sábado, 19 de setembro de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: O que há em um nome?


Nomes curiosos são comuns por este país de Madinusas e Waldisneys, mas e lugares com nomes bizarros? Essas também temos, e em borbotões. Recentemente li um post do grande poeta Juraci Siqueira, onde ele fala de uma localidade da minha terra natal, chamado Mosqueiro. Um nome peculiar, de fato, que tem suas origens um tanto nebulosas: uns dizem ser provindo de nome de uma prática indígena, outros dizem que tem mais a ver com a quantidade de moscas que sobrevoavam as entranhas de peixe jogados ao relento pelos pescadores locais. 

Estou inclinado a acreditar nessa segunda versão, pois já tive a experiência de ir almoçar ao ar livre neste distrito, e é realmente uma luta para não se engolir um inseto. Não que eu esteja reclamando, o peixe estava fenomenal. Ademais, já comi com iguanas montados em árvores defecando no meu chapéu de quase-arqueólogo, então moscas para mim não são tão  danosas quanto se pensaria. 

Isso tudo me fez pensar em tantos lugares pelos quais já passei, tantas coisas que já vivi. Em um dado momento da minha vida, anos atrás, fui membro de uma espécie de comissão para alfabetização de adultos, organizada pela Secretaria de Educação do Pará - SEDUC. Foi uma coisa ímpar de se participar, quanto mais não seja pela absoluta atmosfera de desconfiança e abusos ocorrendo a  olhos vistos; mas isso é uma história para outra crônica. 

O que me fez lembrar deste momento, foi a quantidade de nomes interessantes que vi surgirem em minha frente, alguns com origens decididamente indígenas (Igarapé-Açu, Xinguara, Tucuruí...), outros com um pezinho nas terras lusitanas colonizadoras ( Bragança, Benevides, Santarém...), e até mesmo nomes bastante inusitados (Curralinho, Capitão Poço, Garrafão do Norte...). 

Tantos nomes interessantes, e fico pensando: como eles nasceram? O que levou uma pessoa a pensar estes nomes? Assim como o nome de crianças, o nome dos lugares é carregado de uma história (por pífia que seja), e eu me pego, por vezes, pensando nos rumos de um grupo de desbravadores que resolveram, após uma longa reunião, chamar um lugar de, por exemplo, "Botas de Judas". Ah, ser uma mosquinha viajante no tempo, e ver esta reunião curiosa!




domingo, 13 de setembro de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Anger

Artista: Luke Ross

 Eu tenho um problema complicado. Chama-se raiva. Creio que talvez muitos de meus tempos e minha geração também tenham esse problema, embora eles não saibam muito bem que o tem. Trata-se, afinal, de uma questão surpreendentemente  discreta, algo que não associamos necessariamente com esta emoção tão aberta, tão crua, em tese. 

Mas a raiva pode ser perfidiosa também, pois na verdade é uma emoção que somos forçados a conter. Exceto em casos considerados "normal" ter raiva, não se tem uma boa visão dos que se deixam cair nessa emoção - ou ao menos não se tem uma boa visão destes como civilizados. E no entanto... o que é civilização? Pela visão de quem? Mas divago, divago. 

A mais explosiva das emoções pode vir das coisas mais simples, e das mais complicadas, mas sempre se pede que você a segure, a reprima, para poder seguir o dia e trabalhar. Como, aliás, se pede para que façamos com todas as emoções...  vivemos em uma era de repressão, exceto quando estas emoções sirvam algo nefasto, como o preconceito, ou a intolerância. O amor (independente de gênero ou raça), a sensibilidade... todas estas coisas, que poderiam nos ajudar a abrir a mente para um mundo mais forte e justo, são ignoradas, esquecidas, desvalorizadas.   

Mas a Ira bíblica, essa coisa nociva no peito, essa é a emoção mais capturada por almas nefastas como algo nobre a se sentir, o que embora seja tentador, também é um erro. Porque entende-se a raiva como poder, como criador de uma espécia de força interna que vai lhe dar a justa libertação, a ira sagrada que tudo perdoa após as transformações. E não é bem assim, não é mesmo? Muitas vezes, a raiva é a abertura de todas suas feridas passadas e presentes, ao mesmo tempo, sangrando no peito incontrolavelmente, e os berros de raiva são, em verdade, gritos de uma dor nunca sentida direito. 

