domingo, 16 de junho de 2024

Crônica: Alea Jacta Est




Ultimamente tenho pensando muito no futuro. 

Ter um filho muda as coisas em sua mente. É claro que as prioridades mudam: Um ser minúsculo depende de você quase tanto quanto te ama, e de uma forma tão primal e desesperada quanto. E então você corre para comprar fraldas, remédios, comida específica para o estilo de alimentação dele, e quando percebe um ano e três meses se passaram já, e você mal se recorda como era dormir uma noite inteira, ou como era sua vida antes de sentir tanto amor no coração. Poderes da paternidade, suponho, e estou certo que a minha esposa tem algo igual ou superior a dizer a respeito disso tudo. 

Mas para além disso, eu tenho pensado muito em futuro, em legados. Sou antes de tudo, um historiador, apesar dos tantos chamados de vocações que me puxam para todos os lados. E é difícil para mim não olhar para frente com temor: do clima, dos avanços dos fascismos, dos medos que creio virem acoplados em todos os pais e mães que se importam com seus filhos. O mundo tem dentes e morde, já sabemos, mas como esses dentes assustam quando tememos pela vida de outro! 

Então sigo pensando no futuro, e me paraliso. Bem sei, bem sei: de nada adianta me focar no que não aconteceu ainda, é preciso focar no presente, construir o que se pode, guardar a comida agora e não me preocupar com a fome do inverno. 

Mas eu não tenho escolha. Minha mente é assim, e sou prisioneiro destes químicos que a governam; apenas um espírito tranquilo numa nave mental defeituosa. 

Então sento e penso, e agora já é tarde da noite, e minha esposa e meu filho dormem, e na escuridão da sala de estar sou iluminado apenas pela luz da lua e das estrelas. Daqui a pouco serão 5 da manhã, eu penso. Mas não consigo levantar do sofá

O que me move é o choro do bebê, uma emergência que eu posso lidar. Aline já foi lá no quarto dele recentemente, agora é a minha vez. então levantamos eu e meus temores, e tentamos lentamente dar ao meu filho chorando a calma de espírito que eu já perdi a tanto, tanto tempo. 



terça-feira, 7 de junho de 2022

Crônicas do ano do tigre: Caoslma



Não sei se alguém sentiu falta ou não destes escritos mas a verdade é que eles tem ficado cada vez mais escassos. Tenho na verdade, feito dois textos no máximo por mês, e não vejo muito porque eu faria mais. A verdade é que eu ando vivendo muito mais que escrevendo, sentindo muito mais que passando as palavras para o papel, e isso , é claro, refletiu muito na minha produção. Mas sempre haverá o que se falar, penso eu, especialmente em dias intensos como os nossos. 

E que dias, não lhes parece? Em breve, eleições: eis um vespeiro que muita gente já está sentindo as picadas doloridas. Além disso, guerra na Europa, um fato velho conhecido da humanidade por certo (resta saber se ele irá se desenvolver como todos os outros aconteceram); inflação galopante, uma velha conhecida dos brasileiros; insegurança a mil.... Não sei se vale a pena dizer que estamos melhores ou piores que dias anteriores, pois nossa dor é toda nossa, não de antes ou depois. Mas que estamos sentindo a pressão na alma, ah isso estamos mesmo!

No entanto, não posso deixar de perceber que tenho me sentido cada vez mais calmo, mesmo perante isso tudo. Não digo aqui que seja uma calma que tem esperança de que as coisas melhorarão, ou que eu tenha certeza de que sei como resolver tudo. Ao contrário, tenho a certeza absoluta que não sei resolver absolutamente nada, e que quando os problemas chegarem (e chegarão, sempre chegam), eu terei de tentar me virar com os recursos e conhecimentos que tenho. Portanto, a calma que sinto no peito é talvez menos a do esperançoso e mais a do resignado, que vê que vai acontecer algo ruim de qualquer forma, e percebe que o que lhe resta fazer e acomodar-se da melhor forma possível, a fim de não romper nenhum osso na queda iminente.

Não sei dizer se isso é pessimista, realista, ou otimista: simplesmente acho que é, que existe e que sigamos. Também não sei dizer, caro leitor, quando foi que fiquei assim. Mas sinto que, estranhamente, as coisas ao meu redor tem tido muito mais valor, pois um bolo doce que eu possa comer nesse momento não é algo que eu tenha certeza que vai estar aqui amanhã. Um abraço caloroso não tem garantia de se repetir, nem um momento bom. Portanto, por que não aproveitar ele agora, nesse momento? Por que se deixar levar pela angústia do inevitável, quando podemos aproveitar a doçura do efêmero agora? 

Em suma, o desespero me trouxe paz de espírito. Não sei se recomendo ou não, mas se você estiver perdido, não custa tentar: nada tens a perder exceto os grilhões na alma. 

terça-feira, 17 de maio de 2022

Crônicas do Ano do Tigre: Salve a si mesmo, salve o mundo



Ultimamente tenho pensando mais e escrito menos, o que muitos diriam ser uma espécie de falha artística, mas acho que tem mais a ver com estar em dia comigo mesmo. Eis algo que acho que muitos não fazem: prestar atenção em si mesmos. Ainda mais vivendo numa metrópole como São Paulo, é fácil se perder dentro de questões que pensamos ser grandes, mas que são tão pequenas, tão ínfimas, que eu garanto que serão a última coisa que vai passar pela nossa cabeça, quando partirmos dessa para melhor. 

E é engraçado porque , contraditoriamente, acho que São Paulo acaba sendo um grande lugar para introspecção, para a filosofia (barata?) do dia-a-dia. Uma cidade tão gloriosamente dedicada a ser grandiosa acaba convidando a gente a olhar para dentro de nós mesmos, como uma contradição. E não é isso, no fim das contas, tudo que representa São Paulo? Contradições?

Mas os pensamentos podem ser perigosos, quando somos tentados a tornar eles maiores do que são. Há mais de um indivíduo andando aí fora, nesse frio de massa polar recém-chegada, que pensa que tudo deve ser transformado conforme a sua visão de cidade, de estado, de país. E isso é, de certa forma louvável; mas o que acontece quando não se dá espaço a nenhuma discussão, a nenhuma reflexão maior? É o caminho dos fanáticos, e eis algo que tem dado muitos dissabores a nossa realidade nesses tempos. 

