quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Crônicas do Ano do Tigre: (Im)Previsões


Escrevo à noite. Pela tarde, choveu muito, então o ar está um pouco frio por agora, embora não tanto quanto eu gostaria; de qualquer forma é um tempo incomum para o verão paulista, me disseram. Aparentemente, antigamente era bem mais quente, mesmo pela noite; e as chuvas que vinham era rápidas e intensas, mas não tão repetidas como tem sido, desde dezembro passado. 

Não saberia dizer se essa visão, do tempo estar diferente, está certa ou errada, eterno neófito que sou em Sampa; mas é verdade que o tempo anda esquisito no mundo, e não falo só de chuva ou sol. Já fazem alguns anos que as coisas não andam as mesmas, não lhes parece? Há cheiro de mudança no ar, e antes que os mais otimistas pulem de alegria e pensem o melhor, deixe-me dizer que mudanças podem ser boas ou ruins: depende muito do que se está mudando, para que lado se está seguindo exatamente.

Dizem que essa mudança toda foi o que atraiu o velho fedor dos extremismos e (neo?)fascismos que assombram o mundo hoje em dia. Não é uma ideia de todo estranha: quando forçado a observar algo novo surgindo em sua vida, o ser humano tem uma tendência notável a se apegar com crenças e costumes do passado, quanto mais não seja para sentir-se mais seguro, como quando da época que essas crenças existiam. Não importa o quão odiosa ou retrógrada uma crença seja, desde que ela dê ao indivíduo o que ele mais deseja: segurança contra o mundo que ele sente lhe ofender. 

Também dizem que as coisas vão melhorar, com absoluta certeza; que não se tem mais espaço para velhas crenças, que isso que passamos agora é um respiro final desses velhos tempos. Que o futuro será iluminado pelas liberdades de ser e estar. 

Eu sou historiador de formação. Não acredito muito nesse último argumento; O que vejo na história são espirais de repetição, a velha coisa da tragédia e farsa sempre se repetindo ao longo de nossa triste saga na Terra. Mas algo em mim quer crer no fim de tanta desilusão, tanta tragédia desnecessária. Algo em mim quer crer que iremos ficar melhor depois disso. 

Talvez eu esteja só ficando velho mesmo. 


terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Crônicas do Novo Normal: 2022 e o quebra-cabeça musical.


Eu tenho ouvido muita música nos últimos dias. George Harrison, Paulo Diniz, Rita Lee, Modest Mouse...A lista é grande é entremeada de um monte de cantores e bandas bem ecléticos. Acho que isso vem do meu entendimento de música: ela serve menos como identidade, e mais como uma espécie de gabinete de emoções: o que você quer sentir hpje? O que você precisa sentir hoje?  Não é a toa que quem sofre, tende a pôr uma playlist de seu cantor favorito para chorar: Música é exorcismo também, acima de tudo. 

Talvez por isso eu esteja ouvindo tanta música esses tempos, pois a verdade é que eu tenho tentando pensar em que espécie de pessoa eu quero ser neste ano que virá. Tenho certeza que muitos dos leitores também pensam da mesma forma, naquele tipo de resenha crítica de como foi seu ano. Se assim for, espero que vocês tenham tido compaixão consigo mesmos, e percebido que muita coisa não poderia ser feita: estamos ainda no meio de uma pandemia (que inclusive, parece que vai voltar com alguma força em 2022), há que se fazer o que se tem forças físicas e mentais para conseguir. 

Mas no meu caso, tenho pensando muito nisso porque existem grandes mudanças vindo em 2022, pessoalmente. E eu sempre me sinto a deriva um pouco nesses momentos, e por isso ouço tantas canções , antigas e novas. Suponho que busco nelas algum pedaço de mim cnatado por outra pessoa, para poder me remontar de uma forma mais colorida. 

O resultado é tão híbrido quanto confuso: um pedaço meu está naquela canção do Nirvana, mas também tem um pouco ali em Beatles. Outro talvez eu encontre naquela canção do Roberto, outro pode estar nas canções da Gal mesmo; tudo é uma busca. Os ouvidos ficam zunindo depois de tantas sessões(pois não sou nada além de fanático nessas buscas), mas há mesmo uma paz grande em meu peito quando consigo encontrar esses pedaços, algo como a sensação de uma peregrinação cumprida, que foi satisfatória. 