Pois que seja aberta a temporada de sentimentos expostos. Que curemos nossos peitos, sem idealizações, mas com responsabilidade para com os outros. Que não deixemos nossa raiva nos dominar, nem deixemos que outros nos digam que as pessoas merecem o impacto dela. Temos afinal, o direito de estar irritados, mas não de sermos crueis. 



domingo, 6 de setembro de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Os Bons Corvos da Tempestade


 

O mundo é um lugar muito esquisito, é o que eu sempre digo à minha esposa e também aos espiritinhos que queiram adentrar neste plano. Muito do que é  certo, pode ser considerado errado só pelo  bel-prazer de uma situação política, e o contrário também é verdade; de fato, hoje em dia parece que mais do que nunca o errado é que tem sido considerado o certo, numa reversão perversa de fatos e dados. 

Vejamos por exemplo o caso do COVID-19, a peste que mais assola nosso mundo, depois da estupidez galopante (que parece matar tanto quanto o Corona). Desde o começo, a batalha contra a doença parece envolver tanto a busca da cura, quanto lutar para as pessoas seguirem instruções tão simples quanto usar uma máscara.  Por vezes, parece que se está pedindo para eles lhe darem um dinheiro, ou um rim. A teimosia é galopante, e pior ainda fica com o manto de "luta pela liberdade", pela liberdade de ficar doente e de passar a doença para outros. Pura estupidez. 

Pior ainda as coisas ficam, quando as pessoas passam a perseguir quem lhes dá a situação real que as cerca. Isso, de fato, nem novidade é: a velha tática de se culpar o mensageiro. Ninguém gosta de notícias ruins, é óbvio; assim, as pessoas que se prestam a informar das possibilidades nem tão boas que possam vir a acontecer são xingadas, espezinhadas, vilipendiadas. Hoje em dia, porém, isso ficou mais comum que antes; não se pode considerar, por exemplo, os ricos de uma vacina russa não testada apropriadamente, que já se é considerado um torcedor do COVID. Não se pode querer planejar para o pior buraco econômico possível que pode vir a acontecer, que já se tem um estigma de "agoureiro". 

Sou totalmente a favor de termos otimismo, e buscarmos o que há de melhor nestes tempos tão difíceis. Mas otimismo baseado puramente na vontade de negar o óbvio não é algo bom.  na verdade, é uma bruta estupidez, uma canalhice consigo mesmo, porque você está mentindo para si mesmo ao invés de sentar e se preparar para os desafios que podem vir. Nestes momentos, ao invés de apedrejarmos os corvos que anunciam a tempestade, porque não aceitar a mensagem deles, e nos anteciparmos em buscar um telhado para o cair das águas e o vendaval? Me parece muito mais produtivo que ser um irracional,. e culpar os mensageiros pela mensagem. 






terça-feira, 1 de setembro de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Os falsos profetas



Dizem que as pessoas devem buscar sua espiritualidade, para tentar entender melhor esse mundo. Nisso tudo, existem vários caminhos  e estradas para um vivente seguir. Budismo, espiritismo, catolicismo, protestantismo... e eses são apenas os nomes que eu pude lembrar. A quantidade de opções espírituais para as pessoas é enorme, talvez tão grande e variada quanto o próprio tempo histórico. 

Dentro desses, é fatal que hajam favoritos - e que hajam os que forçam sua forma de louvor como a única certa. De fato, é o que mais tem acontecido nesses tempos, e quando digo esses tempos, quero dizer "desde o começo da humanidade". O próprio cristianismo não chegou ao ponto que está hoje somente pela caridade e pela boa propaganda: houve ali muita morte dos "impuros" para ascensão desta religião. 

Evidentemente, é preciso dizer que esta imposição não é a história toda destes caminhos religiosos. Contudo, hoje em dia, ela é a norma, não a exceção. Especialmente no nosso Brasil varonil, pessoas forçam em nós suas crenças, e forçam nas leis ao redor seus pontos de vista, como se fossem eles os úncos certos. Não precisamos nem voltar muito atrás para ver exemplos disso: Alguns dias atrás, havia uma corrente de ditos "cristãos" tentando impedir o aborto de uma menina de 10 anos, chamando médicos de assassinos. As mesmas pessoas, diga-se, que pregariam o perdão para o estuprador desta mesma menina. 