Talvez pior que isso, é fácil tornarmos os problemas de fora, os nosso problemas pessoais, e aí mora uma grande armadilha, pois jamais seremos capazes de resolver, sozinhos, os problemas de toda uma geração; e portanto nosso sofrimento será intenso, posto que teremos no peito o fogo da mudança mas nunca teremos a sensação de estar fazendo o suficiente. Às vezes, vale a pena reduzir o foco, do macro ao micro. Talvez, antes de mais nada, precisemos mudar algo internamente, e aos poucos seguir para o externo. 

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Crônicas do Ano do Tigre: Tempos e tempos verdes


Napoleão, quando invadiu o Egito, teria dito aos seus soldados "Do alto destas pirâmides, 40 séculos vos contemplam". Eis algo que um conquistador clássico diria, posto que é antes de tudo um romântico; afinal, para se sonhar dominar toda a Europa, você tem que ser ou um pouco maligno, ou um pouco romântico, possivelmente um pouco dos dois. 

A verdade é que, antes de qualquer apreço pela história, Napoleão estava embasbacado com o sublime de se ver construções tão antigas, e deve ser algo que realmente assombra a mente. Não sei dizer, não estive no Egito ainda; Mas posso dizer que uma emoção similar sempre me passa quando observo, andando pelas ruas de Sampa, as nossas estrondosas árvores, que existem sim, apesar da fama de cidade cinza que temos. 

E talvez por serem tão raras assim, eu me sinta abismado quando as vejo: tão fortes, em terreno tão hostil. E gigantes, algumas, nos lugares mais inusitados: aqui mesmo, em pleno Rio Pequeno, próximo a um lugar singelamente chamado de "Riacho Podre", há uma árvore tão bela que não pude me conter e tirar uma foto, que ilustra o começo desta crônica. "Maria Moura", eu a chamei, por ser tão forte e majestosa em meio a um terreno tão hostil. 

E assim sigo passeando pelas ruas de Sampa, observando estas construções majestosas da natureza, se é que posso assim dizer. Passo por elas caminhando, de ônibus, dirigindo às vezes; e sempre que as vejo, penso em como elas parecem acenar silenciosamente, para mim e todos que andam nas ruas, como testemunhas silenciosas de anos e anos de vida humana na terra, rumando para o nada, a troco de algo que pensamos valer a pena. 




domingo, 3 de abril de 2022

Crônicas do Ano do Tigre: Ghosts of São Paulo





 E entre tapas de atores, escândalos previsíveis e aumentos de valores da gasolina, o que mais me chamou atenção esses dias foi um post do facebook. 

Era um relato de uma amiga minha, falando de seu costume estranho, quando chegou em São Paulo, de ir ao aeroporto e observar as pessoas chegarem e partirem, quase como que uma versão de vida real daquele programa da Astrid Fontenelle na GNT. No post, ela contava o quanto gostava de ver as emoções acontecendo ali, in loco, e em como se sentia um fantasma, vendo de longe emoções que não lhe pertenciam. 

Eu não respondi no texto dela, mas digo aqui: querida amiga, somos dois, somos 3, somos milhares, perdidos em São Paulo, vivendo nossas vidas de fantasmas. Alguns de nós tem a pena comutada bem cedo; eu mesmo só fiquei como assombração nesta cidade grande por um ano, até poder me encontrar e estar com pessoas que são minha família aqui agora. Mas também eu fiquei vagando por aí, coletando emoções em cada esquina, levando para casa como uma tampinha de refrigerante para colecionar. 

Nós, os fantasmas, nunca andamos em conjunto, porque de alguma forma isso nos faria sentir ainda mais solitários; mas conseguimos reconhecer bem um ao outro. Lembro de andar pelas ruas do Butantã e observar os bares e festas acontecendo ao redor, e algumas vezes eu entrava em algum boteco, pedia uma cereja, e ficava ali pensando, humildemente pensando na vida, e nos meus erros. Sempre, em algum momento, eu veria uma outra pessoa com a mesma postura que eu, o mesmo olhar perdido, pensando... em que? A cidade de onde saiu? Os lugares que gostaria de ver? Quem pode saber? 

Principalmente agora, quando o frio caiu pela cidade, eu penso no fantasma que fui, e nos que andam ainda por aí, assombrando a si mesmos enquanto andam pelas ruas. Alguns sem casa para se refugiar, alguns com casa, mas sem lar.Eternamente vagando pelas trevas de suas mentes solitárias. 


terça-feira, 15 de março de 2022

Crônicas do Ano do Tigre: Talvez um mundo novo


E aconteceu o inevitável, que é um dos políticos dessa "nova onda" se mostrar como sempre foi: uma pessoa vã, hedonista, que diminui o sofrimento dos outros em prol de seu prazer. Arthur do Val, o tal "Mamãe Falei", nada mais falou do que já tinha deixado escapar muitas vezes antes, tanto ele quanto seus amiguinhos do MBL; qual o motivo para o alarme agora? Possivelmente, porque o horror falado tornou-se internacional, impossível de rir e mascarar como "ah, mas ele só fala o que todo mundo pensa, quem nunca, etc". 

Não que ele não tenha tentado isso, mas descobriu que não, nem todos olham para refugiadas de guerra e pensam em como transar com elas naquelas situações.

Depois veio o escândalo mais recente: o filme de Danilo Gentili, "como ser o pior aluno da escola", taxado como uma obra pedófila. Os primeiros acusadores disso, aliás, os próprios bolsonaristas que antes idolatraram aquela desculpa fraca de humorista como "o novo bastião do humo escrachado", etc. Gentili ainda tentou dizer que se sente feliz de ter ofendido gregos e troianos, mas a verdade é que sua grande base são, sim, os extremistas. Difícil ver como ele fica com essa, talvez um novo João Klèber, comediante do horror Collor que se limita agora a ser um meme de pegadinhas e flagras falsos. 