Ainda estou buscando muitos pedaços. Mas quem sabe até o fim de Janeiro eu já não tenha uma boa ideia? Por hora, sigo o conselho do velho filósofo: vou conhecendo a  mim mesmo, com a trilha sonora que eu achar que encaixa melhor. 


quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Crônicas do Novo Normal: Viciados em Frutas Anônimos


No Domingo houve uma feirinha aqui no condomínio, onde tentei vender meus livros e consegui muito mais amizades que vendas. Na sala onde eu estava, conheci uma confeiteira de mão cheia vendendo pães de mel (comprei), uma artesã com uma bolsa manufaturada muito bonita e prática (comprei também), e este que vos fala (ninguém comprou de mim porém). 

É claro que não havia só nós na feirinha, e uma das pessoas que ali estava era uma moça muito simpática, que chamarei aqui de Flora. Pois vejam, o comércio de Flora eram não livros, bolsas ou doces: seguindo um caminho muito mais natural, ela estava vendendo frutas. Não frutas quaisquer, veja: ali haviam ameixas (daquele tipo gigante e docinho que só vi aqui por São Paulo), pêssegos, morangos... A venda aqui era de alta qualidade, e por preços honestos. 

Sou um fraco por ameixas: comprei de Flora uma boa bandejinha, e um punhado de pêssegos de lambuja, afinal, estava me sentindo rico com todo o dinheiro que não arrecadara naquele fim de semana. Terminada a feira, levamos as frutas para casa, lavamos, e começamos a comê-las. 

Foi nosso erro: as ameixas não eram só doces; eram fora do comum. Comemos ameixas e pagamos o preço sanitário de comer tanto, mas não conseguimos parar. O pêssego, também,  se demonstrou uma fruta excepcional, doce e ácida na medida certa. Para mim, um indivíduo que só conhecia pêssegos em calda nas latas da vida, aquela fruta foi uma descoberta, e um manjar. 

E porque as frutas erma tão boas, estamos agora com o contato de Flora, nossa fornecedora oficial; Sabemos dos horários que ela recebe as melhores frutas (pela manhã, às 10), e qual o procedimento para pegar as bandejas. Entramos em contato com ela pela noite, e perguntamos qual a melhor fruta para se comprar naquele dia (amanhã, por exemplo, é dia de cereja). 

E cá estamos, eu e minha esposa, conversando um com o outro como se fossemos viciados em drogas esperando o carregamento:

- Falei com a Flora... amanha ela não tem morango. 

- Droga! A gente perdeu a oportunidade de hoje...

- Mas ó, ela disse que amanhã consegue pra gente 200 gramas daquela ameixa docinha...

- Reserva, reserva! 


Eis o Mistério da fruta. 


quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Crônicas do Novo Mundo: Um Lançamento

Fonte: Blog Adrielson Furtado

É estranho voltar de onde se saiu, com a cabeça de não mais retornar. Mesmo que seja uma visita, fica aquela sensação: Por que estou Aqui, se meu futuro é Ali? Qual o motivo desse retorno?

Esses eram meus pensamentos quando cheguei em Belém, alguns dias atrás, para lançar meu livro O Catálogo das Coisas Específicas (ainda a venda, entre em contato comigo para saber como adquirir seu exemplar). A viagem foi horrível, com o aeroporto bagunçado, e três horas e meia de turbulências que me impediram tanto de dormir como de ler sem sentir enjoo. Quando saí finalmente do avião, o bafo quente da cidade me acolheu às quase 3 da manhã, e eu soube, finalmente, que tinha retornado à minha cidade natal. 

Tenho uma relação conflituosa com Belém do Pará. Por um lado, é onde nasci, e me criei. A maior parte da minha família está lá, com destaque, é claro, para meus pais, ainda vivendo na casa que nos mudamos quando eu ainda contava com cinco anos de idade, e meu irmão mais novo praticamente tinha acabado de nascer. 

Tudo isso deveria causar um efeito de nostalgia em mim, e realmente assim acontece; apesar disso, não consigo deixar de me sentir um pouco mal quando vou para lá, porque quando passamos muito tempo em um lugar determinado, é inevitável ver ali seus triunfos e seus fracassos. Como bom católico relapso que sou, a maior parte do que vejo ali são minhas falhas, andando pelas ruas como fantasmas a demandar atenção para si, ou talvez redenção. 