Ou talvez um outro exemplo melhor seja a verdadeira corrente de ódio e perversidade que a pastora Flordelis armou com sua própria família, algo que culminou no assassinato do seu esposo, com a participação de seus filhos. Uma mulher, diga-se, que pregava aos quatro ventos que era a mais moral. Como muitos aliás, que se vestem do manto da cristandade, que é na verdade a coisa mais falsa e hipócrita possível nesses dias. Se me permitem dizer, enquanto católico relapso que sou (e bem mais cristão que esses que por aí expõe), conheço literalmente satanistas que são muito mais dignos do reino dos céus que essa cambada de pastores e padres podres. 

É isso que eu tinha a dizer. Que caiam os pedaços de bosta humanos que se dizem conhecedores dos caminhos de iluminaçãi; que a humanidade encontre sua gnosis sem precisar, nunca mais, de falsos messias e práticas torpes. Que haja a LUZ. 



sábado, 29 de agosto de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Carta ao que não veio (ainda)

Prezado filho. Ou filha; não sei ainda quem você é, só sei o que você será quando existir: amado/a, muito amado/a. 

Hoje mesmo conversei com você, com  força do pensamento. Foi numa hora peculiar; eu estava meio que meditando, e me veio à mente a vontade de falar com você. Não creio que isso tenha afetado a meditação, ao contrário, acho que só reforçou a coisa boa no coração, sabe? Aquela sensação boa de bem-querer que se tem nessas horas. 

Eu digo "sabe", porque tenho certeza que sua alminha já veio por aqui. Então você já veio e viu este vale de lágrimas, deu sua volta, entendeu como as coisas eram aqui. Não sei dizer quem você foi, ou o que você fez nessa sua estadia anterior. Não me cabe julgar: o que quero é que você venha de novo, se puder, se quiser, porque eu e sua candidata à mãe, estamos ansioso para lhe ajudar a prender mais, a ser uma boa pessoa, que construa o mundo, no mundo. 

Não posso dizer, criança futura, que sou um bom homem. Ao contrário, eu acho que muitas pessoas diriam que sou uma pessoa falsa: Ora, quem é Alfredo Neto para falar de coisas boas, ele que só queria saber de hedonismo e fuzarca? Eles dizem isso, pois não sabem que um homem pode viver mil vidas, em um ano. Não acreditam na mudança de um indivíduo, como eu e você acreditamos. Estou certo que você acredita, porque por essas alturas já deve saber que quando chegar aqui, será uma nova pessoa. 

Não posso também, dizer que o mundo melhorou. Não sei quando foi que você saiu desse plano, mas a bem da verdade a coisa nem piorou nem melhorou, apenas ficou exposta, em carne viva, para todos verem. Isso dá a impressão de que as coisas estão piores do que nunca; mas na verdade ela só estão as mesmas. A dança nunca muda, só os atores, e assim, um coisinha aqui e ali para o melhor. O paraíso está nos detalhes, meu amado infante. 

O que posso prometer - o que podemos prometer, eu e Aline, ambos unidos nessa promessa - é que há coisas maravilhosas nesse mundo também, como você deve saber. Há o vento; há as praias. Há o carinho de quem te ama, e comidas gostosas! Tantas comidas gostosas, a se perder de vista. Possot e prometer mostrar tudo isso, e você decidirá o que gosta e desgosta. E a cada passo que der, um novo degrau para a suas conquistas estará exposto. 

Enquanto você ainda nem surge na barriga da sua mãe, vamos preparando as coisas por aqui. Não prometo um mundo melhor, não está ao meu alcance... mas prometo que SEU mundo vai ter coisas muito, muito boas e lindas. Palavra de futuro pai. 




segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: A marca de uma lágrima

The cry, por Kelly Mills.


O valor do choro é algo inestimável, e no entanto tantas pessoas julgam-no algo pobre, algo pouco. Por muito tempo, chorar era algo como que um sinal de fraqueza: "menino, engole esse choro! Homem não chora!" "Agora não adianta chorar!" etc. Principalmente entre os homens, chorar era quase assim, como que um ato falho imperdoável: então você chora por qualquer coisa? Que fracote! Que maricas, diriam os outros, usando esse xingamento tão chulo quanto sem sentido. 

Sim, o choro foi igualado, por muito tempo, a uma fraqueza de espírito, que por sua vez era igualado a uma fraqueza decididamente feminina, no velho pensamento que a mulher é por natureza fraca, e o homem é por natureza forte e invulnerável à emoções. Como se isso fosse possível, ser impermeável à emoções. Não são elas, afinal, que nos tornam humanos?  Ou talvez seja isso que deseja-se dos homens: que eles sejam acima da humanidade. Uma luta vã, é claro. 