Há ainda mais uma, embora essa eu tenha que ser reticente e dizer que rio menos que sinto um pouco pela pessoa: um bolsonarista recentemente rumou para a Ucrânia, querendo participar da guerra. dizia-se instrutor de tiro e pronto para o combate; ao chegar lá e quase ser morto em um bombardeio, ele parece estar repensando tudo, e falando sobre os horrores da guerra. Muitos tem feito galhofas ao sujeito: eu não creio que isso é bom. Trata-se de um indivíduo que talvez tenha acordado, com a realidade bem à sua frente, e tenha percebido o quão diferente é seu mundo interno de fantasias ultramacho versus a realidade nua e crua, com morte e sofrimento. Pelo menos, assim espero. 

O que tem esses três elementos em comum? Lógico, eles tratam de quedas de patamares, em diferente níveis, de condicionamentos bolsonaristas (dentro ou não de uma lógica hipócrita): que a guerra é boa, que falar o que quiser tá liberado, e que humor bom é o que choca e humilha. Como eu disse antes, existe muito de hipocrisia nesses casos (particularmente no caso de Danilo Gentili, vide quem está pulando fora do barco para atacá-lo); mas eu gostaria de pensar que isso é um sinal, do começo do fim deste período medonho que andamos vivendo. 

Sei lá, talvez eu seja só um sonhador mesmo.





domingo, 27 de fevereiro de 2022

Crônicas do Ano do Tigre: Tempos Interessantes


Quando eu era garoto, durante os anos 90, houveram muitos momentos difíceis no Brasil e no mundo, e é claro que minha família passou pelos efeitos disso; num mundo globalizado, é o que acontece. Inflações galopantes, violência em larga escala, o avanço desenfreado das drogas.... tudo isso era parte do nosso dia-a-dia, o que talvez não seja novidade para nós que aqui estamos, basicamente com tudo isso. Mas lembre-se que eu era novo ainda na terra, então para mim era algo assustador.

O que era também novo para mim e, surpreendentemente, para os adultos que eu via ao meu redor, era uma certa... esperança, eu diria. Veja, os anos 90 vieram logo começando com o fim da Guerra Fria, que tomou tantas décadas e gerações. Você pode até dizer que isso não tem nada a ver com você nem com o Brasil, mas só estaria sendo um tolo se o fizesse: a Ditadura Militar que tivemos, por exemplo, foi um grande efeito do que foi a Guerra Fria. 

Ela acabar, portanto, deve ter sido um grande alívio mundial, porque mesmo criança eu conseguia sentir isso. Podemos sentir na verdade até hoje: se você ouvir músicas da época, ver séries, etc, vai ver que existe mesmo essa ideia de que podemos superar as coisas (as drogas, a violência, a pobreza), porque o pior já havia passado. Os problemas existiam, mas se o mundo havia superado a pior coisa que era esse conflito de influência das potências, eles conseguiriam tudo. 

É claro, 2001 veio, as torres gêmeas caíram, e todo esse sonho veio a abaixo com quase tanta violência quanto as próprias torres. Mas em algum momento ali nos anos 90, eu creio que as pessoas acreditaram... em algo. Talvez na possibilidade de serem melhores. Talvez na possibilidade do mundo ser melhor. 

Agora, com essa guerra da Ucrânia, ameaça de um conflito global batendo às portas, e tudo mais que tem nos acontecido antes disso (a lembrar: pandemia, governos corruptos fascistas, inflações recordes... e todos os outros problemas que já citei antes), fico  pensando cada vez menos nos meus anos 90, e na esperança do mundo naqueles dias, e penso cada vez mais nos que cresceram durante um período mais sombrio, anterior. Como eles faziam para ter esperança que as coisas melhorariam? 

Me pergunto isso todos os dias. 


domingo, 13 de fevereiro de 2022

Crônicas do Ano do Tigre: A Paz Verde



Eles existem, estão espalhados por aí: os pequenos bolsões de paz na selva urbana. Ou médios, pelo menos: Alguns nem tendem a ser tão pequenos assim , mas certamente não tem nada de grandes - talvez porque isso acabe diminuindo o impacto das coisas, de certa forma. 

Podem ser parques, praças, ou até mesmo uma rua em especial: mas é ali que se sente algo especial, um descanso do correr frenético e cansativo. Quando cheguei aqui em São Paulo, por incrível que pareça, esse lugar de paz era uma rua sem saída, onde ao fim há uma árvore gigante. Fica em frente a um condomínio, e perto de uma avenida, mas ainda assim nunca vi um silêncio se aproximar tão rápido, como se a árvore fosse ela mesma um ímã do silêncio. Sempre vou lá quando posso, com minha esposa, buscar um pouco dessa tranquilidade.

(Madrinha, é como chamo a árvore. Sou bicho-grilo mesmo, dou nome para as coisas)

Com o tempo, fui encontrando outros lugares, alguns óbvios ( a biblioteca da CCSP e sua gibiteca, é claro), outros nem tanto (por algum motivo, a rua ao lado do hospital Santa Catarina, na Avenida Paulista, me dão uma paz tremenda!)... mas em todo lugar de São Paulo, eu fui montando estes pequenos santuários pessoais, estes lugares de reenergização. Tudo isso para minha grande surpresa: não esperava isso de uma cidade tão grande como aqui. Talvez eu tivesse uma visão errada quando vim para cá. 

Em Belém do Pará, por 27 anos meu lugar de paz era uma avenida toda: a Gentil, lugar onde ficam tanto minha biblioteca favorita quanto muitas memórias de jovem. Quantas vezes não voltei no ônibus, o calor intenso no coletivo de janelas fechadas para a chuva não entrar, mas ansioso para chegar em casa e ler os livros emprestados do Centur? Estas são, talvez, uma das mais fortes memórias que carrego em meu coração de minha cidade natal. 

