intérprete no boneco, pois ao que se vê, Tom Veiga era o Louro , e vice-versa.  

 Por isso, não me sinto errado em desejar um bom descanso eterno para o homem e o personagem. E também minha palavra de consolo, não só para os membros da equipe do programa (que duvido que leiam isso), mas para quem se sente triste mesmo, e não acha que deveria se sentir. Eu acho que todo sentimento que não machuque outra pessoa é válido, e também acho que a tristeza por essa morte tão repentina, é também de certa forma um lamento pela morte de um pedaço do nosso passado, que tomávamos como certo e que agora foi-se de repente. Não só um boneco: um símbolo de tempos menos tristes em nossas vidas, talvez. 


Descanse em paz, Neilton Veiga Júnior / Tom Veiga / Louro José. As manhãs com certeza serão mais cinzas sem você. 

domingo, 1 de novembro de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: 1999


 À medida que o tempo passa, acho que é inevitável sentirmos nostalgia do passado, ou melhor dos passados, pois creio que temos uma multitude de pretéritos para escolhermos lembrar: os tempos de criança, os de adolescente, os de juventude começando na vida adulta e complicada....

Nesse momento, olho para trás e observo os meus 12 anos de idade, isso já a quase 21 anos atrás. Billy Korgan, na sua canção 1979, fazia o mesmo, lembrando de sua passagem da infância para a adolescência, com a vantagem de "só" terem passado 17 anos , ou seja, menos coisa para lidar, para lembrar. Quanto a mim, tenho aí pelo menos uns 4 anos a mais, e acho que hoje em dia, nós todos sabemos bem o quanto meses podem mudar a vida de uma pessoa; dirá então anos. 

Ainda assim eu olho, e penso no porquê disso. Não posso dizer que meus 12 anos de idade tenham sido particularmente tranquilos e felizes: a puberdade me acertou em cheio com todos os seus dramas, e se posso ser completamente justo, eu também estava num momento de mudança fora de mim forte: nova escola, novos companheiros de classe, a descoberta pouco a pouco que os adultos que me cercavam não eram, em absoluto, donos da verdade.... mas talvez por isso mesmo, eu tenha parado para pensar mais e mais nessa época. Como se rememorar ela fosse revivê-la, e assim evitar velhas dores, velhos erros. 

Em tempos tão sombrios, é fácil pensar no passado como uma época de fuga, tempos mais simples, um momento onde podemos mudar tudo. Nessas horas, talvez uma breve âncora de realidade seja o mais necessário, e lembrar também que o que veio antes não necessariamente era melhor. E mudar o passado apenas dentro da cabeça é uma tolice, nunca se muda nada para trás, só para frente, sempre para frente. Afinal, como dizia Stan Lee, é nesta direção que a ação está!