O leitor pode imaginar, portanto, que a maioria das minhas viagens são temperadas por essa tristeza, e é verdade. Contudo, dessa vez, as coisas foram bem diferente; talvez porque era um momento especial (meu primeiro livro solo, a primeira vez que veria meus pais depois dessa pandemia tão cruel, a primeira ve que veria minha sobrinha Maria Estela...), talvez porque os livros que tenho lido tem deixado minha mente mais aberta (James Lee Burke é um poeta da literatura policial), ou talvez simplesmente seja meu terapeuta Dr Pedro conseguindo me fazer alcançar um avanço mental maior que antes: o fato é que dessa vez, a sensação foi muito diversa de vezes anteriores. 

Como posso explicar? É difícil. Existem sentimentos que nem o melhor dos escritores conseguiria pôr no papel, e eu estou longe de ser um destes. O que posso dizer é que, enquanto andava pelas ruas da cidade, acompanhado de meus pais buscando uma calça para mim (este, um tema para a próxima crônica), olhei para o céus, senti o calor, e não pude deixar de sentir uma ternura imensa pela cidade, como quando sentimos quando se vê um animal ferido andando pela calçada, machucado mas ainda belo em seu porte e aparência. 

O sentimento se espalhou durante toda a viagem, e cada pessoa que eu vi, e interagi, só me fazia sentir ainda mais este carinho imenso, esta ternura profunda. Então percebi porque me sentia mal indo para Belém: a cidade não falhou comigo, mas eu sim, que pus nela a minha imagem de pecador, de culpado. Não era a cidade que era feia, e sim a minha visão de mim mesmo, que assim era.  

E quando consegui ver a cidade com outros olhos, consegui me ver com esse mesmo olhar novo; e finalmente o véu do julgamento caiu de meus olhos.

Desta forma, no dia 04 de dezembro, lancei muito mais que só um livro: também lancei uma nova imagem de mim mesmo. 

E você leitor, quando foi seu último lançamento?



quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Crônicas do novo normal: Duas histórias de Luto


Tenho pensando muito, nesses dias, sobre a perda. Aquele momento inevitável que ocorrerá na vida de todos, em algum momento, seja de um familiar, de um amigo, ou mesmo de uma pessoa que você admirava e simpatizava mesmo, por que não? Perda é perda, e os simbolismos que ocorrem são os mesmos, creio eu, embora talvez em uma intensidade menor. 

A cabeça que uma pessoa tem, quando está sentindo a perda, é algo inescrutável, posto que cada um age de uma maneira específica. É por isso que é tão cruel julgar como reagem parentes e amigos num funeral, não sabemos como está a cabeça deles, não realmente. Existem formas e formas de se lidar com a dor. 

Um exemplo: Lembro quando houve o funeral da minha avó paterna, tantos anos atrás. Enterramos ela por baixo de uma chuva forte, um clichê que ajuda muito a entender o momento grave da situação, acredite. Voltamos correndo para nos abrigar sob uma espécie de pergolado que ficava ali no cemitério. Quase que como um código, chegamos ali, e os parentes começaram a contar piadas e histórias engraçadas sobre a minha avó, sobre a vida dela. Eu lembro disso tão claramente, porque me pareceu uma espécie de desrespeito à memória dela. 

Seis meses depois, meu tio, irmão de meu pai, falecia também. Como que por rima (mais que por razão), também chovia muito naquele dia; ajudei a carregar o  caixão nas duas ocasiões, então lembro bem da sensação de andar com o pé enterrando na lama tenebrosa do cemitério, o mesmo para os dois entes queridos. Também naquele dia corremos para o pergolado, também naquele dia começaram as piadas e histórias engraçadas sobre ele, meu tio. Só seis meses tinham se passado, mas eu entendia melhor naquele dia: Era a forma deles celebrarem a memória, não um desrespeito. Aquelas pessoas não conseguiam enfrentar a dor, sem o escudo do humor. 

Agora, que estamos cercados de morte por todos os lados (mais que o normal, diga-se, em um país que a morte surge pela manhã em nossa TV, como se fosse parte de um desjejum macabro), é bem claro para mim que o Brasil está em Luto. E talvez estejamos buscando, também, uma forma de lidar com ele, pelo riso ou pela dor. 

Sei bem que passamos por fases de tentar esconder e seguir em frente (um clássico do Brasil), mas agora, perto do fim do ano, talvez seja a hora de buscarmos entender essa dor, essas perdas, e decidir o que fazer com elas na cabeça. 