E ontem, no sábado, quase pude reviver estas mesmas memórias de descoberta de paz, quando fui com minha esposa no parque Severo Gomes, um lugar tristemente cercado por um bairro rico (e portanto distante da realidade do bravo povo à margem aqui do meu bairro, por exemplo), mas tão poético que chega me dói o coração de lembrar. Crianças brincam e comem em picnics ali, e há trilhas: ao longe o som do riacho restaurado pela ação do Estado. O calor do dia completamente reduzido pelas árvores.... é um paraíso, amigos. Gostaria que todos que moram aqui em São Paulo pudessem ir lá e desfrutar, garanto que pelo menos relaxados vocês saem. 

Mas nem todos tem o mesmo caminho de paz - e portanto nem todos tem o mesmo jeito de montar estes santuários. Então, a pergunta que fica é: 

Quais são seus lugares de paz na sua cidade? 

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Crônicas do Ano do Tigre: É preciso sonhar.





Eu, tal qual muitos outros, aprendi a ler basicamente com quadrinhos. Turma da Mônica, como todo brasileiro, mas também um pouco de quadrinhos Disney, que nem sei se são publicados hoje em dia ainda. Li muito Mickey Detetive, Superpateta, Zé Carioca.... Depois vieram os quadrinhos de super-heróis, um hábito que tenho até hoje em dia: Homem-Aranha, Batman, X-men, Demolidor, Novos Titãs.... tudo isso, misturado com uma boa selete de quadrinhos italianos, como Tex, Zagor, e outros. 

Digo tudo isso, porque queria deixar claro que meu ponto de vista é bastante enviesado: antes de ser moda, eu era já um fã de coisas nerds, e até hoje em minha mente é possível encontrar pormenores de histórias que a maioria das pessoas nem se lembram. Essas histórias ficaram em minha mente, porque elas ressoaram dentro de mim, tal qual acontece com toda história que encontra seu público-alvo. É assim que a gente descobre o que gosta, não? Lemos/vemos algo que nos interessa, e aos poucos vemos que a história é menos sobre alienígenas, ou seres fantásticos, e mais sobre nós mesmos. Sobre quem somos na Luz e nas Trevas.

E me parece que é hora, de tentar buscar alguma coisa de esperança, para nós e para quem virá. é certo que o mundo é sombrio: tenho 34 anos e não consigo em lembrar nenhum ano que as coisas foram 100% tranquilas, sem preocupações ou perigos nas redondezas. A terra em que cresci, Belém do Pará, não é famosa por sua segurança ou justiça social: ao contrário, muitas coisas ruins aconteceram ali, como acontecem em todo mundo, de fato. Mas eu cresci, e não sou somente desesperança: também sou sonhos, amor, vontade de ver um futuro bacana. E grande parte dessas esperanças vieram da leitura - e como eu lia (e leio) muitos quadrinhos, veio dali também.

Mas não nos limitemos a esse meio: que venham livros, filmes, músicas, que nos ajudem a sonhar um pouco mais. É certo que o mundo está acabando: pelo menos o nosso mundo está. Mas, se houverem humanos neste próximo que chegará em 50, 100 anos, que deixemos algum legado além da dor e das sombras: que escrevamos histórias onde vemos as estrelas além do nosso céu, onde vencemos o inimigo invencível, onde a vitória traz o fim do sofrimento. Não podemos legar só horror para nossos filhos, porque não foi só isso que nos foi passado: há que passar também a esperança para eles cirarem dias melhores para si, quando sua hora chegar. 



segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Crônicas do Ano do Tigre: Pedestre Indiscreto


Nesse fim de semana alguns amigos meus vieram por aqui em Sampa, e foi acionado aquele velho botão que temos em nossa mente: o do turista deslumbrado. Caminhamos eu, Genival (meu amigo de longa data), Tayná (sua futura esposa), e Aline pela Pauliceia Desvairada, e fomos mostrando alguns pontos clássicos da minha cidade adotada: a Pinacoteca, a Estação da Luz, Conjunto Nacional, etc. Nem sempre deu certo , alguns lugares estavam fechados, mas o passeio foi proveitoso, e hoveram promessas de retorno para ver mais, então vejamos os próximos capítulos.

Mas o que eu queria falar aqui é que, com o botão de turista ativado, ficamos sempre um pouco mais observadores, ou pelo menos eu fico. E caminhando pelas ruas, tanto passeando quando voltado para casa, não pude deixar de olhar as coisas e incutir num velho jogo que carrego comigo a muito tempo: o de imaginar o que fazem as pessoas que moram em cada prédio, em cada vizinhança que passávamos. 

É este um jogo muito antigo em minha vida: lembro de fazer isso desde criança, na cada vez mais distante (de minha vida) Belém do Pará. Eu sempre tive fascínio nisso, em saber como as pessoas pensam, como reagem às coisas da vida... me parecia (e me parece ainda), que ao vermos a frente da casa ou uma parte do apartamento desse estranho, podemos saber um pouco mais da vida dela. De como esse indivíduo é, o que pensa. 

Bônus se for pela noite, e você vê apenas a luz acesa do apartamento ao longe: a mente voa, as hipóteses aumentam quase sem controle. Será que é um solitário esperando a noite passar? Será alguém trabalhando noite adentro, tentando cumprir um prazo que não conseguiu antes? Será apenas, como eu, um noctívago, que gosta da tranquilidade das madrugadas para poder pensar e entender melhor o dia que acabou de passar?

Nunca saberei, e isso é parte do jogo: essa incerteza. Penso que talvez seja esse o tempero da vida, o verdadeiro "botão" de turismo que falei no começo: olhar as coisas com o olhar perdido, e encontrar a poesia do dia-a-dia a muito esquecida. 



quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Crônicas do Ano do Tigre: Future Nostalgia


Quando eu era criança, pelos domingos, meu pai preparava um martini com azeitonas (na época, eu detestava azeitonas, como toda criança), ajeitava sua cadeira e os jornais de domingo para ler, e punha um cd de mpb ou jazz para tocar enquanto líamos os jornais. Era algo meio sagrado, esse ritual. Eu e meu pai  lendo os jornais, enquanto minha mãe estava vendo TV ou talvez preparando o almoço, e meus irmãos brincavam ou faziam alguma tarefa escolar do dia seguinte. Hoje eu olho e penso em tantas cenas erradas que tinham esse ponto de começo; mas naquela época aquele me parecia o ápice de uma vida adulta, da calmaria de ser adulto e ter controle das coisas. 

