sábado, 11 de abril de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Delivery

(Lifeline, de Pascal Campion)

A comida estava acabando aqui em casa, então nos organizamos e pedimos uns vegetais e suprimentos básicos pros próximos quinze dias. A coisa toda saiu menos cara do que possa parecer a primeira vista; os mercados ao redor resolveram trabalhar em massa com entrega, então acabamos pagando mais ou menos o preço que pagaríamos indo no mercado em si. Tudo feito com as exigências destes novos tristes tempos: o pagamento online, a distância constrangida entre as duas pessoas no processo de entrega e recebimento, o olhar meio desconfiado/meio julgador dos que passam na rua e observam esta pantomina.

Olho então para o entregador, e penso em quanto essas pessoas, esses profissionais do delivery, arriscam suas vidas neste momento, aliás até mesmo antes destes tempos, cruzando as ruas em bicicletas ou motos para nos proporcionar um fruto de um privilégio que temos. Sim, pois o próprio ato de eu poder pedir uma comida e ela ser entregue em minha casa é um privilégio que deve ser reconhecido - não por uma falsa moralidade, mas para se entender o que ainda tem que melhorar para que todos possam viver melhor.

Esses trabalhadores estão ali fora, nesta mesma hora em que escrevo estas linhas, e a temperatura está 16 graus. Chove um pouco, então a sensação térmica deve estar menor ainda que isso. Eles enfrentam estas ruas não por um senso de bravura - embora certamente há que ser valente para se conseguir ter forças neste momento tão complicado - mas sim pela necessidade. Sem o trabalho, não haverá o pão para comer, e num país em que o governo nada se importa com esses homens e mulheres, o risco de adoecerem é melhor que a certeza da fome. É a lógica perversa que o sistema lhes força goela abaixo, e que é apoiado por um presidente que joga com vidas ao invés de salvá-las. 

E ainda assim, ali estão eles, os pacotes entregues, o rosto cansado já pensando na próxima corrida que terão de fazer. A coragem nascida do desespero -  e ainda ter de ouvir impropérios ao longo sua jornada de trabalho!

- Vai aprender a dirigir, motoboy lixo!

- Cuidado com esse portão, esse motoboy tem cara de bandido...

- Se não entregar em meia hora, vai perder o pagamento dessa corrida!

A verdade é que falhamos com estas pessoas,  por forçá-los a realizar um trabalho mais perigoso o que nunca hoje em dia, por nem sequer considerar que o pagamento por isso é o mínimo ou abaixo disso. Eu mesmo sou culpado nisso, nenhuma gorjeta que eu dê a mais para o motoboy que me traz minha comida vai resolver este grande problema que lhe absorve, embora certamente seja apreciada e você também deveria dar se puder.

À guisa de reparação, escrevo estas mal traçadas linhas e mando uma saudação aos  entregadores, aonde quer que estejam neste momento, com quaisquer que sejam seus pacotes. Sigam em paz, perdoem a nossa falha em deixá-los assim, e que num mundo pós-pandêmico nós possamos trabalhar juntos, e tornar o mundo mais suave para vocês e para todos. Um mundo forte e conectado.

PARA OUVIR: Baker Street 

PARA LER: O Padeiro


Um comentário:

  1. Eu diria que em outros tempos somente a pura sensibilidade e o detalhismo poético para trazerem ao protagonismo tais personagens que normalmente seriam secundários em algum conto ou crônica ou vida real...mas, em tempos de pandemia, tudo é diferente. Será?

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