Quisera eu dizer que estas ideias são coisas do passado, mas acontecimentos recentes me impedem de poder fazê-lo. E quisera também poder dizer que é um caso isolado do nosso país: ao que parece, todos os podres poderes se reuniram para retornar com tudo, e eu não sei dizer quando eles vão embora. Algumas pessoas, mais otimistas, dizem que é só o último respiro de um mundo antigo, antes do nascer do novo. Essas pessoas claramente não conhecem a História. O Passado sempre volta. A perseguição ao que é considerado fraqueza, portanto, sempre voltará: os sofrimentos sempre sendo empurrados ao fundo do peito, até tornarem-se um câncer devorando tudo por dentro.

Por isso, urge que não esqueçamos as pequenas coisas que podemos aprender de tantos ciclos passados de dor, e que possamos iniciar um novo momento, após esta pandemia, onde mudemos uma pequena coisa que seja, um míinimo elemento. Que sejamos mais fieis ao que sentimos, e não no sentido que todo adolescente diz ser. Que choremos quando a dor apertar o fundo da alma. Que assim aprendamos o valor dos momentos felizes. 








sábado, 22 de agosto de 2020

Crônicas da Cidade Pandêmica: Fantasia Final, e Inicial.


Uma das coisas que é tema recorrente com meus amigos, familiares, e terapeuta, é o quato eu tenho a capacidade de me perder dentro de mim mesmo durante uma conversa qualquer. Não se trata de algo que eu faça de propósito (bem, talvez um pouco): simplesmente trata-se de uma espécie de defesa contra assuntos que me deixem um pouco mais  acuado, ou atormentado. E um pouco também porque eu me entedio Às vezes, mas isso é assunto para OUTRA crônica.... 

Enfim, umas das muitas coisas que me fazem viajar dentro da minha própria cabeça é uma boa história, e talvez por tradição, em geral uma história de fantasia tende a me levar pra longe. Quando digo isso, quero dizer que qualquer que seja o meio por onde essa história é transmitida (jogos, livros, filmes, etc), é ali que eu fixarei -embora eu confesse que livros e jogos são os métodos que mais me prendem a atenção esses dias. 

Fantasia é um gênero que está comigo desde muito cedo, curiosamente, começando com lendas e mitos gregos. Havia, por muito tempo, um esforço no Brasil por se divulgar estas ficções, e fui afortunado de ler livros com histórias gregas adaptadas por Luiz Galdino, e alguns outros ainda mais antigos, com nomes que infelizmente não saberei lembrar agora, mas que envolviam, com certeza, Monteiro Lobato. 

Depos vieram os jogos, os rpgs de videogame. Ali eu senti minha mente se abrindo, como aliás deve ter acontecido com todos os amigos nerds do começo dos anos 2000, final da década de 90. Foram tantas histórias acontecendo ali; foi acima de tudo uma época de outro para emulação de jogos mais antigos, então eu pude ter acesso a jogos de RPG do Nintendo e Super Nintendo, além de jogar nos PSX de locadoras escusas ao redor da minha vizinhança. Foi a época dos Final Fantasy, ou "os jogos que me fizeram aprender a ler em inglês". 

Em matéria de livros de fantasia não-grega, eu sou um fã confesso de Senhor dos Aneis, e mais de uma vez me afundei no volume ùnico da Martin Claret. Foi meu portal de entrada em drogas mais pesadas: se hoje tenho uma quantidade proibitiva de se carregar  por aí, de livros fantasiosos, devo a Senhor do Aneis. Os filmes também, embora eu tenha lido os livros antes de ter a oportunidade de vê-los. 

Em tempos como estes, acho que a fantasia tem muito a dizer. Alguém disse, em algum lugar, que a utopia é necessária, quanto mais não seja, para que possamos tentar chegar nela, e alcançar um mínimo de felicidade que seja. E  quando olhamos as coisas terríveis que tem acontecido, vemos o poder que ideias, mesmo nocivas, tem em cima das pessoas. Sendo assim, por que não tentarmos plantar ideias boas? E que terreno mais fértil, mais produtivo, que o da fantasia? Acho que podemos nos surpreender com os resultados.