É claro que isso era tudo uma ilusão: meu pai provavelmente estava lendo o jornal e pensando em como diabos iria pagar alguma conta atrasada, bebia seu martini talvez para desgustar um pouco de tranquilidade antes da segunda vir e estourar seu oásis de paz. Mas a verdade é que eu olhava isso tudo e pensava: Deus, quando eu for adulto, eu queria muito ser assim, ter essa certeza da vida, bebericar meu martini, ler o jornal. 

Hoje tenho 34 anos, odeio martini (embora eu tenha adquirido um gosto por azeitonas), e não tenho o menor interesse em ler o jornal de Domingo, prefiro ler os portais de notícias e ir buscando aprofundamentos em algum assunto que eu queria saber mais na internet. Também não tenho a segurança que imaginei que teria aos trinta e poucos, mas creio que nem meu pai tinha a mesma segurança, então já fiz as pazes com essa "falha" minha a algum tempo. 

Ainda assim, sempre tem algo, uma música (MPBs e Jazzes da vida), um cheiro (de jornal novo), uma temperatura específica ( aquele momento do dia que não está em frio, nem quente, equilíbrio perfeito), que me levam de volta para aqueles domingos, quando eu acreditava que era possível domar o mundo tal qual se doma um animal selvagem. Nessas horas, nesses momentos, eu sinto saudade do futuro que eu tinha visto, esse de segurança, e domínio de mim mesmo. 

Às vezes, sentimos saudade do futuro que nem veio, e nem poderia vir. 


quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Crônicas do Ano do Tigre: (Im)Previsões


Escrevo à noite. Pela tarde, choveu muito, então o ar está um pouco frio por agora, embora não tanto quanto eu gostaria; de qualquer forma é um tempo incomum para o verão paulista, me disseram. Aparentemente, antigamente era bem mais quente, mesmo pela noite; e as chuvas que vinham era rápidas e intensas, mas não tão repetidas como tem sido, desde dezembro passado. 

Não saberia dizer se essa visão, do tempo estar diferente, está certa ou errada, eterno neófito que sou em Sampa; mas é verdade que o tempo anda esquisito no mundo, e não falo só de chuva ou sol. Já fazem alguns anos que as coisas não andam as mesmas, não lhes parece? Há cheiro de mudança no ar, e antes que os mais otimistas pulem de alegria e pensem o melhor, deixe-me dizer que mudanças podem ser boas ou ruins: depende muito do que se está mudando, para que lado se está seguindo exatamente.

Dizem que essa mudança toda foi o que atraiu o velho fedor dos extremismos e (neo?)fascismos que assombram o mundo hoje em dia. Não é uma ideia de todo estranha: quando forçado a observar algo novo surgindo em sua vida, o ser humano tem uma tendência notável a se apegar com crenças e costumes do passado, quanto mais não seja para sentir-se mais seguro, como quando da época que essas crenças existiam. Não importa o quão odiosa ou retrógrada uma crença seja, desde que ela dê ao indivíduo o que ele mais deseja: segurança contra o mundo que ele sente lhe ofender. 

Também dizem que as coisas vão melhorar, com absoluta certeza; que não se tem mais espaço para velhas crenças, que isso que passamos agora é um respiro final desses velhos tempos. Que o futuro será iluminado pelas liberdades de ser e estar. 

Eu sou historiador de formação. Não acredito muito nesse último argumento; O que vejo na história são espirais de repetição, a velha coisa da tragédia e farsa sempre se repetindo ao longo de nossa triste saga na Terra. Mas algo em mim quer crer no fim de tanta desilusão, tanta tragédia desnecessária. Algo em mim quer crer que iremos ficar melhor depois disso. 

Talvez eu esteja só ficando velho mesmo. 


terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Crônicas do Novo Normal: 2022 e o quebra-cabeça musical.


Eu tenho ouvido muita música nos últimos dias. George Harrison, Paulo Diniz, Rita Lee, Modest Mouse...A lista é grande é entremeada de um monte de cantores e bandas bem ecléticos. Acho que isso vem do meu entendimento de música: ela serve menos como identidade, e mais como uma espécie de gabinete de emoções: o que você quer sentir hpje? O que você precisa sentir hoje?  Não é a toa que quem sofre, tende a pôr uma playlist de seu cantor favorito para chorar: Música é exorcismo também, acima de tudo. 

Talvez por isso eu esteja ouvindo tanta música esses tempos, pois a verdade é que eu tenho tentando pensar em que espécie de pessoa eu quero ser neste ano que virá. Tenho certeza que muitos dos leitores também pensam da mesma forma, naquele tipo de resenha crítica de como foi seu ano. Se assim for, espero que vocês tenham tido compaixão consigo mesmos, e percebido que muita coisa não poderia ser feita: estamos ainda no meio de uma pandemia (que inclusive, parece que vai voltar com alguma força em 2022), há que se fazer o que se tem forças físicas e mentais para conseguir. 

Mas no meu caso, tenho pensando muito nisso porque existem grandes mudanças vindo em 2022, pessoalmente. E eu sempre me sinto a deriva um pouco nesses momentos, e por isso ouço tantas canções , antigas e novas. Suponho que busco nelas algum pedaço de mim cnatado por outra pessoa, para poder me remontar de uma forma mais colorida. 

O resultado é tão híbrido quanto confuso: um pedaço meu está naquela canção do Nirvana, mas também tem um pouco ali em Beatles. Outro talvez eu encontre naquela canção do Roberto, outro pode estar nas canções da Gal mesmo; tudo é uma busca. Os ouvidos ficam zunindo depois de tantas sessões(pois não sou nada além de fanático nessas buscas), mas há mesmo uma paz grande em meu peito quando consigo encontrar esses pedaços, algo como a sensação de uma peregrinação cumprida, que foi satisfatória. 