Talvez escrever uma crônica?

domingo, 21 de novembro de 2021

Crônicas do Novo Normal: Amores e Cegos



Esses dias eu vi mais uma série bosta de Netflix, esta chamada "Casamento às Cegas". Tornou-se, penso eu, um tipo de esporte entre as pessoas que saem pouco de casa e enfrentam essa pandemia interminável, buscar séries lixo que você possa apenas assistir e não refletir tanto, não pensar nos milhões de mortos, na inflação galopante, no desemprego batendo às portas. 

Apesar disso, não consigo realmente ficar sem pensar em alguma coisa, deve ser mal de estudante de Humanas. Então eu via a série e me assustava, porque ali em plena netflix, eu via uma série de pessoas entregues a um experimento completamente insano, pondo em jogo sua própria saúde emocional, Só por um pouco de companhia. Uma aposta alta, baseada em falsidades, para uma conquista vã. 

É fácil pensar nessas pessoas como estúpidas (deus sabe que eu fiz isso), mas se a gente pensar bem, quanto de nós mesmos não está ali? Esse desespero, essa fome por afeto, carinho, companhia? Eu fico pensando muito nisso. Quando mudei para São Paulo, eu passei muito por isso, e suspeito que muitas pessoas que vagam por essas terras passaram e ainda passam por isso. Não é a toa que Roberto Pompeu de Toledo chamou São Paulo da "Capital da Solidão", e que Criolo cantou destas terras: "Não Existe Amor em SP". É uma cidade cruel às vezes, esmagadora sempre, ainda mais com quem acabou de chegar e não conhece ninguém. 

Mas será que é só Sampa mesmo que é assim? Vendo esse programa, e pensando na vida, fico imaginando que o mundo em si é assim agora, lugares cheios de almas tão vazias, citando novamente Criolo. Que menos que amor, o que a maioria tem em seu peito é angústia, e quando duas pessoas se juntam em suas angústias e terrores, acham companhia, e confundem isso com amor. 

Ou será que isso foi o amor mesmo, desde sempre, e eu que não sabia identificar? 

Fica a dúvida. 


quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Crônicas do novo normal: Buscas


Quando eu era criança, eu queria ser detetive particular. Não sei dizer se é um sonho comum entre os pequenos; no meu caso, eu comecei com isso porque tinha lido muito Sherlock Holmes e Miss Marple (minha personagem favorita de Agatha Christie), e achei que era algo que eu gostaria de fazer da vida, resolver mistérios, ajudar pessoas. 

Cresci um pouco mais, e então decidi tornar-me historiador, após um flerte rápido em talvez jornalismo (que meu pai, ele próprio um jornalista aposentado, rapidamente terminou com umas boas doses de realismo sobre a carreira). Já naquela época, antes de até mesmo considerar fazer os processos seletivos da faculdade, eu não tinha ilusões: sabia que meu futuro seria ser professor. Mas achei que em história, eu saberia entender um pouco mais do que estava querendo entender. Eu ia conseguir encontrar a chave do que quer que eu estivesse tanto querendo saber. 

Me formei, fiz especialização em arqueologia, vim para São Paulo para o mestrado em imigração japonesa... e ainda nada do resultado da busca. Para sobreviver, comecei a dar aulas de inglês - algo que, de fato, eu sempre quis fazer. E veja a surpresa, comecei a conhecer muito das pessoas. Um professor de línguas deve mais ouvir que falar, e nesse meio, ele acaba ouvindo confissões, desabafos, rotinas de seus alunos. O professor acaba virando essa figura mista, confessor/terapeuta/mestre. 

Mais que isso, ao dar a aula de inglês, e conversar com as pessoas, eu comecei e entender o sentido da minha busca. Não a resposta para ela, veja bem: porque, por vezes, é mais fácil sentir a resposta para sua pergunta que efetivamente tê-la em palavras. Mas posso dizer que meus alunos, que eu ensinei e ensino todos os dias, me ajudaram a entender melhor parte de mim, e com isso, me ajudaram a chegar mais perto do que eu buscava, a verdade que eu queria, e quero, saber.

E no fim, as pesquisas, os estudos, as aulas que dou e recebo, me deixaram mais perto desta verdade. E eu nem ao menos sei dizer qual é ela, mesmo depois de tantos anos. Acho que possivelmente será uma busca eterna, uma cenoura que impulsiona este cavalo cansado a caminhar e caminhar. 

E enquanto não chego ao meu destino final, vou buscando verdades, e conhecendo pessoas.