Ainda estou buscando muitos pedaços. Mas quem sabe até o fim de Janeiro eu já não tenha uma boa ideia? Por hora, sigo o conselho do velho filósofo: vou conhecendo a  mim mesmo, com a trilha sonora que eu achar que encaixa melhor. 


quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Crônicas do Novo Normal: Viciados em Frutas Anônimos


No Domingo houve uma feirinha aqui no condomínio, onde tentei vender meus livros e consegui muito mais amizades que vendas. Na sala onde eu estava, conheci uma confeiteira de mão cheia vendendo pães de mel (comprei), uma artesã com uma bolsa manufaturada muito bonita e prática (comprei também), e este que vos fala (ninguém comprou de mim porém). 

É claro que não havia só nós na feirinha, e uma das pessoas que ali estava era uma moça muito simpática, que chamarei aqui de Flora. Pois vejam, o comércio de Flora eram não livros, bolsas ou doces: seguindo um caminho muito mais natural, ela estava vendendo frutas. Não frutas quaisquer, veja: ali haviam ameixas (daquele tipo gigante e docinho que só vi aqui por São Paulo), pêssegos, morangos... A venda aqui era de alta qualidade, e por preços honestos. 

Sou um fraco por ameixas: comprei de Flora uma boa bandejinha, e um punhado de pêssegos de lambuja, afinal, estava me sentindo rico com todo o dinheiro que não arrecadara naquele fim de semana. Terminada a feira, levamos as frutas para casa, lavamos, e começamos a comê-las. 

Foi nosso erro: as ameixas não eram só doces; eram fora do comum. Comemos ameixas e pagamos o preço sanitário de comer tanto, mas não conseguimos parar. O pêssego, também,  se demonstrou uma fruta excepcional, doce e ácida na medida certa. Para mim, um indivíduo que só conhecia pêssegos em calda nas latas da vida, aquela fruta foi uma descoberta, e um manjar. 

E porque as frutas erma tão boas, estamos agora com o contato de Flora, nossa fornecedora oficial; Sabemos dos horários que ela recebe as melhores frutas (pela manhã, às 10), e qual o procedimento para pegar as bandejas. Entramos em contato com ela pela noite, e perguntamos qual a melhor fruta para se comprar naquele dia (amanhã, por exemplo, é dia de cereja). 

E cá estamos, eu e minha esposa, conversando um com o outro como se fossemos viciados em drogas esperando o carregamento:

- Falei com a Flora... amanha ela não tem morango. 

- Droga! A gente perdeu a oportunidade de hoje...

- Mas ó, ela disse que amanhã consegue pra gente 200 gramas daquela ameixa docinha...

- Reserva, reserva! 


Eis o Mistério da fruta. 


quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Crônicas do Novo Mundo: Um Lançamento

Fonte: Blog Adrielson Furtado

É estranho voltar de onde se saiu, com a cabeça de não mais retornar. Mesmo que seja uma visita, fica aquela sensação: Por que estou Aqui, se meu futuro é Ali? Qual o motivo desse retorno?

Esses eram meus pensamentos quando cheguei em Belém, alguns dias atrás, para lançar meu livro O Catálogo das Coisas Específicas (ainda a venda, entre em contato comigo para saber como adquirir seu exemplar). A viagem foi horrível, com o aeroporto bagunçado, e três horas e meia de turbulências que me impediram tanto de dormir como de ler sem sentir enjoo. Quando saí finalmente do avião, o bafo quente da cidade me acolheu às quase 3 da manhã, e eu soube, finalmente, que tinha retornado à minha cidade natal. 

Tenho uma relação conflituosa com Belém do Pará. Por um lado, é onde nasci, e me criei. A maior parte da minha família está lá, com destaque, é claro, para meus pais, ainda vivendo na casa que nos mudamos quando eu ainda contava com cinco anos de idade, e meu irmão mais novo praticamente tinha acabado de nascer. 

Tudo isso deveria causar um efeito de nostalgia em mim, e realmente assim acontece; apesar disso, não consigo deixar de me sentir um pouco mal quando vou para lá, porque quando passamos muito tempo em um lugar determinado, é inevitável ver ali seus triunfos e seus fracassos. Como bom católico relapso que sou, a maior parte do que vejo ali são minhas falhas, andando pelas ruas como fantasmas a demandar atenção para si, ou talvez redenção. 

O leitor pode imaginar, portanto, que a maioria das minhas viagens são temperadas por essa tristeza, e é verdade. Contudo, dessa vez, as coisas foram bem diferente; talvez porque era um momento especial (meu primeiro livro solo, a primeira vez que veria meus pais depois dessa pandemia tão cruel, a primeira ve que veria minha sobrinha Maria Estela...), talvez porque os livros que tenho lido tem deixado minha mente mais aberta (James Lee Burke é um poeta da literatura policial), ou talvez simplesmente seja meu terapeuta Dr Pedro conseguindo me fazer alcançar um avanço mental maior que antes: o fato é que dessa vez, a sensação foi muito diversa de vezes anteriores. 

Como posso explicar? É difícil. Existem sentimentos que nem o melhor dos escritores conseguiria pôr no papel, e eu estou longe de ser um destes. O que posso dizer é que, enquanto andava pelas ruas da cidade, acompanhado de meus pais buscando uma calça para mim (este, um tema para a próxima crônica), olhei para o céus, senti o calor, e não pude deixar de sentir uma ternura imensa pela cidade, como quando sentimos quando se vê um animal ferido andando pela calçada, machucado mas ainda belo em seu porte e aparência. 

O sentimento se espalhou durante toda a viagem, e cada pessoa que eu vi, e interagi, só me fazia sentir ainda mais este carinho imenso, esta ternura profunda. Então percebi porque me sentia mal indo para Belém: a cidade não falhou comigo, mas eu sim, que pus nela a minha imagem de pecador, de culpado. Não era a cidade que era feia, e sim a minha visão de mim mesmo, que assim era.  

E quando consegui ver a cidade com outros olhos, consegui me ver com esse mesmo olhar novo; e finalmente o véu do julgamento caiu de meus olhos.

Desta forma, no dia 04 de dezembro, lancei muito mais que só um livro: também lancei uma nova imagem de mim mesmo. 

E você leitor, quando foi seu último lançamento?



quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Crônicas do novo normal: Duas histórias de Luto


Tenho pensando muito, nesses dias, sobre a perda. Aquele momento inevitável que ocorrerá na vida de todos, em algum momento, seja de um familiar, de um amigo, ou mesmo de uma pessoa que você admirava e simpatizava mesmo, por que não? Perda é perda, e os simbolismos que ocorrem são os mesmos, creio eu, embora talvez em uma intensidade menor. 

A cabeça que uma pessoa tem, quando está sentindo a perda, é algo inescrutável, posto que cada um age de uma maneira específica. É por isso que é tão cruel julgar como reagem parentes e amigos num funeral, não sabemos como está a cabeça deles, não realmente. Existem formas e formas de se lidar com a dor. 

Um exemplo: Lembro quando houve o funeral da minha avó paterna, tantos anos atrás. Enterramos ela por baixo de uma chuva forte, um clichê que ajuda muito a entender o momento grave da situação, acredite. Voltamos correndo para nos abrigar sob uma espécie de pergolado que ficava ali no cemitério. Quase que como um código, chegamos ali, e os parentes começaram a contar piadas e histórias engraçadas sobre a minha avó, sobre a vida dela. Eu lembro disso tão claramente, porque me pareceu uma espécie de desrespeito à memória dela. 

Seis meses depois, meu tio, irmão de meu pai, falecia também. Como que por rima (mais que por razão), também chovia muito naquele dia; ajudei a carregar o  caixão nas duas ocasiões, então lembro bem da sensação de andar com o pé enterrando na lama tenebrosa do cemitério, o mesmo para os dois entes queridos. Também naquele dia corremos para o pergolado, também naquele dia começaram as piadas e histórias engraçadas sobre ele, meu tio. Só seis meses tinham se passado, mas eu entendia melhor naquele dia: Era a forma deles celebrarem a memória, não um desrespeito. Aquelas pessoas não conseguiam enfrentar a dor, sem o escudo do humor. 

Agora, que estamos cercados de morte por todos os lados (mais que o normal, diga-se, em um país que a morte surge pela manhã em nossa TV, como se fosse parte de um desjejum macabro), é bem claro para mim que o Brasil está em Luto. E talvez estejamos buscando, também, uma forma de lidar com ele, pelo riso ou pela dor. 

Sei bem que passamos por fases de tentar esconder e seguir em frente (um clássico do Brasil), mas agora, perto do fim do ano, talvez seja a hora de buscarmos entender essa dor, essas perdas, e decidir o que fazer com elas na cabeça. 

Talvez escrever uma crônica?

domingo, 21 de novembro de 2021

Crônicas do Novo Normal: Amores e Cegos



Esses dias eu vi mais uma série bosta de Netflix, esta chamada "Casamento às Cegas". Tornou-se, penso eu, um tipo de esporte entre as pessoas que saem pouco de casa e enfrentam essa pandemia interminável, buscar séries lixo que você possa apenas assistir e não refletir tanto, não pensar nos milhões de mortos, na inflação galopante, no desemprego batendo às portas. 

Apesar disso, não consigo realmente ficar sem pensar em alguma coisa, deve ser mal de estudante de Humanas. Então eu via a série e me assustava, porque ali em plena netflix, eu via uma série de pessoas entregues a um experimento completamente insano, pondo em jogo sua própria saúde emocional, Só por um pouco de companhia. Uma aposta alta, baseada em falsidades, para uma conquista vã. 

É fácil pensar nessas pessoas como estúpidas (deus sabe que eu fiz isso), mas se a gente pensar bem, quanto de nós mesmos não está ali? Esse desespero, essa fome por afeto, carinho, companhia? Eu fico pensando muito nisso. Quando mudei para São Paulo, eu passei muito por isso, e suspeito que muitas pessoas que vagam por essas terras passaram e ainda passam por isso. Não é a toa que Roberto Pompeu de Toledo chamou São Paulo da "Capital da Solidão", e que Criolo cantou destas terras: "Não Existe Amor em SP". É uma cidade cruel às vezes, esmagadora sempre, ainda mais com quem acabou de chegar e não conhece ninguém. 

Mas será que é só Sampa mesmo que é assim? Vendo esse programa, e pensando na vida, fico imaginando que o mundo em si é assim agora, lugares cheios de almas tão vazias, citando novamente Criolo. Que menos que amor, o que a maioria tem em seu peito é angústia, e quando duas pessoas se juntam em suas angústias e terrores, acham companhia, e confundem isso com amor. 

Ou será que isso foi o amor mesmo, desde sempre, e eu que não sabia identificar? 

Fica a dúvida. 


quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Crônicas do novo normal: Buscas


Quando eu era criança, eu queria ser detetive particular. Não sei dizer se é um sonho comum entre os pequenos; no meu caso, eu comecei com isso porque tinha lido muito Sherlock Holmes e Miss Marple (minha personagem favorita de Agatha Christie), e achei que era algo que eu gostaria de fazer da vida, resolver mistérios, ajudar pessoas. 

Cresci um pouco mais, e então decidi tornar-me historiador, após um flerte rápido em talvez jornalismo (que meu pai, ele próprio um jornalista aposentado, rapidamente terminou com umas boas doses de realismo sobre a carreira). Já naquela época, antes de até mesmo considerar fazer os processos seletivos da faculdade, eu não tinha ilusões: sabia que meu futuro seria ser professor. Mas achei que em história, eu saberia entender um pouco mais do que estava querendo entender. Eu ia conseguir encontrar a chave do que quer que eu estivesse tanto querendo saber. 

Me formei, fiz especialização em arqueologia, vim para São Paulo para o mestrado em imigração japonesa... e ainda nada do resultado da busca. Para sobreviver, comecei a dar aulas de inglês - algo que, de fato, eu sempre quis fazer. E veja a surpresa, comecei a conhecer muito das pessoas. Um professor de línguas deve mais ouvir que falar, e nesse meio, ele acaba ouvindo confissões, desabafos, rotinas de seus alunos. O professor acaba virando essa figura mista, confessor/terapeuta/mestre. 

Mais que isso, ao dar a aula de inglês, e conversar com as pessoas, eu comecei e entender o sentido da minha busca. Não a resposta para ela, veja bem: porque, por vezes, é mais fácil sentir a resposta para sua pergunta que efetivamente tê-la em palavras. Mas posso dizer que meus alunos, que eu ensinei e ensino todos os dias, me ajudaram a entender melhor parte de mim, e com isso, me ajudaram a chegar mais perto do que eu buscava, a verdade que eu queria, e quero, saber.

E no fim, as pesquisas, os estudos, as aulas que dou e recebo, me deixaram mais perto desta verdade. E eu nem ao menos sei dizer qual é ela, mesmo depois de tantos anos. Acho que possivelmente será uma busca eterna, uma cenoura que impulsiona este cavalo cansado a caminhar e caminhar. 

E enquanto não chego ao meu destino final, vou buscando verdades, e conhecendo pessoas. 



 

domingo, 31 de outubro de 2021

Crônicas do Novo Mundo: Ode aos meus outros vizinhos, as árvores


Morei em uma casa por aproximadamente 27 anos. Na minha terra Natal, Belém, a vida é bem plana (em mais de um aspecto); não temos tantas subidas e descidas quanto aqui pela terra paulista, a não ser que você conte as ladeiras pro estacionamento. Assim, foi com um grande prazer que me vi morando em apartamentos aqui em São Paulo, a vista distante no horizonte, acima das casas à frente, com uma visão do céu boa para ficar refletindo.

Um extra nesse prazer foi a convivência ainda maior com árvores. Parece contraditório - convivência maior com árvores em São Paulo?!- mas lhes garanto que meu contato com estas amigas vindas da flora foi muito maior aqui em Sampa que jamais foi em Belém do Pará, quando elas me pareciam, embora presentes, distante, em seu próprio mundo. Talvez  haja algo de triste nisso, um cidadão vindo de um lugar que é literalmente apelidado de "Cidade das Mangueiras", só vir a ter um apreço maior pela vegetação quando se mudou para uma cidade conhecida pelo seu cinza, mas assim é a vida, cheia de ironias. Antes, eu via as árvores com uma certa reverência; hoje, as entendo como quase amigas, ou pelo menos, companheiras de momentos de silêncio. 

Explicando porque eu comecei a prestar mais atenção nas árvores agora, eu antes vivia em uma casa, ou seja, diretamente na linha do chão. Era difícil para mim, portanto, perceber a grande dança de uma árvore, a forma como as folhas se mexem ao sabor do vento, como cabelos de um estilo diferente. O próprio som das folhas, que eu certamente já tinha ouvido antes, me pareceu mais próximo (porque estava, duh), agora que eu , de um apartamento, conseguia ouvir de perto, e quase tocar nas mesmas... Sim, porque até agora, tive a sorte tremenda de morar em apartamentos que são frente a frente com árvores de Ipê, altas, e belíssimas ao longo do ano, mas em especial nesta primavera que adentramos, maluca que seja. 

Na Pandemia, comecei a prestar ainda mais atenção nestas árvores minhas vizinhas, e quase se pode dizer que estabeleci um "diálogo" com elas: observo suas folhas e sei se o dia será quente e sem vento, ou se ao contrário, haverá uma tempestade em breve, e portanto talvez fosse melhor fechar as janelas antes que tudo voe. 

Muito mais que isso, são estas árvores companheiras da noite adentro, quando está tudo quieto em casa, e eu abro a janela e me permito apenas observá-las dançando com o vento, e em minha mente sou eu mesmo parte daquelas folhas, que talvez saiam voando livres pelo céu, rumo ao horizonte. 


quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Crônicas do Novo Normal: Carta ao meu vizinho de cima, martelador de pisos


Prezado:

3 anos seguidos que você faz reformas. Eu sei disso, porque cheguei aqui a 3 anos, e você já tinha acabado de se mudar também (junto comigo - será o karma de algo que fiz?), e então começaram as reformas, os arrastares de móveis, o caos. Não tente negar: todos nós , desgraçados que somos em ser seus vizinhos, ouvimos com total detalhes seus barulhos, as marteladas incessantes, os pisos sendo colocados (ou tirados, sabe Deus). 

No começo foi apenas um arrastar aqui e ali de móveis. Eu entendi como algo habitual, afinal, não era meu primeiro rodeio vivendo em prédios, ademais, você tinha acabado de se mudar; é evidente que alguns móveis teriam de ser arrastados, e quanto a isso não havia remédio. De sorte que fiquei aguardando passar esse tempo de barulhos. 

Só que não passou, não é mesmo? Depois disso vieram as furadeiras nas paredes, as galopadas pela sala de estar (presumi que fosse seu filho e aí descobri que você só tem um bebezinho que ainda não anda, então fica o mistério). Sem Contar  meu favorito: quando a noite, você insiste em dar uma marteladinha assim, como quem não quer nada, na esperança que nenhum de seus vizinho ouça e se incomode. Pois saiba que ouvimos sim.

Esse texto foi escrito com base no ódio de você, meu caro vizinho, ter martelado e furado uma parede hoje, ao mesmo tempo (!), feito que me seria notável se não fosse basicamente algo que me atazanou a cabeça e quase me impediu de dar aulas. Sim, porque trabalho com aulas online, meu caro, e também sei que seu vizinho do lado trabalha com telemarketing. Esse deve realmente ter uma raiva de você, aconselho não pegarem o mesmo elevador se puder evitar. 

Eu dizia que o texto veio na base do ódio, mas confesso que tenho piedade por você, meu caro. Uma pessoa que faz reformas incessantemente por 3 anos seguidos, deve ter algo que está tentando resolver em si mas que não consegue identificar, então externaliza isso em mais um novo piso, uma nova parede, uma tinta nova para o quarto. Como será que sua esposa e bebezinho olham essa bagunça incessante, vizinho? Será que um dia você vai preencher esse vazio que lhe atormenta no coração, e que você pensa que vai ser preenchido pelos ladrilhos novos?

Desejo-vos paz na caminhada, vizinho de cima. E aceitação ao seu apartamento, algo que fará nós dois felizes, te garanto. 

Um abraço do

                                Vizinho de baixo.